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Saiu-nos caríssimo o preço do que não tinha preço*

23 Setembro, 2011

A saúde não tinha preço. A educação não tinha preço. A solidariedade não tinha preço. A grande obra não tinha preço. Vivemos décadas num mundo em que nada tinha preço. Tudo nos era devido porque se inscrevia numa cartilha de adquiridos em que mal nascíamos tínhamos direito não apenas a viver numa sociedade regida por princípios de tolerância e liberdade mas também e sobretudo por proporcionar regalias materiais que passaram a incluir coisas tão variadas quanto os túneis da Madeira, os livros escolares gratuitos ou um serviço público de televisão.
Parecia que só por perfídia desde o princípio da nacionalidade não existia o Rendimento Social de Inserção nem a possibilidade de o acumular com o abono de família, o abono pré-natal e o subsídio de renda de casa e assim obter um rendimento que os beneficiários consideram sempre baixo mas que em vários casos é superior ao que se aufere trabalhando. Paulatinamente Portugal encheu-se de pais que, segundo eles mesmos afirmam, lançaram as bases de todo este universo dos direitos crescentes e gratuitos: é Arnaut enquanto pai do SNS; Guterres, o pai do RSI e Jorge Miranda, pai da Constituição. Graças aos céus o ensino público gratuito ficou órfão desta paternidade que corre por conta das carteiras alheias porque a bem da verdade teríamos de remontar ao marcelismo, coisa assaz inconveniente para uma democracia que valoriza mais a gratuitidade do que a liberdade e a transparência.
Agora todos os dias nos chegam as facturas do que não tinha preço – só o Serviço Nacional de Saúde (SNS) custou, em 2010, mais de 25 milhões de euros por dia – e de repente interrogamo-nos se alguma vez seremos capazes de pagar o preço do que não tinha preço e que durante décadas nos garantiram que os governos davam. Contudo os efeitos mais nefastos desta alienação não são, de modo algum, essas contas astronomicamente negativas que contabilizam tudo aquilo que os nossos governos “nos deram”.
Em primeiro lugar temos um problema político: os líderes políticos da democracia construíram a sua legitimidade e habituaram-se a ganhar eleições com base no alargamento desse universo dos direitos materiais. Sócrates derrotou Manuela Ferreira Leite em 2009 pela mesma razão que Alberto João Jardim vai muito provavelmente ganhar as eleições em 2011: ambos vendem a ilusão de um mundo em que os custos não existem e a obra pública e os apoios sociais resultam apenas daquele ímpeto pessoal que os faz escrever o seu nome num decreto que dá mais isto e mais aquilo. Enquanto conseguirem manter em movimento a girândola do governo que dá, do homem que faz obra e da vida para lá da dívida, estes líderes são quase imbatíveis. Sócrates caiu porque no meio do frenesi de lançamento de auto-estradas, TGV e Novas Oportunidades ficou, um dia, só e subitamente patético diante do teleponto a ensaiar o anúncio do pedido de ajuda externa. Jardim talvez ainda consiga manter a ficção de modo a ganhar as eleições, pois a Madeira é uma ilha, o discurso do anticolonialismo rende muito e os adversários têm medo de dizer que os governos, mesmos os regionais, não dão nada.
Mas o segundo (e na minha opinião muito mais grave) problema desta forma não de governar mas sim de ganhar eleições é moral: o gratuito que não tem custo e os direitos materiais crescentes fizeram de cada cidadão/beneficiário um potencial prevaricador, uma espécie de pedinte insatisfeito que procura retirar todos as vantagens possíveis desse universo do gratuito: são os velhos inevitavelmente com baixas pensões, mas que atempadamente transferiram as suas poupanças para as contas dos filhos, sobrinhos e netos, de modo a pagarem o mínimo nos lares comparticipados pela segurança social. São os usufrutuários da habitação social que acham que não podem pagar uma renda cujo valor é muito frequentemente inferior àquilo que pagam de telemóvel. É Portugal de todas as classes que vai de carro para todo o lado mas depois acha natural que o Estado lhe pague as deslocações para fazer tratamentos médicos. São as famílias que dizem que não podem pagar as refeições nas cantinas escolares e depois mandam os filhos para as escolas com roupas caríssimas e ténis de marca. (Claro que levar lanche de casa é algo absolutamente impensável para quem nasceu nos tempos dos direitos crescentes e sem custo!) São os usufrutuários do SNS que dizem que não podem suportar as taxas moderadoras mas que não prescindem do pequeno-almoço no café. São aqueles milhares e milhares de pessoas gozando de boa saúde e que vêem na baixa uma espécie de direito ao descanso… A lista é mais ou menos interminável e ainda acrescento que em muitos casos não será assim que as coisas se passam. Mas valha a verdade que acho que será assim cada vez mais, pois não só a necessidade aguça o engenho como todos nós ouvimos dizer durante anos que tudo isto não só era um direito mas também gratuito. Não existe censura moral para este tipo de comportamentos e sem essa censura moral não há mecanismos de controlo que resultem, pese esses mecanismos estarem a transformar o Estado Social num estado policial. O NIF é já mais importante que o BI, meio país anda com declarações várias na carteira para provar que tem direito ao passe mais barato, aos manuais escolares gratuitos, à isenção das taxas moderadoras, à energia comparticipada…
Durante décadas os estados afadigaram-se em saber o que pensávamos. Agora aplicam o mesmo zelo para esquadrinhar o que temos e sobretudo o que não temos, pois, provando-se o que não se tem, consegue-se ainda passar pela porta cada vez mais estreita que dá acesso ao outrora reino universal do faz de conta, aquele em que os governos dão serviços e as obras não têm preço. Por fim, e para prevenção de tentações futuras, proponho que tudo passe a ter um preço: dos hospitais às escolas, dos transportes públicos aos espectáculos subsidiados, da habitação social às refeições nas cantinas escolares, o valor real deve constar dos respectivos recibos. Poucos o pagarão na totalidade, mas deve estar lá. Para que se comece a perceber que o gratuito não existe, que os governos não dão nada, que o dinheiro de todos nós deve ser aplicado para ajudar quem precisa enquanto precisa – e como todos nós usufruímos sempre de alguns destes serviços temos todos a obrigação de estarmos mutuamente agradecidos a quem nos ajudou – e não para fazer engenharias sociais.
*PÚBLICO

