princípios velhos e caducos
Não sinto um particular entusiasmo por ordens sociais politicamente estruturadas, dirigidas ou condicionadas. Por isso, quando no meu último post referi que o 25 de Abril depusera “uma ordem política e social fundada em princípios velhos e caducos”, referia-me a uma sociedade – a sociedade civil e política portuguesa – que sentira uma longa presença de mais de quarenta anos de um regime político personalizado num único homem e no que ele entendia ser melhor para o país e para os seus cidadãos.
Esta foi a primeira e a mais importante manifestação de senilidade do Estado Novo, diga-se, aliás, muito precocemente manifestada. Mesmo que considerássemos que esse regime foi inicialmente benéfico para Portugal, trazendo alguma paz ao país e pondo as contas públicas em ordem, nada justifica que um país seja tão longamente dirigido por uma pessoa, ainda que esta possa ser admirável ou merecedora da mais elevada consideração intelectual, tema em cujo mérito não entro, porque absolutamente desnecessário para este efeito: o simples mérito pessoal não pode legitimar o exercício de nenhum poder.
Na verdade, as sociedades contemporâneas caracterizam-se pela pluralidade, porque são compostas por indivíduos que cooperam entre si para poderem melhorar as condições da sua existência e, consequentemente, das existências alheias. Ao invés do que se costuma dizer, não foi a Revolução Francesa que introduziu os princípios da igualdade dos indivíduos perante o estado e a lei, mas a Revolução Industrial, ao produzir as condições de progressivo bem-estar material para as pessoas, com o qual elas ganharam um verdadeiro direito à propriedade de si mesmas, sem o que qualquer outro direito se torna absolutamente inviável. Por outro lado, numa sociedade de contribuintes fiscais, onde todos participam no sustento da rés publica, nada justifica que os administradores deste tipo de sociedade se legitimem a si mesmos, e não possam ser designados por todas e por cada uma das pessoas que a mantêm com o esforço do seu trabalho, nem que elas os possam afastar da gerência daquilo que lhes entregaram, quando não satisfaçam a maioria dos contribuintes.
Deste modo, independentemente de quaisquer considerações políticas valorativas sobre a natureza do regime e dos seus protagonistas, manter, mais de quarenta anos, um regime político governado por pessoas que não se faziam eleger pelos seus concidadãos para o exercício dos seus cargos, era uma imoralidade evidente, já imprópria da maioria dos países civilizados da época. Um modelo de governo fundado no princípio da autoridade forçada é sempre muito pouco, ou nada, respeitável.
Em contrapartida, os modelos políticos saídos da Revolução Industrial – não da Revolução Francesa, repita-se -, obedecem ao princípio da soberania do consumidor, primeiramente económica, claro, mas consequentemente política, porque nenhuma pessoa soberana na sua existência individual e material (oportunidade que a Revolução Industrial concedeu à generalidade das pessoas) admite que outros possam mandar em si sem que lhe seja dada a possibilidade de os arredar pacificamente desse comando, se não quiserem continuar a obedecer-lhes. Um regime político que por mais de quarenta anos não permitiu a circulação pacífica das elites do poder por decisão daqueles que governavam, era um regime fundado em princípios velhos e caducos.
Este modo de ver as coisas da política teve, como não poderia deixar de ter, inevitáveis consequências na ordenação da sociedade, isto é, no modo como as pessoas se relacionavam entre si, o que numa sociedade civilizada deve obedecer ao princípio da liberdade e da autonomia individual.
Ora, o regime teve, desde sempre, uma polícia própria para avaliar as consciências individuais. Para as inquirir e admoestar, caso fosse entendido necessário por quem geria esses “serviços”. Para as deter, por pouco ou muito tempo, ou enviar para fora do país nos casos por elas considerados mais graves. Este não é, certamente que não é em momento ou lugar algum, um bom indício de civilidade social.
E o regime teve sempre também uma censura editorial, que controlava a publicitação daquilo que as pessoas ainda pudessem pensar em voz alta. Os critérios eram frequentemente caricatos e dependiam, quase sempre, do juízo moral e político de quem tinha, na circunstância, o lápis azul na mão. Por que razão deveria esta gente criar entraves e barreiras à livre circulação da opinião dos seus concidadãos? Hoje admitiríamos isso? Claro que não. Então, por que motivo haveríamos de o aceitar há 40 anos? E teve-a até ao último dia do regime, o que ensombrou a figura do Professor Marcelo Caetano, um notabilíssimo académico de quem seria legítimo esperar – e exigir – que concedesse ao país a mesma liberdade intelectual que concedera aos seus alunos na Universidade. Não o fez e foi pena.
