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Choradinho dos accionistas

5 Agosto, 2014

Neste processo de resolução bancária do BES haverá muitos choradinhos. Aquele que nesta fase está a ter destaque é o choramingo dos accionistas, cujo argumentário pode ser consultado, por exemplo, aqui. Sobre isso importante perceber o seguinte:

1. Num processo de separação entre bad bank e good bank, o good bank não é a expropriação do valor accionista do banco. O good bank tem activos, mas também tem passivos. Em princípio estes devem estar equilibrados. Portanto, não adianta fazer o choramingo “ai coitados dos accionistas que foram expropriados dos activos bons e só lhes deixam o osso”. Para o good bank são transferidos activos suficientes para pagar os credores prioritários, entre eles os depositantes e os obrigacionistas prioritários. Não adianta sequer dizer que os activos do good bank são muito bons e para os accionistas só ficaram os maus. O valor de um banco não é igual ao valor dos seus activos mas sim ao valor da diferença entre activos e passivo.

Idealmente, isto é, se o processo for bem desenhado, o valor do good bank antes de ser capitalizado seria zero. Por isso é que precisa ser capitalizado. Caso seja superior a zero, algo que só se saberá com 100% de certeza após a venda do good bank, haverá cláusulas de compensação que permitem compensar o bad bank, como se explica aqui. Portanto, não há qualquer razão para desconfiar que há uma expropriação dos accionistas. Aliás, estes processos de divisão de activos de bancos, em good e bad banks, são banais e são feitos respeitando os direitos de propriedade.

2. Um banco para operar tem que ter rácios de capital acima do mínimo legal. A razão é simples de perceber. Tendo em conta que mais de metade dos activos de um banco são depósitos e que os bancos funcionam muito alavancados, qualquer pequena oscilação de mercado pode levar a perdas consideráveis do valor accionista do banco, havendo o risco de ele falir. Ora, o BES, apesar das várias oportunidades para se recapitalizar, incluindo por fundos públicos, caiu abaixo desses rácios. Sendo o nível de desconfiança elevado, tornou-se impossível uma recapitalização privada, pelo que o banco apesar de poder ter um valor positivo, deixou de ter condições para operar. Simplesmente não reúne condições para aceder aos fundos do BCE, que são indispensáveis à actividade. Sendo assim, o banco tem que ser liquidado.

3. Os princípios a seguir na liquidação de um banco estão pré-definidos e não deverá ser surpresa para ninguém que os accionistas só recebem alguma coisa depois de todos os credores serem pagos. Não há num processo de liquidação uma distinção entre o pequeno accionista e o grande accionista, nem deve haver. As coisas são como são. Não se trata de punir A ou punir B. É só seguir as regras, regras que não foram inventadas agora.

4. Os pequenos accionistas queixam-se que foram enganados pelos reguladores, que confiaram nas palavras dos reguladores de que o banco estaria sólido. Ora, tenham lá paciência. Quem faz queixas nestes termos obviamente que não faz a mínima ideia do que anda a fazer. O prospecto do aumento de capital do BES tem 375 páginas (PDF). 375 páginas de avisos, revelação de riscos, explicação de como funciona o sistema bancário, análises de mercado, contas etc.  São as pessoas que não leram estas 375 páginas que agora se queixam.

5. Mas vamos pressupor que o pequeno accionista merece ser compensado por ter sido enganado. Quem compensa? O contribuinte? A que propósito? Se calhar devia ser o depositante no BES … Mas a que propósito?

22 comentários leave one →
  1. neotonto's avatar
    neotonto permalink
    5 Agosto, 2014 09:35

    A destacar que desta vez o JM exprimiu ( a nova situaçao tal o demanda) um pouquichinho mais os seus neuronios para explicar o que se pasa com os bancos.
    Nada a ver com casos precendentes nos que deixou frases antoloxicas do tipo:
    .
    “Parece estar resolvido aquele grave problema de há seis meses atrás. A banca deixou de ter lucros escandalosos. Vivemos, portanto, num mundo melhor”.

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  2. Pinto's avatar
    Pinto permalink
    5 Agosto, 2014 10:22

    Nem mais

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  3. Z's avatar
    5 Agosto, 2014 10:37

    Concordo com quase tudo.
    .
    Mas quando, no ponto 4, faz referência ao prospeto do aumento de capital está a anular o seu próprio argumento. É que, pelos vistos, nem os reguladores retiraram dessas 375 páginas informação relevante.
    .
    Falta também verificar os fluxos de ações nos últimos dois dias de transação do título BES. É aqui que vai estar a “grande barraca”, quando se concluir que muitos dos grandes acionistas saíram a tempo. E vai-se concluir que houve informação privilegiada, que só pode ter sido fornecida pelo governo, pelo Bdp ou pela CMVM.
    .
    E depois?
    .
    Tribunais. E alguém vai pagar. E esse alguém é… o contribuinte, claro.