17 comentários leave one →
  1. Patrício's avatar
    Patrício permalink
    23 Setembro, 2011 08:32

    Pois, mas falta aqui o elemento mais importante : os governantes que recorrem a essas práticas alienantes certamente não o fazem por mero divertimento. Fazem-no porque o poder lhes dá muito dinheiro. E não será a remuneração do cargo, que até costuma ser reduzida. Por isso faz muita falta uma lei que criminalize o enriquecimento ilícito.

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  2. neototo's avatar
    neototo permalink
    23 Setembro, 2011 09:35

    Hum,

    Quando os Blasfemos de Portugal vao aprender o conceito económico de deuda odiosa?:

    Título de crédito odioso sobre a Grécia – 2011 – Crise euro
    Véanse também: Grécia Crise financeira de 2010 e do euro em 2010
    Crise
    A Crise Financeira de 2010 na Grécia teriam exposto a realidade de uma dívida histórica acumulada por governos democráticos, mas sem o seu conhecimento ou pelo menos sem o pleno conhecimento de muitos cidadãos e organizações grego (Lave seu documentário Deudocracia) que exigem uma auditoria dívida grega para atender a sua origem exata, seus devedores e legitimidade. Tendo em vista a eventual suspensão de pagamentos da dívida com os planos europeus para renegociar os empréstimos podem supor, secretamente, uma redução da dívida ou o que é chamado de padrão seletivo da dívida externa [35].

    Título de crédito odiosas de Portugal – 2011 – Crise euro
    Véanse também: Portugal crise financeira em 2010 e ao euro em 2010 Crise
    Da organização CDTAM diversos como considera-se que a dívida de Portugal devem ser auditados e amplamente considerado dívida odiosa. Eric Toussaint, presidente do Comitê para a Anulação da dívida do Terceiro Mundo na Bélgica acredita que os novos empréstimos concedidos pelo Banco Central Europeu eo FMI são odiosas porque os cidadãos não são consultados, impondo medidas são uma violação do direitos humanos, civis, sociais e democráticas do Português. É, portanto, um ilegítimo, mas é contratado por um governo democraticamente eleito como ele usa a nova dívida para pagar dívida antiga, sem a aprovação dos cidadãos que eles roubam de qualquer escolha democrática. Cidadãos deveriam exigir uma auditoria para mostrar com precisão o quanto é a dívida, que são os credores e que foi usado. Sem saber esses extremos qualquer decisão é antidemocrática além de não resolver os problemas [36].

