Tiro ao Alvo – Notícias Sábado, 30 de Julho de 2011
A corrupção da luta anti-corrupção
«O parlamento é o centro da corrupção», disse o meu amigo Paulo Morais, agora, infelizmente, em companhia de candidatos a novos apóstolos – uma organização que, com assinalável modéstia, se diz da «Transparência e Integridade». Vi a sua página na internet. Muitas acusações e insinuações, transbordando uma agenda política anti-mercado e que favorece o ideal anacrónico do controlo férreo dos cidadãos por um Estado que deverá sempre privilegiar os fins em detrimento dos meios. «Todas as generalizações são falsas – incluindo esta última», recordei de imediato.
Quando se desqualifica uma categoria profissional ou social (os «professores», os «médicos» ou os «políticos») imputando-lhe uma variedade de falhas que as polvilham por completo e quase sem esperança de excepção redentora, está-se a perpetrar uma generalização grosseira. Encarar um debate desse modo aligeirado, abate todo o valor argumentativo do discurso. E arruína qualquer eventual ensejo analítico que ainda possa subsistir.
Os «transparentes» asseguram que as reformas da Troika e as privatizações são um risco de corrupção: política arcaica, vinda de quem nunca se reciclou da extrema-esquerda dos meados de setenta do século passado, tristemente acompanhados pelos que não se importam de fazer de «idiotas úteis».
Dali depreende-se que todo o sucesso económico corre o sério risco de ser suspeito de corrupção. No fundo, quase tudo é corrupção – logo, essa santa sanha anula-se a si mesma facilitando muito daquilo que julga querer evitar.
Improváveis aliados da corrupção
Se eu ambicionasse ser corrupto, se quisesse aproveitar-me dos meus conhecimentos e entendimentos para retemperar o meu património de modo irremediavelmente ilícito, aquilo que mais demandaria era a continuação deste Procurador-Geral e das suas «duquesas», com o seu grau de eficiência pachorrenta e as suas proclamações intelectualmente atabalhoadas sobre a Justiça. Incensaria Cândida Almeida e a sua singular intervenção no Freeport – um caso que colocou o nosso sistema de Justiça ao nível de uma República das Bananas (propriamente dita). Lisonjearia Maria José Morgado até mais não, dado o seu esforço em simbolizar o combate à corrupção no acossamento de árbitros da terceira divisão e nos dirigentes de clubes de bola com o destaque dos gondomarenses e dos dragões sandinenses – para além da cintilante lucidez em assentar toda a prova do processo principal numa testemunha que há muito transpôs a esperança de redenção em qualquer dimensão de credibilidade. Acarinharia o Conselho de Prevenção para a Corrupção, composto por pessoas acima de qualquer suspeita mas que, para já, demonstrou que existe apenas para que todos digam que existe, embora ninguém perceba muito bem para que é que lá está.
Nunca vi a organização dos «transparentes» denunciar a ineptidão deste Procurador-Geral e das suas «duquesas». Nunca os ouvi afrontar o nosso musguento modelo de investigação criminal. Nunca dei por propalarem os defeitos intrínsecos na formação dos magistrados portugueses.
Não, afinal optaram por um discurso indiscutivelmente político exclusivamente direccionado contra o parlamento, absolvendo, com o seu sossego, todos os demais – corruptos ou nem por isso.
O regresso do discurso anti-parlamentar
No declive de todas as democracias constitucionais modernas, as arengas anti-parlamentares foram uma presença fulcral. De Lenine a Salazar, de Mussolini a Perón ou a Chávez, o ovo da serpente em que as mais variadas formas de totalitarismo medraram, radicou em acusações ferozmente genéricas contra os parlamentos – que cedo degeneraram na ânsia de um iluminado que pusesse «ordem na casa».

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