Na economia, apesar da intervenção do estado ser quantitativamente inferior ao que hoje é, não propriamente por respeito pela liberdade económica e social, mas porque o estado não se predispusera ainda a desempenhar muitas das funções que a seguir erradamente assumiu, as coisas não eram também muito mais desenvoltas. Por exemplo, o condicionamento industrial, em qualquer uma das suas duas versões, a de 31 e a de 37, fez com que Portugal se atrasasse perante os seus parceiros europeus e o mundo ocidental, e levou a que não chegássemos nunca a ter uma verdadeira economia de mercado, que hoje continuamos a não ter, mas uma economia condicionada e fortemente intervencionada pelo poder público. O resultado foi que acabámos por ter não uma economia de livre-concorrência, mas uma economia controlada por meia-dúzia de grupos empresariais oligárquicos encostados ao poder. Não se pode dizer que isto fosse favorável aos portugueses, como de facto não foi. O protecionismo industrial e comercial era, já nessa altura, uma velha doutrina que falhara sempre que experimentada. Ou, ainda, para não nos ficarmos somente pelo anterior exemplo de escola, as limitações à liberdade do arrendamento e ao aumento das rendas, outro bom exemplo de intervencionismo económico e social, aliás, em abono da verdade, uma tradição nacional anterior e posterior a esse regime, que destruiu boa parte do nosso património imobiliário, das nossas cidades e da nossa economia.
Não me alongo mais, dada a natureza do meio utilizado. Haveria certamente muito a acrescentar para demonstrar a afirmação que deu origem a este texto. Fica, porém, uma última nota demonstrativa do que afirmo, quando digo que a ordem política e social portuguesa era, ao tempo do 25 de Abril, fundada em princípios velhos e caducos: ninguém a defendeu.

Quando calma e serenamente se acerta no “osso”, não há comentários dos “nossos” saudosistas…alguns liberais.
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Não defenderam o regime anterior ,como já não tinham defendido a monarquia(excepto Paiva Couceiro e pouco mais) mas, também lhe digo que, com este regime, acontecerá o mesmo . Relativamente a condicionamentos industriais e outros argumentos é conveniente compreender a nossa idiossincrasia e olhe que no regime anterior havia defensores da reforma agrária(e porque não foram em frente?Compreendiam a nossa gente e não quiseram fazer um homem novo) ,eram muito mais bem preparados que os “jotas” que nos governam. A nossa matriz católica e ruralista nunca viu no trabalho a felicidade do homem e as nossas limitações de empreendedorismo eram (conheço pela leitura os desabafos dos ministros da economia na altura) confrangedoras e continuam a ser ,,ainda por cima, com esta inveja dos ricos. As nossa indústrias ,por exemplo, tirando os grandes grupos ,eram extensões do curral dos animais e olhe que chegou a algumas destas indústrias o dinheiro do plano Marshall ,mesmo com condicionamentos e venda e compra de alvarás,enfim ,o povo viveu “normalmente” e era feliz com Fátima ,Fado e Futebol e geralmente o Benfica ganhava,Já me esquecia , tínhamos um império e o governo não obedecia a troikas nem tinha deputados como um como ontem vi na TVI 24 a levar um baile do Galamba do P.S(tentava explicar a recessão ou pelo menos a estagnação da economia.). Os tempos passados não voltam ,infelizmente ,passados muitos anos somos o mesmo povo que tão bem retratado foi pelo Eça.Devemos ler o regime anterior com a distância devida mas ,quanto mais leio ,mais começo a lamentar a minha euforia do 25A.
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Também penso que o povo que suportou o regime anterior não mudou muito: veja-se a forma como muitos do que nos governaram (por vezes mal), nos tempos do 25/4, teimam em não se afastar do “poder”, seja ele o exercido no governo ou na oposição – o caso do Mário Soares é um bom exemplo, como seria o do Almeida Santos, o do Manuel Alegre, o Vasco Lourenço, a Ferreira Leite, o António Capucho e tantos outros. Salva-se o Ramalho Eanes e alguns, poucos, mais.