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  3. tina's avatar
    tina permalink
    23 Setembro, 2011 09:35

    Está tão incrivelmente verdadeiro, inspirado e brilhante! Parabéns!..

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  4. neototo's avatar
    neototo permalink
    23 Setembro, 2011 09:38

    Sería portanto ILEGITIMA a dívida contraida pelos portugueses com os dois acredores chamados FMI e Banco Central Europeo.

    Enquanto as dividas do Senhor da Madeira aquí ja nao entram este tipo de argumentario. La há que pagar. Esperemos que o tal seia um dividor bem comportado no presente e no futuro…

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  5. Lionheart's avatar
    Lionheart permalink
    23 Setembro, 2011 09:57

    “…o dinheiro de todos nós deve ser aplicado para ajudar quem precisa enquanto precisa.”
    .
    É preciso ter cuidado com este “simplismo”. Se se seguir este princípio que espécie de contrato social existirá em Portugal? Quem mais contribui para o sistema, quem paga impostos, quem desconta para a Segurança Social, enfim, quem se sustenta, não merece beneficiar das regalias do sistema, como dizia um economista na TVI esta semana? Então vale mais não trabalhar, ou ter empregos mal pagos, para depois vir dizer que “precisa”, não? Ah pois. Qual é o incentivo para evoluir neste país, se depois o Estado lhe carrega em cima? Mais vale continuar a ser necessitado.
    .
    Faça-se umas continhas para ver quem é que vai ser verdadeiramente “pobre” neste país. A classe média já não tem direito a abono de família, não tem isenção de taxas moderadoras, tem os salários congelados, aumentaram-lhe o IVA, o IUC, o IRS, o IMI, etc., mas essa classe média “não” precisa. Outros há que ganham 500 euros/mês, não pagam IRS, têm a saúde grátis, se forem espertos ainda vão buscar ajudas a Juntas e Câmaras, têm direito ao abono, pouco descontam para a Segurança Social, e não estão endividados como a classe média. Tudo somado, quem é que tem mais dinheiro depois dos impostos e das obrigações da vida?

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  6. António Sobral Cid's avatar
    António Sobral Cid permalink
    23 Setembro, 2011 10:22

    Helena, estás a escrever melhor de dia para dia… Auguri ! 🙂

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  7. pmg's avatar
    pmg permalink
    23 Setembro, 2011 10:37

    Gostei Helena,
    Muito mais haveria a dizer, mas seriam precisos alguns volumes. Como apanhado geral está muito bem.
    Pedro

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  8. JCA's avatar
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    23 Setembro, 2011 11:02

    .
    Esta coisa do armamento e submarinos já parece mais a sina da cigana
    (parece que na Alemanha ainda correm, ou correram, processos semelhantes):
    .
    -Nicolas Sarkozy’s close friends detained over Karachi-gate affair
    http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/nicolas-sarkozy/8779962/Nicolas-Sarkozys-close-friends-detained-over-Karachi-gate-affair.html
    .

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  9. SM's avatar
    23 Setembro, 2011 11:27

    ó Helena, você sabe quanto custa a saúde per capita nos EUA? Bem mais que em PT e mesmo assim 20% dos americanos não têm acesso a saúde como nós temos e se forem doenças oncológicas e outras mais complexas a inacessibilidade é muito maior. E agora? É certo que em PT na sáude há desperdicio a cortar e coisas a optimizar mas não propriamente cortar a direito como a troika portuguesa – PSD, CDS e blasfemos – aspiram. O primarismo da Helena é desumanamente tonto.

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  10. Conde Venceslau's avatar
    Conde Venceslau permalink
    23 Setembro, 2011 11:31

    As musas hoje estavam consigo. Muito obrigado por este texto. Devia de ser de leitura obrigatória em todas as escolas. Eu por mim vou imprimir e afixá-lo em lugar de destaque para que os meus alunos o possam ler e reflectir bem sobre o que é que significa dizer que alguma coisa não tem custos e é gratuita.

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  11. Joaquim Amado Lopes's avatar
    Joaquim Amado Lopes permalink
    23 Setembro, 2011 13:36

    Helena,
    O texto está absolutamente brilhante. Os meus parabéns.

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  12. Joaquim Amado Lopes's avatar
    Joaquim Amado Lopes permalink
    23 Setembro, 2011 13:47

    Lionheart,
    O incentivo para evoluir é precisamente esse. É o Estado dar um mínimo a quem realmente precisa e não dar (quase?) nada a quem não quer trabalhar. É não se receber mais por não trabalhar do que a trabalhar. É quem ganha muito contribuir de forma proporcional (e não progressiva) aos seus rendimentos e saber que a sua contribuição não é usada para alimentar o vício ou a preguiça.

