Os engenhosos das palavras*
José Sócrates e a sua gente criaram uma espécie de ideolecto. São proverbiais os casos da mentira que passou a inverdade e do conhecimento que se subdividiu em formal e informal. Estilisticamente é também de assinalar o uso da negação como uma forma de confirmação – já se sabe que dos negócios da PT aos impostos aquilo que o Governo diz que não vai acontecer é precisamente aquilo que já aconteceu – e destaca-se o recurso aos adjectivos como se fossem metralha: os caluniadores e os pessimistas deram lugar aos bota-abaixistas e aos tremendistas. Quando a realidade provou que tudo aquilo que os bota-abaixistas e os tremendistas tinham vaticinado pecava pelo optimismo, surgiram os antipatrióticos. Não demora para que cheguem os traidores.
Mas é no dia-a-dia que este “falejar” mais se tem entranhado, colando-se-nos como se fosse uma espécie de algodão doce: desde que se diga uma vez “cidadania”, duas “modernidade”, três ou quatro “progresso” e “inclusão”, tudo se explica. No limite, perde-se a noção do ridículo, o que é um sinal mais que óbvio do estado de alienação a que chegámos. Por exemplo, como é possível que não desatemos a rir (ou a chorar!) quando se lê que o Governo resolveu construir “uma esquadra do século XXI” no Terreiro do Paço? Tendo em conta que esta decisão foi tomada em 2008, de que século haveria de ser a futura esquadra senão do XXI? A única forma de não o ser é concebê-la como um cenário de um filme de época e organizá-la à luz do que era habitual no século passado. (Valha a verdade que para viajarmos até às esquadras dos primórdios do século passado não era preciso tanto trabalho: bastava retirar os computadores de algumas delas e caíamos nos idos dos anos 30 do século XX.) Ou então arrastava-se durante 90 anos a sua construção – e aí a esquadra seria do século XXII mas ainda nos moldes do XXI.
Dirão que no meio da crise em que estamos afundados nada disto é muito relevante. Não é verdade. Foi com palavreado deste que o país se deleitou e que chegámos a um dos momentos mais vergonhosos da nossa História. Era como se o anunciado fosse realidade. Agora que este efeito mágico das palavras se desfaz só nos sobra a caricatura. Uma das vítimas deste desmoronar do reino do anúncio é o ministro das Obras Públicas, que continua a andar por aí a anunciar obras de milhões sem perceber que quem o ouve e vê na verdade não o ouve nem o vê porque está a fazer contas sobre como pagar o que deve. Se em 2008, quando a “esquadra do século XXI” foi anunciada, tivéssemos tentado perceber o que estava para lá destes artifícios das palavras não estaríamos hoje certamente em tão triste estado.
*PÚBLICO

«uma esquadra do século XXI” no Terreiro do Paço», hoje com Sócrates,
«Uma linha de TGV de Faro a Huelva», ontem com Barroso.
Graças à segregação popular das elites políticas.
Pelo meio «já reparou como a sua rua vai ficar bonita?» , cartaz de de Santana.
Isto tudo, não vem apenas do século XX, deve vir já do XIX.
Verdade, que os “engenhosos das palavras” têm lucrado com as faculdades do Regime, nomeadamente de engenharia.
Não haverá mesmo nada a fazer?
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por falar em engenhosos das palavras:
o melhor jornal do mundo cita o vosso adorado Nogueira leite:
«o psd tem estado frouxo na criação de ideias»
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O país sabe que a cada segundo que passa se enterra cada vez mais, que em alguns hospitais já não têm sequer Betadine para as operações, que quanto mais energia eólica produzir mais deficitário fica, que não cresce porque concebido para não crescer, que está enterrado em corrupção até à ponta dos cabelos, que não tem justiça, que se rouba no parlamento, que os preços no comércio do país ao lado chegam a ser inferiores a 50%, que desaparecem documentos de tudo quanto é lugar, que a segurança das comunicações é uma treta, que tem repressão sobre todos os que invadem a esfera de interesses do poder, que é comandado de avental e que caminha a passos largos para a agudização de todos este problemas por causa do aperto financeiro e económico das famílias. E perante isto, um homem só apresenta-se ao país munido de contentores cheios de mentiras cozinhadas pelos seguidores, dando-se ao luxo de dizer que o mundo está em crise quando as taxas de crescimento do PIB em quase todo planeta são elevadas, que foi o PSD que inventou as SCUT pagas quando os pórticos para sustentação do equipamento de detecção para cobrança já lá andavam a ser colocados há muito tempo, que foram os submarinos que estragaram tudo e que nem sabiam que teriam de os pagar agora, etc. E de repente, aparecem 12.000 milhões para obras, mais outro tanto para o TGV, mais 2.500 milhões para um plano digital, etc. O presidente assiste, parte dos deputados carcareja, o povo olha e alguns comentam. Preparem-se porque o desastre vai ser muito pior do que imaginam. É que a nossa miséria está no pior sítio, e não há dinheiro nenhum que a tire de dentro da cabeça. São percursos de vida. Depois de feita a história não há nada que a faça andar para trás e só muito dificilmente se muda o seu rumo. Mesmo assim, demora séculos.
