Irritações de estimação*
Não pertencem aos meus ódios não só porque sou demasiado egoísta para odiar, mas também porque só se odeia quem se conhece, e esse não é o meu caso em relação a Jorge Sampaio, Santana Lopes e Freitas do Amaral, a saber as minhas irritações de estimação e que por uma qualquer conjugação astral têm andado particularmente activas nos últimos dias.
Os três caracterizam-se por concederem a si mesmos um estatuto de auto-indulgência que raia o ofensivo. Assim Jorge Sampaio resolveu discorrer sobre a situação do país e concluiu que “a insustentável acumulação da dívida externa, privada e pública, o insuficiente desempenho da economia, o aumento do desemprego, a estagnação e mesmo diminuição do nível de vida dos portugueses, com cerca de 18 por cento da população em risco de pobreza e grandes desigualdades de rendimento, fazem com que Portugal – permitam-me a expressão – esteja em apuros“.
Ou seja, Jorge Sampaio veio agora dizer-se que a vida para lá do défice é muito difícil. Contudo, não lhe ocorreu afectar umas palavras, mesmo que escassas, àqueles que como ele até há não muito tempo defendiam que se podia viver sem ter em conta o défice e que, ocupando altos cargos, como era o caso de Jorge Sampaio, então Presidente da República, podiam ter contribuído para que tivéssemos enfrentado o problema num tempo em que isso era possível sem tantos danos.
Depois temos Santana Lopes. Ao contrário do que é consensual na pátria, acho Santana Lopes um desastre político. Qualquer partido em que Santana Lopes pense filiar-se devia oferecer-lhe uma bolsa num estrangeiro, muito estrangeiro – de preferência sem Internet, telefone ou sequer pombos-correio, pois, ao que parece, o Exército Vermelho estará a treinar 10 mil destas aves nas artes do levar e trazer mensagens, atitude muito previdente em tempos de WikiLeaks. É que um pombo já seria suficiente para Santana ir deixando o seu rasto autodestrutivo-complacente. Note-se que Santana não foi certamente o pior dos presidentes da autarquia de Lisboa e foi muito melhor e mais honesto como primeiro-ministro do que o seu sucessor, José Sócrates. O problema de Santana não é portanto o que faz, mas sim o facto de não perceber que não basta ter respirado os mesmos ares que Sá Carneiro para se poder ser líder: a forma como se deixou empossar e ser corrido por Jorge Sampaio criou um enorme problema de legitimidade ao seu partido e também ao CDS, que estava com ele coligado no Governo.
Santana é uma espécie de homem duma luta sempre perdida. E o pior é que gosta disso.
Para o fim deixei Freitas do Amaral. Creio não existir em Portugal alguém que consiga repetir com idêntico sucesso o percurso de Freitas do Amaral, ou seja, defender convictamente hoje aquilo de que vivamente discordava no passado. A morte de Sá Carneiro é o último pretexto para esta mudança de certeza muito certa que é trocada por outra certeza igualmente certa. Aquando da queda do avião, Freitas do Amaral garantiu aos portugueses que Sá Carneiro morrera num acidente. Durante anos só publicações marginais levantaram a hipótese de ter ocorrido um atentado em boa parte porque pessoas como Freitas do Amaral criaram em torno delas a imagem de extremistas. Agora Freitas do Amaral defende com idêntica convicção que Sá Carneiro morreu num atentado. Ainda e sempre com o mesmo ar de espanto por alguém pensar o contrário. E sem parecer nunca se interrogar sobre o seu papel de certificador de muitas das certezas invariavelmente breves.
*PÚBLICO

«Creio não existir em Portugal alguém que consiga repetir com idêntico sucesso o percurso de Freitas do Amaral»
Politicamente aconteceu o oposto.
PSD significa “partido social democrata”, e a social democracia era a doutrina de acordo com a qual o socialismo era um fim a atingir, mas isso deveria acontecer de forma democrática. Basicamente, a posição actual do BE e do PCP.
Alguém que sempre tenha acreditado que o socialismo não era um fim a atingir, mas que o estado também tinha um papel na economia, em promover igualdade de oportunidades, alguma redistribuição da riqueza, saúde e educação gratuita, etc, estaria À DIREITA do PSD por volta de 1975, e estaria hoje na ala ESQUERDA do PS. Não por ter mudado as suas convicções, mas porque o espectro político em Portugal caminhou todo para a direita – só os nomes dos partidos revelam o ponto de partida. Por isso é que o PSD se chama PSD.