    Os descontos para a Segurança Social não devem ser uma contribuição para um fundo de poupança própria mas sim para um fundo de apoio a quem realmente necessita. Independentemente de quanto se tenha descontado para esse fundo, recebe-se quanto se necessita, não quanto se entregou. Para isso existem os fundos de poupança privados.
    É assim que devia ser. Infelizmente, como nota a Helena, não é assim que é visto.

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  13. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    23 Setembro, 2011 17:21

    “É o Estado dar um mínimo a quem realmente precisa”
    .
    Esse minímo nunca pode compensar mais não trabalhar.

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  14. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    23 Setembro, 2011 17:32

    O que a Helena não diz é que esta engenharia é intencional para domínio do Estado Soci@lista sobre as pessoas. Torna-a-as dependentes e a dependência é primeiro uma destruição moral, mas e mais importante a destruição do conhecimento e do saber pelo próprio. Milhões que vivem do estado e não sabem fazer contas para uma reforma são milhões que alguma vez serão incapazes de formar uma empresa.
    É o Estado Soci@lista que está interessado na Engenharia para a Ignorância.
    É também a destruição da sociedade. As pessoas não precisam de se relacionar entre si, fazer negócios para prosperar. O País Social é destruído pelo Estado Social.

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  15. Jose's avatar
    Jose permalink
    24 Setembro, 2011 13:34

    “Quem mais contribui para o sistema, quem paga impostos, quem desconta para a Segurança Social, enfim, quem se sustenta, não merece beneficiar das regalias do sistema, como dizia um economista na TVI esta semana?”

    Sim, é perverso, mas resulta da lógica do próprio sistema.
    A alternativa é simples e clara: o sistema tem de ser reduzido a uma expresssão mínima ( uma espécie de rede circense que está lá só para o caso de alguém cair) de forma a que as contribuições sejam reduzidas.
    Se alguém contribui com 200 e recebe de regalias, 100, não é mais razoável que contribua apenas com 100 e não tenha regalias nenhumas?
    Não é pura aritmética, porque o sistema a funcionar para redistribuir os 200, gasta uma percentagem. (No Reino Unido alguns estudos apontam para quase 10%).

    Um exemplo simples: há dois anos, o governo resolveu dar uma quantia pelos carros usados, para incentivar o mercado automóvel. Entretanto subiu os impostos que incidem sobre os automóveis, porque o dinhejro a redistribuir tem de vir de algum lado.
    A pergunta é óbvia: não seria melhor baixar os impostos sobre os automóveis, para que as pessoas comprassem carros mais baratos?
    O comprador quer comprar, o vendedor quer vender, ao estado apenas se pede que não se meta no assunto.

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  16. esmeralda's avatar
    esmeralda permalink
    24 Setembro, 2011 17:43

    E houve um outro, salvo erro, António Barreto, que foi pai não sei de quê na agricultura… Pena que não tenha deixado muitos filhos ligados a ela!

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  17. Rita Santos's avatar
    Rita Santos permalink
    2 Outubro, 2011 11:26

    Exma. Senhora,

    Sem menosprezo para o mérito das ideias que aqui propõe, não posso deixar de referir que considero de mau tom alguns dos exemplos que aqui dá sobre a forma como o poder político tornou os cidadãos em potenciais prevaricadores. Sei que refere as excepções. Não obstante, parece alheia a não incorrer em generalizações fáceis e baratas sobre o cidadão português, género “conversa de café” e, quando o faz, de forma tão veemente, parace não conhecer o verdadeiro significado do termo “pobreza” e, pior, a realidade daqueles que são pobres. Passo a explicar, usando o exemplo que dá dos ténis de marca. Partindo do princípio que situações como as que descreve acontecem, parece-me lógico e perfeitamente entendível que a opção “ténis de marca vs. refeições na escola” configura em si mesma uma situação de pobreza, leia-se “pobreza relativa”. O tipo de mentalidade que subjaz a esta e outras opções do género deve, em meu entender, suscitar a nossa reflexão. Que tipo de valores promovemos? Ou, dito de outra forma, porque razão a importância do “ter” suplanta a importância do “ser”? E de que forma é que o mercado concorre para este tipo de mentalidades?

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