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Helena, acrescente-lhe “sustentabilidade”, “resiliência”, “alterações climáticas”, “biodiversidade”
(como se não houvesse termos que há muito utilizamos para significar o mesmo .. mas não! tem de se utilizar os da moda porque senão não nos identificamos com o movimento unificador social progressista .. ai de quem submeta propostas ou projectos para avaliação em concurso que não incluam os tais termos .. chumba independentemente da qualidade!)
País da treta que se submete à manipulação social-estatizante desta tirania xuxalista e social-democrata, sem pestanejar.
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JP,
Raramente temos oportunidade de ler, seja nos blogues ou nos media, um comentario com a oportunidade e a pertinencia do que aqui hoje nos deixou. Felicito-o por isso.
ACS
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JP,
Óptimo !
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Melhor que o texto da Helena Matos só o comentário do JP. Parabéns!
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o drama da falta de Betadine…
procure-se betadine azul, que o homem escutado pela bófia voyeur, fornece.
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Excelente post. Excelente comentário de JP.
Eu não escreveria melhor. Pelo menos hoje, claro… 🙂
Parabéns!
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Mais do que engenho com as palavras, estes governantes contam com a fé de uma comunicação social na esquerda e no rótulo “socialismo”…. e como a “alternativa” não lhes agrada continuam, passivamente, a dar eco às alarvidades do sr. engenheiro. Nuanca há contraditório…
A dívida pública em 1995 era cerca de 32 mil milhões, em 2010 ronda os 160 mil milhões de euros em 2010. Factos são factos, e não deixa de ser extraordinário que a comunicação social promova a ideia de que “eles” (os governos) são todos iguais. NÃO!! Os milhares de milhões de euros que são roubados aos contribuites portugueses e às empresas para pagar os juros da dívida são responsabilidade de alguém! E não foi aquele “trapalhão” do Santana…
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Se eu fosse o Sócrates batia já com a porta e vocês amanhã iam ver como custa ganhar a vida.
Ainda é ele que trás «algum» de fora para pagar a malandragem que anda pr’ai no calçadão, nos cafés e nos estádios de futebol.
Todos querem comer mas ninguém quer trabalhar!
Vão trabalhar vagabundos ou então emigram, pois há muito trabalho por esse Mundo fora!
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Arlindo da Costa,
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Seja o Sócrates e bata com a porta. Cá nos arranjaremos sem ele, e olhe que não ficaremos pior.
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A vida custa a ganhar, excepto para o Sócrates. Gostaria de saber o que estava nas contas do Banco das Políticas Negociatas, e aposto que muito do que lá estava era socialista. Por isso é que foi sustentado até ao insustentável, ao meu custo (posso depreender que o Arlindo ou recebe do Sócrates ou ganha com este estado de coisas, pois tenho a certeza de que inteligência não lhe é falta, para defender o que, à vista grossa e sem margem para conjecturas, cheira a estrume do fresco num dia de canícula).
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JP,
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Parabéns pelo que escreveu. Directo. Curto. Verdadeiro. Incisivo.
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Gaita, faltam mais textos assim.
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O nosso “lindinho” da costa faz lembrar o piscoiso d’antigamente… Será que o “lindinho” faz parte da tropa de ranhosos que os bandalhos só-cretinos admitiram para andar a escrevinhar por aí? É provável…
Helena e JP : parabéns pelas análises.
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Essa linguagem que a HM desmascara de forma excepcional só é possível com os porta-vozes que a “máfia com experiência na maçonaria”, mais os gay-lesbos, têm na comunicação social, e que censuram tudo o que põe em causa os gangs.
Por exemplo, pq ninguém pergunta a MSoares pelo seu amigo Rui Mateus?????
Ou sobre os projectos de arquitectura das casas do Sókas e da mãe?
Ou como foi o pagamento dos projectos, dos imóveis, das taxas, etc……etc.???
E sobre o Iraque e Guantanamo: ninguém pergunta a MSoares ( e Freitas…) e Ana Gomes sobre os presos políticos cubanos e chineses…
Ou sobre a Invasão do Tibete HÁ MAIS DE 50 ANOS?
Tiveram mais que tempo para se indignar do que com o Iraque….
e no entanto, nada.
assim, se desmascaram os escroques que vendem a mentira muitas vezes repetida de que defendem os direitos humanos
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“Se eu fosse o Sócrates batia já com a porta e vocês amanhã iam ver como custa ganhar a vida.”
É verdade… quem recebe mesada dele, provavelmente teria que começar a trabalhar.
E a vida não está fácil.
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