Para muitos portugueses actuais, o bom seria que o governo não mudasse nunca, desde que detido pelos da sua cor…
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e um desses portugueses é o senhor com o governo actual e o lema” brutal aumento de impostos” e “nao ha alternativa á austeridade” ,durante 40 anos e sempre,mas sempre com o mesmo primeiro ministro
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Lamentavelmente esqueci-me de referir o nome do Freitas do Amaral, o que seria uma injustiça – ele dará as cambalhotas que for necessário para se manter à tona, e em lugar de destaque…
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Concordo com o essencial do que diz este post do Rui A.
Apenas algumas considerações sobre a economia.
Efectivamente, o condicionamento industrial e outras formas e práticas de intervenção do Estado, incluindo o proteccionismo do mercado interno, explicam em boa medida porque é que Portugal iniciou a modernização da economia muito tarde e a um ritmo, que embora crescente, foi insuficiente tendo em conta o ponto de partida.
Mas, na fase final do regime, sobretudo com a maior abertura da economia ao exterior, este regime era cada vez menos aplicado e é provavel que, mesmo sem o 25 de Abril, tivesse sido definitivamente abolido nos anos 70/80.
Dito isto, não estou assim tão certo que “a intervenção do estado [fosse então] quantitativamente inferior ao que hoje é” e que na altura o Estado não “desempenhava muitas das funções que a seguir erradamente assumiu”.
Para além do condicionamento industrial, o Estado intervinha muito e sempre que achava oportuno. Sem limites. Em particular no entrave do livre funcionamento dos mercados : das rendas de casa, dos bens ditos essenciais, das matérias primas ditas estratégicas, etc. Mesmo no que se refere ao mercado de trabalho, a interferencia do Estado era muito grande e ia mesmo ao ponto de controlar a intervenção dos sindicatos (ditos “oficiais”) na contratação colectiva. A grande diferença de fundo com o que se passou a seguir ao 25 de Abril, é que a intervenção directa do governo tinha como objectivo principal a moderação salarial e a prevenção dos conflitos laborais.
Mesmo o sector publico empresarial não era antes menos importante do que é hoje. Descontando a fase posterior ao 25 de Abril que vai das nacionalizações às privatizações, e com a expepção de algumas empresas nacionalizadas a seguir ao 25 de Abril e que foram até ha pouco tempo ou ainda são publicas, o numero e o peso das empresas publicas ou directamente controladas pelo Estado era então maior do que foi e é ainda hoje. Não posso aqui entrar no detalhe mas penso que isto pode ser verificado.
No que se refere às “funções” do Estado, também não me parece que o “Estado Novo” tivesse menos do que hoje. Em particular, e ao contrario do que muita gente pensa, o “Estado Social” não é uma “descoberta” do 25 de Abril e foi antes instituido e até bastante desenvolvido pelo “Estado Novo”. Se virmos bem, o Estado intervinha então em todos os dominios em que intervém hoje : saude, educação, pensões, prestações sociais, subsidios diversos, etc. A grande diferença não é nas funções mas sim na dimensão financeira do mesmo. Ou seja, o Estado hoje aplica uma carga fiscal muito superior e, consequentemente, transfere muitos mais recursos para as funções publicas, com destaque para o “Estado Social”. Se tivermos em conta que esta carga fiscal é hoje em parte diferida, atrévés do endividamento, a diferença é ainda maior. Se era isto o que o Rui A. pretendia significar ao dizer que a “a intervenção do Estado era quantitativamente inferior” então até estamos de acordo neste ponto. Digamos que, no regime anterior, o “Estado Social” existia e era até bastante abrangente mas que era extremamente pobre em termos dos recursos que eram para ele mobilizados. Tenha-se ainda presente que, para além das contas publicas terem então um peso muito inferior no Pib, a partir de meados dos anos 60 cerca de metade do orçamento do Estado era então destinado a despesas militares ou indirectamente ligadas à conservação das colonias.
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Não se pode concordar sempre.
Estou plenamente convencido do prejuízo que resulta para o regime, persistir no desiquilíbrio que o entorta para a esquerda.
Seria bom se de uma vez por todas, acabassem os inconvenientes “complexos de esquerda”, que acabam por inibir os comentários e as análises sobre os méritos ou deméritos do Estado Novo.
É infelizmente uma tendência generalizada, esta coisa bizarra de querer fugir como o diabo da cruz, de qualquer eventual simpatia por mínima que seja, por esta ou aquela medida desde que tenha o carimbo pecaminoso do “ancien sistéme”. Não estou a dizer que seja o caso de rui a..