Freitas do Amaral pode ter mudado a sua posição face a Sá Carneiro, talvez por conhecer novas provas, e se for esse o caso, é sinal de sabedoria e sensatez que o faça.
Mas no que diz respeito às restantes posições políticas, foi dos poucos que se manteve constante, tal como os nomes dos partidos, e por isso denuncia a deriva à direita que ocorreu, e que os políticos de direita querem camuflar, chamando-lhe incoerente – para ocultar a sua própria incoerência.
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Diz a D. Helena que não tem ódios de quem não conhece? Com sinceridade lhe digo, ou imita muito bem ou disfarça muito mal.
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« sua posição face a Sá Carneiro» aliás, face às causas mais prováveis da morte deste
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Pois eu gosto muito de espinafres.
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Belos retratos de três figurões que a democracia portuguesa dispensava muito bem.
Sampaio é pouco menos que irresponsável: teve, por exemplo, o descoco, inédito num PR, de dissolver a Assembleia da República quando nesta havia uma maioria absoluta de apoio ao Governo, tudo isto para favorecer o seu partido, o PS, com as trágicas consequências que hoje se conhecem;
Santana é um tonto, que nunca devia ter passado de carregador da pasta de Sá Carneiro. É inconcebível que o PSD ainda não o tenha corrido definitivamente, tantos os prejuízos que vem a causar ao partido;
Freitas do Amaral é um troca-tintas sem um pingo de vergonha na cara. As pessoas que um dia o apoiaram como candidato a PR e na altura ficaram tristes por não ter sido eleito sentem-se hoje traídas e dão graças a Deus por isso mesmo.
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Aquilo que Sampaio disse agora em contraste com o que disse quando era presidente só é comparável ao discurso de Cavaco na tomada de posse e a sua prática quando era 1º ministro.
Apenas um esclarecimento: Sampaio pode ter e tem concerteza muitos defeitos, a que não são alheios os disparates que se soltam boca fora. Já Cavaco personifica a hipocrisia e a falta de vergonha. Entendo que Sampaio faça parte dos seus ódios de estimação, não entendo porque Cavaco não faz. E já agora também o Sócrates, ou tem receio de o incluir porque assim teria de incluir também o Cavaco?
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Berto,
De uma coisa pode V. ter a certeza: não existe o termo “concerteza”.
Quando V. conseguir que ele exista – através de novo “acordo ortográfico”, quem sabe? -, falamos.
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Muito bom que estas personagens sejam lembradas.
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«Freitas do Amaral é um troca-tintas »
Porquê?
Por não as ter trocado?
É que no fundamental ele acredita no mesmo que disse acreditar quando esteve à frente do CDS, que era suposto ser um partido DE CENTRO, como o nome indica, e não de direita. Ele estava, de facto, à direita do PSD, e ainda hoje está à direita da social-democracia (sabem o que isso é?).
Se ele, mantendo as mesmas posições que tinha no final dos anos 70, parece que se deslocou para a esquerda, então é o contrário – é o espectro político que se deslocou para a direita. E a prova são os nomes dos partidos. Hoje o PCP e o BE e a malta mais à esquerda do PS é que é Social Democrata: a social democracia corresponde originalmente a um movimento socialista que suporta o gradualismo: a crença de que reformas democráticas graduais a economias capitalistas serão bem sucedidas em criar uma economia socialista – economia planificada, na qual os trabalhadores detêm os meios de produção. Isto é a SOCIAL DEMOCRACIA que o PSD alegava defender.
Freitas do Amaral estava à direita disto quando o espectro político em Portugal estava à esquerda, e está hoje no mesmo sítio, à esquerda do PSD quando o espectro político em Portugal está à direita. Como não foi em modas, chamam-lhe incoerente, mas o irónico é que ele testemunha o oposto: que quem assim o chama, assim o é.
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Já agora: nunca votei em Freitas do Amaral. Mas se há coisa que lhe admiro, é a coerência, a consistência.
Que a malta que vai em modas o acuse de falta da mesma, apenas porque ele se mantém com as mesmas convicções enquanto o espectro político vai mudando, é perfeitamente irónico.
