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Accionistas com sorte

5 Agosto, 2014

Neste país curioso o governo é em simultâneo acusado de expropriar os accionistas do BES e de meter dinheiro dos contribuintes num banco. Destas duas acusações, a segunda é a que tem maior probabilidade de estar certa. Embora o risco para os contribuintes não seja elevado (é semelhante ao risco de o sistema bancário falir todo), a injecção de 4,9 mil milhões de euros no good bank só é viável porque o Estado garante o empréstimo da Troika ao fundo de Resolução. Sem este dinheiro o banco entraria num processo de falência não apoiada, com perdas maiores para os accionistas e eventualmente com perdas também para os obrigacionistas não subordinados.

Há dois processos alternativos, qualquer deles pior para os accionistas:

1. Falência por liquidação dos activos, sem disponibilidade de liquidez externa. O banco nestas condições não teria liquidez para pagar todas as obrigações de imediato. Este processo seria demorado e depositantes e obrigacionistas só receberiam à medida que os activos fossem vendidos,  a baixo preço para tornar a operação mais rápida. No fim dificilmente sobraria alguma coisa para os accionistas dado que todos os activos teriam que ser vendidos com desconto.

2. Aumento de capital com a conversão de dívidas em acções. Neste caso os obrigacionistas teriam que injectar os cerca de 4,9 mil milhões de euros para reforçar os  rácios de capital por conversão de dívida em acções. Nesta opção os accionistas sofreriam uma perda total (a prioridade é pagar uma parte aos obrigacionistas) e os obrigacionistas uma perda parcial uma vez que passariam a deter um activo de maior risco, acções. Cerca de metade da dívida obrigacionista seria convertida em acções.

11 comentários leave one →
  1. Churchill's avatar
    Churchill permalink
    5 Agosto, 2014 17:04

    Neste país curioso há blogs que normalmente defendem posições liberais e que desde domingo há noite resolveram considerar os investidores do mercado de capitais como os alvos a abater.
    Ainda nem passaram 2 dias e pela Europa fora já se está a sentir o efeito.

    O Blasfémias parece o Aventar!

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    • manuel's avatar
      manuel permalink
      5 Agosto, 2014 17:23

      pois, havia uns maduros em Maio de 2014 que defendiam uma linha cautelar. Mas o relógio do Caldas já estava em contagem decrescente. Se vier o pior a culpa é do BES!

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    • Nuno's avatar
      Nuno permalink
      5 Agosto, 2014 17:48

      Já percebemos que o Churchill se sente enganado. É natural, porque o foi. Pela gestão Espírito Santo activamente, e pela falsa sensação de confiança que lhe foi oferecida pela regulação.

      Mas os resultados do BES foram os que foram.

      A posição liberal é entender que, se a 9 de Junho 2014 foi concluido com “sucesso” um aumento de capital no valor de €1045M, a 1 de Agosto 2014 o BES valia no mercado nada mais que €675M.

      Com muita ou pouca regulação, nessa 6a-feira o BES faliu. Se fosse liquidado os acionistas receberiam zero. Se fosse aumentado o capital na proporção necessária para continuar a operar de acordo com as regras, os accionistas veriam a sua participação diluida a valores irrisórios.

      Não foi a criação do Novo Banco que retirou o valor ao seu investimento. Foi a gestão Espirito Santo que o Crédit Agricole vai processar.

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      • Churchill's avatar
        5 Agosto, 2014 19:12

        Vamos lá ao que sinto.
        Não foi pela gestão ES que me sinto enganado, até porque creio que a poeira ainda é muita. Com toda a conversa confio mais em quem geria também o dinheiro da família que os reguladores ou agentes do governo que decidem sem ter o dinheiro deles em jogo.
        Seguramente que tomaram decisões erradas, das milhares ao longo dos anos, mas os problemas legais são uma coisa e a gestão danosa outra.

        Já pelos reguladores fui enganado e roubado durante um fim de semana com as minhas ações congeladas, quando antes tinham dito tudo ao contrario e agora fingem que foi culpa do espirito santo (do religioso!).