Seria talvez mais útil, correcto e verdadeiro pôr nessa posição os comunistas, que tanto e há tanto tempo se têm esforçado por arruinar o País e continuam em actividade. Por estranho que pareça, estes são no geral perfeitamente aceites, mesmo quando dizem ou fazem as piores barbaridades, coisa que de resto neles é uma segunda natureza.
É uma evidência elementar para quase toda a gente, com a excepção óbvia dos comunistas e afins, não haver comparação possível entre o anterior regime e aquele que resultaria do assalto ao poder por parte do comunismo. Só que não se traduz na prática, este entorse filho do PREC.
Mas haverá alguém que possa pôr em causa o benefício que nos primeiros vinte anos, o Doutor Salazar, “o inominável”, trouxe ao País?. E não foram só as contas públicas em ordem e a relativa (?) paz. O que já não seria coisa pouca dado o caos em que a primeira República deixou o País. O que vivemos hoje não tem nada de original.
Salazar não abandonou o poder a seguir. Se o tivesse feito seria hoje um herói Nacional. Mas convém lembrar que à época, em metade da Europa não era a democracia o regime em vigor. E que eu saiba nenhum “ditador” abandonou voluntariamente o poder, excepto Pinochet…
“As sociedades contemporâneas” são necessariamente diferentes do que eram há oitenta anos. Só a Inglaterra e a França, dos mais relevantes, eram civilizados? Seria preferível a balbúrdia?.
Sendo o regime autoritário, não admira que exercesse a censura sobre quem o contestava. Claro que era uma prática desagradável e limitadora da liberdade. Dito isto convirá acrescentar que se os exageros e as burrices dos sensores dos jornais e da televisão tornavam pior o que já era mau, já o mesmo não se poderá dizer, no que por exemplo, às livrarias respeitava. Eram várias as que nas respectivas montras exibiam em lugar de destaque, tudo o que de mais subversivo existia à época. Desde Marx, Engels, até ao livrinho vermelho dos pensamentos do Mao, havia de tudo e para todos os gostos. Mais nos tempos do Doutor Marcelo Caetano, mas o regime era o mesmo.
Não podemos esquecer que a economia estava “orientada” para as colónias e o Doutor Salazar era visceralmente contra os Americanos, que as cobiçavam,como de resto neles é habitual.
O arrendamento foi uma medida de carácter social e foi também um erro, só possível porque mal ou bem, não havia inflação.
Last but not least a questão dos princípios tem que se lhe diga, e por isso escrevi num comentário anterior que concordaria mais com uma expressão tipo “um sistema político e social envelhecido”.
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> Um regime político que por mais de quarenta anos não permitiu a circulação pacífica das elites do poder por decisão daqueles que governavam, era um regime fundado em princípios velhos e caducos.
Demasiado longo, e evade a questão de quais são concretamente os princípios, mas
o cerne está aqui. Só umas notas curtas.
Ao contrário do que propalam os interessados, uma república não é necessáriamente um regime máximamente favorável a um povo, e uma nação no seu todo.
Já a república romana era o instrumento de 300 familias de senadores para fazer um estado onde pudessem prosperar. As concessões à plebe, o P de SPQR. eram o necessário a manter a paz, e bem disputadas foram por facções populistas, de aristocratas fracos que do povo se fizeram fortes.
O regime de Salazar e Caetano defendeu o povo de “republicanos” egoistas. De 1974 a 2014 ficamos a ver cabalmente de que são capazes os ditos republicanos. Na prática, cantaram a canção do bandido ao povo, enquanto o depenavam com toda a energia. Há uma oligarquia restrita que se serve do país como se não houvesse amanhã, o que de facto, com o crash demográfico em curso, é muito capaz de não haver.
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Desculpe, mas não leu com atenção o que escrevi, e confundiu legitimidade de exercício do poder – de que tratei no meu texto – com a bondade do exercício do poder, o que me interessa relativamente pouco, porque, como costumava dizer Popper, o “bom governo” é um conceito que não deveremos ter em conta na estruturação constitucional de um país. O exemplo da República Romana é, aliás, um bom exemplo de um desencontro substancial entre um poder formalmente legítimo, em muitos aspectos competente, funcionalmente separado e horizontalmente controlado, mas que sempre desconheceu os valores fundamentais da natureza humana e do indivíduo. As questões essenciais do poder soberano não passam por aqui.