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Caro João Vasco, assumo que não era sequer nascido em 1974 quando o PSD e o CDS foram fundados e, por isso, perdoo-lhe, à condição, os disparates que disse e fez questão de repetir. Aconselho-o a estudar o período em apreço (chamam-lhe PREC, Processo Revolucionário Em Curso) para ver se aprende aquilo que, nos tórridos estios de 1974 e 1975, um partido de DIREITA podia defender (em voz alta) em Portugal e como se podia denominar para não lhe atacarem as sedes, ilegalizarem e/ou prenderem os dirigentes (e que mesmo assim, não dispensou amigos meus do CDS de passarem umas semanitas em Caxias). Dou-lhe uma pista, tinha de se chamar “social-democrata” ou “do centro” (democrático e social, claro).
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Muito bom que estas personagens sejam lembradas.
Penso que o senhor está aqui a comentar um erro.
Lembrar é mencionar quem já foi esquecido ora estes tês figurões (como aliás mais mil) já cá andam desde 74 e continuarão enquanto houver sinecuras e quase todos os dias nos entram em casa.
Já tentei descobrir quem é oficialmente o político profissional com mais anos de carreira mas desisti pois são ás dúzias.
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Essa agora,
Tem razão, o termo “concerteza” não existe. O que não impede que possamos falar ou debater.
JPT,
No PREC cometeram-se excessos e injustiças. Mas convém lembrar também as sedes do PCP incendiadas ou o assassinato do padre Max.
Em algumas zonas do país, especialmente no norte, quem se afirmasse comunista poderia ter sérios dissabores. Portanto…
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João Vasco,
V. admira em Freitas “a coerência e a consistência” do mesmo modo que, certamente, admira no falso engenheiro o amor à verdade e a manifesta honradez…
Estamos, portanto, conversados.
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JPT:
É verdade que não tinha nascido em 1974, mas sei algumas coisas. Por exemplo, que o PSD só em 1977 passou a ter esse nome – que antes era Partido Popular Democrático, e não tem nome de uma corrente que tenha o socialismo por objectivo.
Mas o partido não abdicou de escolher a designação PSD por não se identificar com ela: foi apenas para não se confundir com outros partidos ( “Partido Cristão Social Democrata” primeiro, e “Partido Social Democrata Português” depois).
Mesmo o CDS poderia ter escolhido a designação que depois veio a adoptar: PP – Partido Popular.
Ou seja, não foi o medo da violência que levou às designações escolhidas, até porque existiam outros partidos de direita. Foi o facto do espectro político estar – de facto – muito à esquerda. A Social democracia era uma posição de direita em termos relativos, face à mentalidade da altura. Mas quem é consistente não funciona em termos relativos, funciona em termos absolutos. Se o Freitas do Amaral acreditava MESMO no que dizia e não mudou a sua posição, então ele tinha de estar à direita do PSD de 75, e à esquerda do PSD de 2011. O que mudou foi o espectro político, dos desvarios de esquerda do PREC para os desvarios de direita da actualidade.
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“Essa agora”:
O seu comentário denuncia a sua falta de argumentos. Como a sua posição é insustentável, sobra o “não porque não”.
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Vai-te tratar, pá!
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Ó João Vasco, não vá ao médico, não…
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QED
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Q.E.D.
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Santana Lopes, justiça seja feita, foi o único presidente do PSD e governante do PSD, que sempre teve uma postura de seriedade , dignidade e elegância.
Um homem que nunca enriqueceu com a politica, ao contrário de muitos politicos «sérios» que estão ou passaram pelo PSD.
Se o PSD tivesse neste momento Santana Lopes a liderar, tenho a certeza que o PSD seria um partido sério, activo e responsável.
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Esteve bem, João Vasco. Foi estudar. É assim que se responde. E tem inteira razão (sem ironias), seja na denominação do PPD, seja no posicionamento de todo o espectro partidário. Tenho o meu guia de bolso das eleições de 76 bem à mão, e não acreditaria no que lá o PS, o PPD e até o CDS defendem. Mas isso não invalida que o CDS tenha sido sempre, inequivocamente, o partido da direita – o “centro” justificou-se precisamente por aquilo que eu disse acima. E Freitas do Amaral foi (e foi até à sua saída da liderança do CDS) o político “legítimo” mais à direita em Portugal.
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