“Tiro ao Alvo”, Notícias Sábado, 20 de Agosto de 2011
Foi porque que os deixaram
Os tumultos em Inglaterra provocaram uma série de borrascas em toda a parte. Foi curioso observar os esforços para decifrar as cenas de saques asselvajados a que o Mundo, atónito, assistiu. Já li todo o tipo de explicações: as políticas, que tentam endereçar as culpas para Cameron por causa do plano de austeridade e dos cortes em apoios sociais; as sociológicas, que apontam a falta de ligação das elites decisórias económicas e políticas às múltiplas comunidades étnicas e religiosas que formam a levedura do melting pot dos centros urbanos britânicos; as jurídicas, que criticam a crédula doçura dos sistemas penais europeus perante criminosos renitentes (foram identificados cerca de 600 participantes nos distúrbios que se encontravam em liberdade condicional); as moralistas, que lastimam a degeneração da família e a decadência dos costumes; e, claro, uma abundância de banalidades incoerentes – mas sempre em moda – que arremetem contra o «racismo», o «consumismo», o «ultraliberalismo» e os perigos sinistros em deixar a internet e as novas redes sociais «à solta».
Nestas ocasiões, prefiro as razões prosaicas às justificações buriladas. Confesso que não fui capaz de conter o riso quando vi as imagens de um suposto grupo de polícias de choque em nítido excesso de «politicamente correcto», esquipados com um mero escudo e sem cassetete, mal se conseguindo abrigar das pedras e garrafas e a levar pontapés da canalhada que sabia gozar de uma impunidade a toda a prova. Os desordeiros agiram à vontade porque podiam fazê-lo: «a polícia não nos pode fazer nada», garantia um deles, sorrindo para as câmaras da BBC. Incendiaram lojas e roubaram o que quiseram porque há décadas que a nossa civilização tem vindo a confundir liberdade com permissividade. Porque não nos conseguimos desencarcerar de um deslocado complexo de culpa por alguns alcançarem mais sucesso nas suas vidas do que outros que, tantas vezes, passam a sua existência a desperdiçar oportunidades e a imputarem aos outros a responsabilidade pelos seus próprios fracassos.
Durante várias noites, aqueles arruaceiros imberbes transformaram a Inglaterra num reflexo da ilha deserta descrita por William Golding n’ «O Senhor das Moscas», com adolescentes convertidos em bárbaros porque isso lhes espicaçava a adrenalina e, sobretudo, porque o tempo em que estamos falhou em lhes inculcar qualquer noção de autoridade capaz de restringir as suas ânsias mais agrestes.
Pois não há liberdade que resista à moleza continuada de este Estado de Direito e seus arredores.
Nostalgias de Sócrates
No filme «Amadeus», de Milos Forman, há uma cena em que os inimigos de Mozart, em desespero, tentam apoucar uma das suas obras. Não sabiam muito bem o que sentenciar mas lá conseguiram convencer o imperador José II da Áustria de que a música «tinha muitas notas» – como se existisse um número padrão para aferir a qualidade da composição.
Lembrei-me deste absurdo perante algumas apreciações das palavras de Passos Coelho na Festa do Pontal: «teve poucas palmas», asseguraram, procurando uma ligação (i)lógica entre os valores obtidos pelo seu exclusivo «palmómetro» e a relevância do discurso.
Estou longe de comparar o primeiro-ministro ao génio de Salzburgo – mas equiparo o carácter e a idoneidade das críticas a um e a outro. Para a próxima dirão que tinha muitas sílabas ou adjectivos a mais.
O pior deste caso é a dependência aditiva ao estilo de Sócrates que dele exala. No fundo, a maioria dos nossos analistas adora espectáculos circenses, com pinchos, berros, palmas ensaiadas e, no final, uns torrõezinhos de açúcar com que o pior primeiro-ministro da história de Portugal, com muita ternura política, os costumava afagar…

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