        O valor a 1 de agosto foi obviamente condicionado pela Goldman e outros que venderam em barda, e que têm ouvidos onde não devia ser permitido (ainda não ouvi a CMVM a anunciar investigação de inside desta vez!)
        Em março os resultados foram negativos e o valor das acções era 10 vezes maior.
        A conversa de que faliu está longe de provada, se o governo tem emprestado o mesmo que ao BCP nada disto acontecia. Os activos tóxicos são em grande parte coisas angolanas com contornos mafiosos e falta de diplomacia com tomates. Não pagam 5MM€ era confiscar as participações que têm na NOS, BCP, BPI, BPN etc., pois se há avales do governo não podem continuar a gozar com os tugas.

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    • A.Lopes's avatar
      A.Lopes permalink
      5 Agosto, 2014 18:27

      “domingo À noite”

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      • A.Lopes's avatar
        A.Lopes permalink
        5 Agosto, 2014 18:28

        Este comentário era para o sr.Churchill!

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      • Churchill's avatar
        5 Agosto, 2014 18:55

        Obrigado Lopes
        Quando puder envie o comentário para os autores do corretor da Apple.

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    • Joaquim's avatar
      Joaquim permalink
      7 Agosto, 2014 11:28

      O que aflige mais não é a solução a que se chegou, são os reguladores que depois de andarem anos a dormir, acordam, agem mal, contribuem para o buraco, e no fim enganam os investidores apontando para a frente enquanto engatam a marcha atras. Isto é escandaloso e não percebo como bloggers como o Miranda podem escamotear este ponto. As cabeças que não regulam bem não podem estar no regulador! Ser-se liberal e não ser exigente com regulador não bate certo.

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  2. ricardo's avatar
    ricardo permalink
    5 Agosto, 2014 17:14

    O Título correcto seria:
    Obrigacionistas com sorte

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  3. Buiça's avatar
    Buiça permalink
    6 Agosto, 2014 01:37

    3- A eventual recuperação de créditos pelo “Banco Mau” reverterem a favor do Novo Banco (e não de accionistas e credores) que ficaria obrigado a usar esses montantes no reembolso da ajuda agora recebida na medida em que isso não resulte em rácios de capital abaixo do mínimo.

    As regras do mecanismo de resolução prevêem que as perdas são primeiro suportadas pelos accionistas e credores e só depois entra a ajuda do “sistema” e eventualmente dos governos (se a primeira não chegar e for mesmo importante manter o banco vivo).

    A menos que me garantam que na solução actual os créditos a receber que vão colocar no “Banco Mau” não vão (depois de cobrado) valer mais do que o que é devido aos credores do BES que também transitam para credores do “Banco Mau”, há a hipótese de os accionistas ainda virem a receber algum. E não acho que devam receber um cêntimo que seja.
    Um credor deve ter direito à sua parte da massa falida, um accionista só deve ter direito a alguma coisa depois de pagos os credores. E no caso de um banco intervencionado aparece com prioridade quem intervencionou – se depois de paga a parte que cabe aos credores ainda sobrar alguma coisa, deve reverter a favor de quem salvou o banco e não de qualquer accionista.

    O diabo está nos detalhes.

    No limite eu posso montar um banco, pedir dinheiro emprestado aos mercados e emprestá-lo sem juros a mim próprio. Recupero logo o que investi a montar o banco. Depois empresto mais ainda a mim próprio e compro o Porto inteiro. Depois quando o zero que pago de juros não chega para o banco ir pagando os juros que os mercados lhe cobram, tudo rebenta. Crise, ai jesus que somos todos sistémicos.
    No final nacionalizo, deixo o contribuinte (leia-se CGD) com a responsabilidade de pagar de volta aos mercados (por inteiro, já que não houve falência) enquanto que chamo “activos tóxicos” aos empréstimos que fiz a mim próprio, os coloco num veículo “mau” que vai tentar recuperar as dívidas de mim próprio, o devedor, em benefício de mim próprio, o accionista.
    Comecei com nada e acabei com o Porto inteiro e o contribuinte a pagar.

    Cumps,
    Buiça

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  4. azurara's avatar
    azurara permalink
    6 Agosto, 2014 02:04

    Mas poderia haver, para os acionistas, sobretudo os pequenos, pior solução do que a encontrada?
    Duvido que possa haver algo pior do que a expropriação, que foi o que o Estado fez !!!

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