A tragédia do Haiti*
Em Janeiro de 2010 o Haiti era devastado por um sismo de enorme intensidade. Em Janeiro de 2011 constata-se que a ajuda internacional não foi sequer suficiente para dar uma aparência de normalidade àquele país. Mas convenhamos que, a não ser que a ajuda internacional tivesse características miraculosas, o resultado só podia ser este, pois a ajuda internacional não pode fazer do Haiti aquilo que ele não é: um Estado. Os mortos nas ruas já lá estavam antes. As forças internacionais para garantirem um mínimo de ordem também. E os protestos e a consternação perante o mundo que nunca faz o suficiente pelos haitianos também já se faziam ouvir. O Haiti não é o símbolo do falhanço da ajuda internacional. É sim o símbolo igual a tantos outros daquilo em que se pode transformar um Estado falhado.
O mundo está neste momento cheio de Estados falhados. O Haiti apenas é mais conhecido porque a natureza acentua ali os erros dos homens e porque está demasiado próximo dos jornalistas norte-americanos e das ambições do Brasil, que tem um papel vital na missão das Nações Unidas naquele país. Mas se passarmos para África, o conceito de Estado falhado serve hoje para definir um impressionante conjunto de países que não há muitos anos encheram os sonhos revolucionários dos europeus e norte-americanos.
Hoje já ninguém se espanta, quando se sabe que grupos de operações especiais vão resgatar cidadãos europeus a países independentes no continente africano: escassos dias antes de acabar 2010 fomos informados que o Grupo de Operações Especiais da PSP trouxera sãos e salvos 12 portugueses que se encontravam na Costa do Marfim. Para quem estiver esquecido, recordo que a Costa do Marfim é independente desde 1960.
Há alguns anos uma intervenção destas teria dado azo a protestos, indignações e seria veementemente desmentida pelos países que as tivessem levado a cabo. De igual modo se aceitava que os sequestrados expiavam uma espécie de culpa que se não era deles propriamente ditos era do que os levara àquelas paragens. Uma das coisas mais impressionantes ao ver-se a imprensa portuguesa e internacional dos anos 60 e 70 do século passado é a indiferença perante o destino dos raptados. Portugal teve vários em Moçambique, na Guiné e Angola. Eram motoristas, madeireiros e agricultores. Alguns eram simples trabalhadores das estradas. Outros técnicos importantes. Alguns deles foram maltratados nesses cativeiros. Outros morreram. Por razões opostas nem o regime, nem aqueles que o contestavam estavam interessados em divulgar as trágicas situações que estes portugueses enfrentavam. É na imensa tolerância que nesses tempos se manifestou para quem os raptou e não raramente torturou e matou e não no falhanço da ajuda internacional que está uma boa parte da explicação do falhanço destes Estados.
*PÚBLICO

Moral da estória, o falhanço dos estados está na tolerância para com raptores.
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O Blasfémias que é tão rápido a comentar as baboseiras de Vasco Pulido Valente não tem nada a dizer sobre a crónica deste (adjectivo ao gosto de cada um) no Público deste fim de semana, sobre Victor Alves?
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Realmente é incrível o falhanço do Haiti, mesmo sendo o quintal liberalizado do estimação dos EUA. Cuba, ali ao lado, foi e será mil vezes melhor para se viver.
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– “De igual modo se aceitava que os sequestrados expiavam uma espécie de culpa que se não era deles propriamente ditos era do que os levara àquelas paragens.”
– Livre associação de argumentos e histórias mal sustentados. Haiti, Costa do Marfim, “África pós-colonialismo em geral” tudo no mesmo saco, mas a atirar para o sentimentalismo da situação dos retornados. No final, a cereja em cima do bolo. A solução para o problema da guerra civil e falta de crescimento em África. É ligar já para o Banco Mundial.
Isto está mesmo no Público?
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A vigarice do polìticamente “correcto” não permite aceitar o óbvio…
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A tua visão do Mundo é lucida corajosa eexemplar infelismente nem todos lêm as entrelinhas
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