Edmundo, o marajá do piropo

Edmundo, piropado pelo mundo.
Rebola, agita, pendulando em badalo harmonicamente o pistão encerado de fragrância almíscar, como batuta para orquestra de primeiro violino em fio dental.
Edmundo saltou à vedação em Melilla para o campo de golfe com um sonho: tornar-se pedreiro na linha de TGV Caia-Poceirão. Com a crise e o abandono do projecto ferroviário que garantiria a Mário Lino um lugar nos livros de história, Edmundo foi obrigado a dedicar-se a actividade mais lucrativa, auferindo o salário mínimo acrescido de gorja pela ostentação do corpanzil a audiências embevecidas contra a violência tauromáquica do Homem versus animal potente.
Edmundo mergulha no tanque de sebo que ocupa grande parte dos decrépitos bastidores no Arco-íris Púrpura, local de culto para escritores socráticos e mulheres de meia-idade que ainda não se decidiram acerca de descendência humana apesar da menopausa eminente. “Badala-me a testa”, grita a chiffon preto e soutien rosa, que é a peça de vestuário mais perto do coração de todas as peças de vestuário. “Prega-me à parede com a bovina âncora”, refuta a loira dos motivos marítimos, mais achacada a Tourette voluntarista em forma piropal. É uma festa de despedida de solteira, celebrando a segundo violino a janela temporal entre este e o ponto em que regressará ao estado de não-casada. “Chocolate com nata”, grita a gorda do canto, criando a primeira ambivalência semântica da noite entre sobremesas e piropos.
À quinta-feira é noite do homem. O strip másculo de homem escurinho não é exclusivo para géneros femininos, que o mundo mudou para a abrangência de toda e qualquer forma identitária de igualdade. Belarmino, o franzino tatuado de tumefacção adornada pela tarântula violeta, com teia que envolve o escroto numa unificação do eu glandular, agita o braço-galho numa manifestação invernal que puxa para si a investida taurina que o torna uno com o capote a cornear. “Fundo”, compulsiva e fremente assinalando-se alvo e vítima de ataque a desferir, como se Edmundo não fosse gente, que homem não é certamente e gente não badala assim.
O primeiro piropo que Edmundo ouviu neste país foi “se fosses mais novo levava-te todo para uma casa em Elvas”. Piropos na rua são graves mas no local de trabalho são, sobretudo, imorais. Nada impede as gajas que são gajos e os gajos que são gajas de ofenderem, violentarem, estuprarem a dignidade de Edmundo. A Lei não é Lei. Pelo Edmundo e outros utensílios Benetton multicolores deste mundo, ilegalize-se o piropo.

contou Ramada Curto (1954) subia diariamente o Chiado à saída do Torel.
um velhinho simpático com quem se cruzava sorria para ele.
um dia sorriu mostrando a dentadura postiça. Ramada rindo disse-lhe
‘botões novos na braguilha !’
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Já que os brancos não facturam que facturem os pretos.
Sem laivos racismo, está claro, não escuro.
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excelente texto
riqueza de linguagem e semântica…..
qto ao assunto, já tenho algumas reservas……
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Até aprecio o humor e o sentido de ironia e sarcasmo de Vítor Cunha. Neste caso concreto, parece-me que não saiu bem. E é pena porque o assunto merecia ser debatido.
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Ó António tenho que discordar de si. O Cunha saiu-se muito bem. Muito bem mesmo. Já o assunto, sim, merece ser debatido. Com que prioridade, não sei? Mas sei que estamos apenas a falar de educação – no que toca aos bons modos e ao respeito pelo outros, certamente. Tenho receio que quando toda a regulamentação comportamental, de natureza asséptica (ou acética, também serve), estiver implantada, venha a ser difícil recuperar comportamentos naturais que passámos a proibir (não sei quantos séculos demorará, mas parece ser esse o caminho).
PS Avisem o Costa que está a chover em Lx.
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Ainda não sabiam que só há sexismo quando são os homens a fazê-lo .
O feminismo é a luta pela igualdade dos dois sexos, preocupando-se em resolver os problemas e o supremo interesse de apenas um deles .
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“de tumefacção adornada pela tarântula violeta, com teia que envolve o escroto numa unificação do eu glandular”
Carago, qu’isto é literatura a sério! No limiar da Poesia Anatómica-Zoologica-Metafísico-Existencial.
Em linguagem comum, tudo o que vem à rede é tomates – eu traduzi que o jorgegabinete, depois, não alcançava sózinho.
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AHAHAHAHAH, boa disposição a uma 2ª feira com trânsito caótico, é raro. Obrigado pelo momento.
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Ai k putedo – sr alfredo!…
O gajedo sem freio nos dentres, ui ui…
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Ai k putedo – sr alfredo!…
O gajedo sem freio nos dentres, ui ui…
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Ai k putedo – sr alfredo!…
O gajedo sem freio nos dentes, ui ui…
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ehehe…até o mefisto gaguejou…
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Muito bom texto! Estava mesmo a precisar de dar umas gargalhadas.
Sim, ilegalize-se o piropo (e para não violar o princípio Constitucional da Igualdade e da Equidade) vindo deles ou delas. Vai ser giro o Edmundo poder ligar para a polícia queixando-se da gaja de “soutien rosa” que ilegalmente lhe ‘manda’ um piropo, enquanto, muito dentro da legalidade, Edmundo lhe poderia responder: “Exijo que cumpra a Lei ó minha grande p*ta de m**da”.
“Pretendemos, mais do que legislação, Respeito” – deveria ser a palavra de ordem deles, delas e de nós todos. Mas claro que isso exigiria primeiro que tudo algo muito raro: darmo-nos ao Respeito. Não consigo deixar de sentir que de alguma forma soa a um tipo de humanismo que desumaniza o humano, que coloca a Lei acima da Moral.
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O Edmundo que tire dai a ideia, porque esta lei, se for para a frente, não é para aplicar a mulheres. Será como as leis sobre violência doméstica, na prática só se aplicam a homens.
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