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    • PG's avatar
      5 Agosto, 2014 11:17

      Exacto… aquela desvalorização toda só pode indicar que muitos grandes accionistas saltaram do barco antes de afundar. A Goldman Sachs foi um deles…

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    • fado alexandrino's avatar
      5 Agosto, 2014 13:08

      Sobre esses fluxos já perguntei mas ninguém respondeu.
      Para se terem vendidos centenas de milhões de acções, alguém as comprou.
      São esse que agora se queixam.
      Mas de quê?

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  4. atom's avatar
    atom permalink
    5 Agosto, 2014 10:46

    Quem vê as barbas do vizinho a arder, põe as dele de molho. Se eu fosse um pequeno acionista de qualquer banco português, vendia as minhas ações o mais breve possível.
    Acerca do dinheiro dos contribuintes temos a garantia do Sr. Governador do Banco de Portugal, da Srª. Ministra das Finanças e do Sr. Primeiro-ministro que está seguro. Recorrendo à memória das garantias passadas dadas pelas mesmas pessoas, tenho como certo que será precisamente o contrário.

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    • fado alexandrino's avatar
      5 Agosto, 2014 13:09

      Não é por nada.
      Mas parece-me que os nomes das pessoas que cita são diferentes nos dois casos.
      Mesmo muito diferentes, tão diferentes que nenhum dos três é igual.

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  5. vortex's avatar
    vortex permalink
    5 Agosto, 2014 10:53

    O Girassol, estúpido, continuou a funcionar
    Drummond de Andrade

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  6. Alexandre Carvalho da Silveira's avatar
    Alexandre Carvalho da Silveira permalink
    5 Agosto, 2014 11:06

    Estes não choram, agem. E agem contra quem têm de agir, ou seja contra os que geriam o banco e que por via da sua má gestão o levaram à falência, e às subsequentes perdas dos accionistas:

    http://observador.pt/2014/08/05/credit-agricole-diz-se-traido-e-processa-familia-espirito-santo/

    Não querendo fazer o papel do “advogado do Diabo”, porque já aqui escrevi o que penso do Governador do Banco de Portugal, convém ouvir com atenção o que ele dizia. E o que ele dizia começava invariavelmente pelas singelas palavras ” de acordo com a informação disponivel”, etc e tal. E isto faz toda a diferença.

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    • jp's avatar
      5 Agosto, 2014 13:43

      silveira,nã se preocupe,eles vão aparecer.não é um gajo com “meia duzia” de açoes que vai contratar um advogado! silveira a sua ultima frase na minha opinião, é de um homem pouco dado à seriedade.esse senhor serviu de avalista do bes.sem ele não havia aumento de capital. tome nota: defender o indefensavel é de burro!

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      • Alexandre Carvalho da Silveira's avatar
        Alexandre Carvalho da Silveira permalink
        6 Agosto, 2014 14:09

        jp, eu posso ser burro, mas você não consegue perceber o que lê: deve ser atrasado mental.

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  7. PiErre's avatar
    PiErre permalink
    5 Agosto, 2014 11:55

    O intervencionismo estatal está cada vez mais refinado. É a concretização da doutrina Keynesiana em todo o seu esplendor. Está à vista a plena sovietização da economia.
    Salva-se a nomenklatura, pois…

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    • jp's avatar
      5 Agosto, 2014 13:52

      pierre,está proxima a chegada ao poder do jeronimo de sousa.o seu braço armado é a direita,como agradecimento por lhe ter aberto as portas do poder em 2011!

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  8. Churchill's avatar
    5 Agosto, 2014 12:37

    O prospero avisa o mesmo que todos os outros prospectos, de todos os aumentos de capital.
    Avisa que há riscos, como sempre.
    Refere de facto alguns problemas na holding de topo, mas o BP veio dizer que estava controlado com a almofada.

    Não é choradinho, para mim é choro compulsivo porque fui roubado.

    O Miranda é que nunca deve ter lido nenhum prospeto, pois 95% do que está lá é a sempre igual. Se houver um terramoto ou outra catástrofe não se pode garantir o que fica de pé.
    O que aconteceu aqui foi que existiu uma avaliação de risco da parte dos investidores, com base nos dados oficiais, e agora veio a descobrir-se que estavam todos muito errados (estou a falar de dados, não de expectativas!), e isso foi validade pelo BP e pela CMVM.

    A avaliação e gestão do risco é uma actividade com alguma incerteza, mas com fundamento técnico e cientifico.
    Se quiser uma analogia, é como um medico ler um boletim de analise e ver o colesterol a 120, e dizer ao doente que o risco de AVC é baixo, mas depois vem a descobrir que afinal o colesterol estava a 1500. A CMVM foi o analista, o BP o medico que confiou num laboratório manhoso, e o accionista é o indivíduo que quinou.