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Vi muitas palavras, mas a argumentação não passou do “é evidente”, “é imoral”, “não está na moda”. Mas há tantos ou mais bons argumentos para um monarca de direito divino como os que arrolou aí para um sistema republicano. É tudo uma questão de publicidade, e quem pode contrata as melhores agências. As questões de legitimidade podem sempre ser atestadas “a posteriori” por um João das Regras.
Eu sou uma pessoa simples, e atenho-me ao raciocínio do “cui bono”. Suspeito que a maioria do povo também, e que terem direito a escolher entre bandos de facínoras não os encanta particularmente.
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Já agora, fica aqui uma citação tirada do scan posto esta semana em http://portadaloja.blogspot.pt/2014/05/os-legisladores-pos-revolucionarios.html .
“Nos países em que a democracia, com a acção dos partidos, consagrou o carreirismo na política, um homem chega ao Governo depois de ter pleiteado os postos que vai ocupar. Candidatou-se a vereador e a deputado, procurou destacar-se de entre os correligionários, foi-se guindando de lugar em lugar, na satisfação de uma ambição que, quantas vezes, para chegar ao alvo desejado o forçou a negociar, transigir, intrigar ou atropelar …
“Ora durante esses quase 50 anos de história portuguesa, na maior parte das vezes – na esmagadora maioria! – os governos eram constituídos procurando pessoas reputadas competentes para gerir as pastas. E a competência avaliava-se pelas provas dadas na profissão, na administração, no ensino: em quantos casos o indivíduo era surpreendido pelo convite para se ocupar de um Ministério e buscava escusar-se pela falta de vocação política ou pelo transtorno que isso representava para a sua vida! E era uma luta para o fazer aceitar, invocando razões de patriotismo e outras de interesse geral.”
Marcello Caetano, Minhas Memórias de Salazar, p.107
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> “Fica, porém, uma última nota demonstrativa do que afirmo, quando digo que a ordem política e social portuguesa era, ao tempo do 25 de Abril, fundada em princípios velhos e caducos: ninguém a defendeu.”
Ah, este é um argumento particularmente ignóbil que também precisa de troco, se bem que não mereça.
Portanto, se um bando de facínoras o assaltar e ninguém o defender, está atestado que os facínoras estão certos. Belo raciocínio para quem argumenta pela “legitimidade”.
O regime de Caetano, talvez ingénuamente, confiou na justeza da sua posição e não gastou o dinheiro público a comprar escribas e formar clientelas. Os democratas não tiveram qualquer pejo em fazê-lo, e hoje muitos vivem disso.
Aliás, a técnica de “manufacture of consent” é a especialidade das oligarquias dos regimes democráticos. Até ostentam orgulhosamente a aparente facilidade com que indoutrinam populações (quase) inteiras nas coisas mais absurdas, em contraste com outros regimes menos hábeis que têm de recorrer a formas mais primitivas de repressão.
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No “Estado Novo” não havia “carreirismo na politica” ?!!….
Ora, ora !!….
Marcelo Caetano até foi um bom exemplo !!
A confiança politica era um critério tão ou mais importante do que é hoje.
A principal diferença é que antes era em relação a um partido unico. O “carreiro” era apenas um !
Já agora, os maiores “facinoras” são aqueles que, para se manterem no poder, amordaçam e metem na prisão os concorrentes.
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Facínora não precisa de aspas, é uma palavra portuguesa. Não costuma usá-la na televisão, mas ainda está nos livros.
E sim, como eu disse, as democracias são excelentes em abafar qualquer dissidência sem meios aparentemente violentos. Quer dizer, se houver violência ou prisões, os propagandistas tratam de as fazer parecer inteiramente justificadas. Fora isso, quem discorde da ortodoxia vigente é óbviamente desequilibrado e não deve ser escutado.
É inteiramente impensável – literalmente, os democratas ficam com os miolos paralisados – que um regime político não seja democrático. Quer dizer, isso aconteceu durante muitos séculos, mas isso eram primitivos horríveis que não se depilavam nem desodorizavam. Felizmente já ninguém lê os livros deles, podia apanhar algum coisa.
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> amordaçam e metem na prisão os concorrentes.
Nos sistemas autoritários primitivos, há um partido único.
Em democracias avançadas, há pelo menos dois partidos únicos.
Genial.
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As aspas são para mostrar que retomei uma expressão sua. Eu não a utilizaria neste tipo de análise.
Eu nunca disse que a forma “moderna” da democracia foi ou é o unico tipo de regime politico que existiu ao longo do tempo. Seria naturalmente um enorme disparate. Muito menos considero que outros regimes foram ou são “primitivos horriveis”. Diferentes formas de organização social e diferentes regimes politicos apareceram e existiram em função de condições muito diferentes das que existem actualmente nas nossas sociedades.
O que digo é que hoje e aqui, no Portugal de 2014, a substituição da democracia politica, por mais imperfeita que seja, por uma ditadura, por mais “iluminada” que seja, é um anacronismo e seria “pior a emenda do que o soneto”.
Não ignoro que nas democracias dos nossos dias, graças a uma certa hegemonia cultural do “politicamente correcto”, que eu critico e denuncio, nem todas as “dissidencias” anti-regime, em particular as que são classificadas como sendo de “extrema-direita”, teem a possibilidade de se exprimirem publicamente, em particular nos meios de comunicação social. Nalgumas situações chegam a ser inclusivamente reprimidas legalmente ou vitimas de acções violentas por parte de grupos da esquerda dita “anti-fascista” perante uma certa passividades das autoridades. Trata-se de uma prática iliberal com a qual estou em total desacordo. As direitas anti-democráticas não devem ter um tratamento diferente do das esquerdas extremas, às quais tudo é tolerado e aceite.
Dito isto, não me parece que estas e outras “dissidencias” pudessem ter mais possibilidades de expressão num regime autoritário. Antes pelo contrario. Em ditadura, “o abafar de qualquer dissidencia” é a regras e, sempre que necessário, pela força e de modo violento.
“Em democracias avançadas, há pelo menos dois partidos únicos. Genial.”
“Genial” é o contra-senso desta frase : “pelo menos dois partidos” não joga com “unicos”. Neste caso “unico” tem de ser singular e nunca plural.
Mas isto são apenas questões de forma …
O que é mais curioso é que o Euro2cente venha protestar contra o “abafar de qualquer dissidencia” e defenda ao mesmo tempo um regime de partido unico !!
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As questões “essenciais” do poder soberano passam, hoje, pela democracia Americana, mas cada vez menos. Ainda mais poético é o almejado poder Germânico, que além do mais tem contra si a língua e a prosaica falta de jeito tão característica dos teutónicos e a História recente. Ao contrário do que pensava Fukuyama a política não acabou, embora esteja já muito corrompida.
Especialmente no caso de Portugal, um País pequeno e pobre, privilegiar a economia em desfavor da política é um suicídio. Não nos podemos dar ao luxo de deixar a política, para mais numa perspectiva residual, nas mãos de economistas. Liberalismo sim, mas na economia.
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Apenas para animar a discussão. O contraditório, sobre Estado, Liberdade Cidadão, Liberalismo, Totalitarismo, Ditadura, outras abordagens::
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“Somos uma sociedade que gosta de viver à custa do Estado. Isso é incompatível com um projecto liberal.
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Esse é que é o principal problema. Os liberais em Portugal são uma tribo engraçada porque nos conhecemos todos uns aos outros. Frequentamos os mesmos espaços e somos uma espécie de extraterrestres, que andamos para aqui meio perdidos.
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Nós não temos uma sociedade que seja liberal, aliás, um dos motivos históricos que me causam particular vexame é uma ditadura que durou quase meio século.
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Conheço algumas das explicações históricas disso: a polícia política, a censura, o uso da violência preventiva, o apoio do exército e da Igreja, etc.
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Lamento, mas só é possível ter o regime iliberal do Dr. Salazar quando a maior parte da população portuguesa é estruturalmente iliberal e permitiu que o regime durasse quase meio século.
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Lamento dizer isto, mas não encontro outra explicação plausível. Não era porque o Dr. Salazar tinha grandes mecanismos de repressão ou porque isto era um Estado de cariz fascista ou totalitário. Salazar durou muito porque os portugueses eram tão iliberais quanto ele. ”
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http://www.ionline.pt/artigos/portugal/pereira-coutinho-salazar-durou-muito-porque-os-portugueses-eram-tao-iliberais-ele-0/pag/-1
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Caro Fernando
Não me parece muito que as tais “dissidências” tenham mais liberdade de doutrinamento aqui e agora, do que tiveram no tempo da outra senhora. Veja-se o caso das livrarias que citei atrás e compare-se com o que temos hoje. Se eu entrar por, exemplo na FNAC e pedir um livro conotado com uma ideologia de Direita, é certo e sabido que não o têm, nunca tiveram, nem fazem questão de vir a ter. Excepto os livros do Doutor Jaime Nogueira Pinto, porque vende muito e o Doutor Salazar é certo que não volta….