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  9. Filipe Pereira's avatar
    Filipe Pereira permalink
    5 Agosto, 2014 14:51

    Visão limitada de Gestão. Chorava era se pensasse contabilisticamente. Existem activos intangíveis, como é o caso de número de clientes e a sua própria distribuição, notoriedade da marca BES, entre outros que são propriedade dos accionistas. Contudo, isso foi “expropriado”.
    Uma solução intermédia, isto é, uma tentativa de aumento de capital em primeira instância, certamente seria mais equilibrada para todos os agentes económicos envolvidos. Caso não se demonstrasse suficiente, aí sim.
    Além de que muitos dos accionista foram conduzidos à compra de “lixo” pelas contas falseadas do 1T 2014 e acima de tudo, pelo Sr. Carlos Costa.

    NOTA: Economia e Gestão não são resultantes e resultados apenas em número. Chore por estudar outra vez para tirar as palas.

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    • JoaoMiranda's avatar
      JoaoMiranda permalink*
      5 Agosto, 2014 15:25

      Filipe,

      A partir do momento em que se entrou num processo de resolução os accionistas perdem a possibilidade de aproveitar os activos intangíveis. Só se chegou a este ponto porque as alternativas foram-se esgotando.Foi feito um aumento de capital há 1 mês. Não pode dizer que quem foi a esse aumento de capital foi enganado e ao mesmo tempo ter a certeza que se podia fazer outro com sucesso.

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  10. Churchill's avatar
    5 Agosto, 2014 16:45

    Miranda
    Se tiver oportunidade veja as notícias
    Parece que o mercado percebeu que a solução (vamos proteger os contribuintes e … Os accionistas) não aprecia que investe o seu dinheiro a financiar empresas, através do mercado de capitais.
    Agora vão buscar o dinheiro ao colchão!

    Eu só ainda não percebi foi como o Miranda e o Cunha têm estado desde domingo à noite a defender teorias quase comunistas!

    Sempre quero ver se a Ministra das Financas vai outra vez falar com o inteligente da SIC, hoje à noite.

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  11. MG's avatar
    5 Agosto, 2014 18:06

    Se o papel do regulador é não regular nada , ser concluio com aqueles que regula e aceitar fazer parte da fraude praticada contra os pequenos acionistas. Então estamos perante crime organizado . Isto é máfia .

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  12. jorgegabinete's avatar
    5 Agosto, 2014 20:29

    Este seu post é, na minha opinião, muito mau. O seu ponto 4 é patético na deriva demagógica.
    Um milionário qualquer deixou de negociar títulos e liquidou as suas posições financeiras no dia em que o taxista lhe começou a falar em acções. Chegou o ponto de não me achar suficientemente opinador (ao contrário do milionário e do taxista) para o nível de conhecimento que se arroga. E tenho pena mas deve haver um limite a esta vertigem opinativa sem nexo.

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  13. antonimo's avatar
    antonimo permalink
    5 Agosto, 2014 20:34

    ETal que havia 375 paginas e so nao leu quem quis. É quase tao praticavel qt o nenhum cidadao poder alegar desconheimento da Lei. Francamente na pratica acho que os maneis e os quins de meia duzia de açoes foram enganados – mas de forma sonsa. Afinal, sempre havias quase 400 paginas. Fala quem qd o banco lhe vem tentar impigir açoes imperdiveis diz logo que nao. Para mim banco seve apenas para nao por o dinheiro no colchao. A partir de agora muitos mais terao a minha visao

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  14. António Cardoso da Conceição's avatar
    6 Agosto, 2014 09:28

    A sua análise omite de um elemento essencial: na sexta-feira, as acções do BES valiam 12 cêntimos. Era esse o seu valor de mercado e muitos accionistas, analisando o seu risco, compraram-nas. Na segunda de manhã, essas acções valiam zero. E valiam zero, não porque tal decorresse do regular funcionamento do mercado, mas por uma decisão administrativa unilateral, tomada pela mesma instituição que na mesma sexta-feira garantia que o BES era sólido, inspirava confiança e havia investidores privados dispostos a recapitalizá-lo. O risco de o Regulador mentir aos investidores não era um risco constante de nenhum prospecto. Seja como for, o grande problema não é o dos accionistas do BES. É da mensagem que Portugal passou para o mercado: Portugal não é um bom país para investir, porque as suas instituições não respeitam o princípio da confiança.

    PS- declaração de interesses: não sou accionista, não sou obrigacionista, não sou depositante, não tenho qualquer aplicação no BES, no Novo Banco ou no Bad Bank. Não tenho qualquer relação de qualquer tipo com nenhum empresa do universo Espírito Santo. Ou melhor, fui a três consultas ao Hospital da Arrábida, em Vila Nova de Gaia.

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  15. Tiago's avatar
    Tiago permalink
    10 Agosto, 2014 00:33

    Depois desta solução, aconselho diariamente e incansavelmente a todos os pequenos acionistas e ou possuidores de algum capital amealhado, colocar o mesmo fora do nosso país. Exemplo de prejuizo dou o meu que fruto de acreditar no país, apiquei as minhas poupanças cá. Alguma parte ficaram em acões BES. Tirem tudo pois para este país poupar é sinónimo de alguém que deve ser enganado.

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