Dito de outro modo, a censura que era imposta, benigna e estúpida, é agora praticada de livre vontade e pelos democratas de esquerda. Convenhamos que tem outra sofisticação…
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Caro Rui,
Antes havia censura oficial, feita pelo Estado, utilizando censores encartados, tribunais e policias.
Hoje não há nada disso.
Trata-se de uma grande diferença que eu considero que não deve ser esquecida ou subestimada.
Outra coisa é o que se passa apenas ao nivel da sociedade civil, do privado.
Aqui, como deve ser numa sociedade livre, cada pessoa, cada entidade, faz o que entende com o que é seu.
Se os propriétarios da FNAC, ou de qualquer outra livraria, ou os gestores em quem eles confiam e delegam poderes, preferem priveligiar uma oferta de livros que é mais “politicamente correcta”, é problema deles.
Aqui podemos ver dois tipos de motivações.
Uma tem que ver com as sensibilidades ideologicas e politicas dos gestores e empregados da livraria. Acontece que, por razões diversas, estes profissionais são mais de esquerda do que de direita. Portanto, quando se trata de encomendar e escolher livros deixam-se guiar pelas suas inclinações.
Outra, talvez até mais importante, mas que até se conjuga bem com a anterior, é de ordem estritamente comercial. As livrarias procuram vender e, como tal, definem clientelas alvo. Acontece que estas clientelas pertencem em grande parte a categorias socio-economico-culturais que tendem a ser mais de esquerda do que de direita. Concretamente, são normalmente pessoas de classe média para alta, com um bom nivel de instrução, de meios e culturas urbanas, etc. Estamos a qui a falar de muita gente que trabalha e vive em torno de certos sectores produtores de bens e serviços ditos “não transaccionáveis”. O maior sector “não transaccionável” é o Estado. Pense-se na quantidade de funcionários, com destaque para os professores, que estão aqui incluidos. Por razões que me parecem relativamente evidentes, e que por isso não vou aqui desenvolver, uma grande percentagem destas pessoas são mais de esquerda do que de direita (e mesmo quando votam em partidos de direita não se consideram bem “de direita” …). Não é assim de espantar que uma grande parte dos agentes e entidades ditas “culturais, onde se incluem naturalmente as livrarias (mas poderiamos ainda acrescentar os autores, os editores, etc), tenham uma politica comercial que tenda a favorecer os produtos mais “politicamente correctos”, mais conotados com a esquerda.
Dito isto, e felizmente, nada impede que uma ou mais livrarias (autores, editores, etc) saiam deste molde e tenham práticas diferentes. Mas, teem de o fazer com mais prudencia, já que as respectivas clientelas alvo são quantitativamente menos importantes. Estamos a falar de uma espécio de “nichos de mercado”.
O facto disto acontecer, de existirem mais livrarias “à esquerda” do que “à direita”, não é culpa da democracia. A democracia, por definição, não impõe nem proibe o que quer que seja. Trata-se de algo que tem a ver com a situação mais geral da sociedade, com dinamicas que lhe são proprias. Claro, se aprofundarmos o assunto poderemos chegar a certas causas que, no fim de contas, também são politicas. O que disse acima sobre os sectores “não transaccionáveis” e sobre o peso que o Estado tem na nossa economia e, consequentemente, na sociedade, é certamente uma pista a seguir. E não falemos nas “politicas culturais”, que incluem subsidios vários que previligiam normalmente o que é bem visto pelo “politicamente correcto”. De resto, trata-se de um verdadeiro escandalo porque, para além do Estado estar a financiar gente que é principalmente de esquerda, que faz jus em assumir-se como tal, e que muitas vezes faz campanhas ideologicas e politicas a favor da esquerda, está ainda a subsidiar produtos, ditos “culturais”, que são sobretudo consumidos por uma minoria de pessoas com altos niveis de instrução e até de rendimento.
Certo, no tempo da outra senhora, sobretudo na fase mais recente do regime, ainda mais a partir da chamada “primavera Marcelista”, e como o Rui muito bem recorda, as livrarias tinham alguma margem de liberdade e chegavam até a colocar à venda livros claramente conotados à esquerda, muitos deles até de orientação marxista. Por sinal, eu também me lembro de ter comprado o livrinho de Mao Tsé Tung numa livraria antes do 25 de Abril.
Este facto, incontestável, leva-me a fazer 3 observações.
A primeira é a de que, ao contrario do que os “anti-fassistas” de serviço afirmam e do que muita gente menos atenta pensa, a censura no “Estado Novo” não era total. Digamos que controlava muito, era a censura dita “prévia”, mas também deixava passar e fechava os olhos a muita coisa. A preocupação principal dos censores era com as criticas mais directas ao regime. Quanto ao resto, incluindo o pensamento politico e ideologico, a cultura, a literatura, a politica internacional, etc, grande parte acabava por passar.
A segunda é que, no fim de contas, a censura do “Estado Novo” sempre foi muitissimo menos forte do que a total limitação da liberdade de expressão que existia nos regimes totalitários da altura, em particular, os comunistas ou afins. Convém lembrar isto porque os adeptos destes regimes sempre gostaram muito de lembrar a censura salazarista “esquecendo-se” de que era muitissimo pior nos regimes que admiravam e defendiam. E, se porventura tivessem conquistado o poder em Portugal, nomeadamente depois do 25 de Abril, teriam feito muito pior.
A terceira é que o facto de no tempo da outra senhora as livrarias, bem como outros agentes culturais, estarem disponiveis para colocarem à venda produtos conotados ideologicamente à esquerda, também pode ter algumas explicações do género daquelas que referi em cima a proposito da situação depois do 25 de Abril. Com varias adaptações, naturalmente. Mas não vou agora desenvolver este aspecto.
Boa noite.
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A Ditadura do Estado Novo tal como o Regime Populista do 25 de Abril que hoje temos quer controlar os fins.
Ou por outras palavras nada pode mudar porque perturba a paz social.
Google, Apples etc etc nunca cá nasceriam porque uma mudança económica é uma mudança de poder. É destruir o equilíbrio de poderes.
Para isso quer um quer outro regime precisa de restringir fortemente a liberdade.
Só por causa do desenvolvimento de novas tecnologias alheias ao país que Portugal mudou. Não é porque porque os donos deste regime o permitem de boa vontade.
Tal com os da outra senhora o não permitiam.
Hoje por exemplo temos o condicionamento televisivo. Só 4 canais podem existir.
Sem a revolução informática mundial que o Regime do 25 de Abril não é capaz de parar sem nos tornar numa Coreia do Norte as corporações que o formam permitiriam muito do que hoje se passa.
Se a tecnologia dos 60-70 se tivesse mantido o Regime do 25 de Abril controlaria siderugias, estaleiros e determinaria quem poderia entrar tal como no Regime da Outra Senhora.
Portugal pouco mudou desde os anos 60.
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Caro Fernando,
É certo não existirem hoje censores encartados. O mesmo se poderia dizer da censura se a Constituição o permitisse…
Esta não é uma democracia plena apesar das sucessivas emendas constitucionais, muito tímidas, não fosse sair ferida a sensibilidade socialista à qual o País deve vassalagem…
Já agora eu não comprei o livrinho. Ta arrenego!
Não há livros porque não há clientes ou não há clientes porque não há livros ?. O predomínio cultural da esquerda persiste e não será destronado facilmente, bem sei. Mas até quando?
Se por um lado o enquistamento defensivo é uma questão de pura sobrevivência, por outro a “oposição” à direita é frouxa, condescendente e está limitada à teologia do mercado e pouco mais. Particularmente no caso das ciências sociais, elas próprias por vezes meras emanações das ideias de esquerda. Aqui reside um dos aspectos mais perniciosos desta realidade, porque a propagação às novas gerações está assim facilitada. Já foi contudo mais preocupante uma vez que a indispensável confirmação prática, concerteza por embirração dos deuses, não só não há meio de acontecer, como teima em provar o contrário.
Os acontecimentos no terreno se encarregarão de aos poucos tornar obsoletas as teorias que não passaram de wisfull thinkings. A realidade impor-se-á fatalmente, o que só não sucedeu há mais tempo dada a irresponsabilidade dos mentores da dívida.
E pode muito bem ser que mais tarde a comunicação social esquerdófila acabe por entender.
Uma noite descansada.
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