uma carta
Meu Caro António Costa,
Você começou com um texto sublime, explicando-me por que me escrevia. Fiquei a saber que está com «vontade de (me) ouvir». Pois então, vamos a isso.
Na segunda, disse-me que «temos de vencer a depressão». E, apesar da vida nem sempre correr como a gente espera, é mal – a depressão – que não me costuma atingir, pelo que, presumindo que você fala de si, tem-me aqui para o que der e vier. Conte comigo.
Na terceira, você anunciou que «queremos aumentar a natalidade». Bom, aí espero que esteja a falar no plural majestático, porque eu já tenho dois filhos e não me está a apetecer aturar mais nenhum. Mas, como seu quase-amigo e já que você disse que quer falar comigo, deixe-me dar-lhe um conselho: a partir de certa idade não é boa ideia ter filhos, porque nos arriscamos a ser seus avós e não pais dos petizes. Por isso veja lá no que é que se mete. E, apesar das crianças serem a felicidade de qualquer lar, não devemos projectar nelas as nossas ansiedades e frustrações: ter filhos para combater a depressão não é terapia aconselhável. Para isso, é muito melhor fazer tudo como se fosse para tê-los, mas não chegar a esse ponto. Proteja-se, meu caro: hoje em dia não nos faltam meios para isso.
Na quarta, você começa a preocupar-me seriamente, quando diz, depois de ter anunciado anteriormente que queria aumentar a natalidade, que «a troica foi desejada». Aqui eu acho que você começa a manifestar alguns distúrbios preocupantes, provavelmente provocados pela ansiedade das últimas semanas, porque, meu caro, apesar de a ter escrito com «c» e não com o «k» com que habitualmente a lemos, a «troika» não é coisa que se deseje, nem para nós, nem para ninguém. É certo que foi um antecessor seu quem a mandou vir, mas nós é que levámos com ela em cima, enquanto que o seu colega andava pelos boulevards de Paris, pelo que penso que você não a deveria desejar novamente. Por mais solitário que se sinta.
Na última carta, que tem data de hoje mas eu julgo já a ter lido ontem, você tranquiliza-me, porque diz que «não assumi compromissos». É isso aí! Goze a vida e não se comprometa a fundo com nada, porque isto são dois dias e nós nunca sabemos quantos já lá vão. Divirta-se enquanto pode. Fico assim mais descansado ao saber destas suas anunciadas intenções.
Não terminarei esta minha carta sem lhe dizer que, após ter tido a oportunidade de apreciar o seu imenso talento literário, ainda por cima num género tão difícil de cultivar como o epistolar, já tomei a decisão que se impunha e que você me pediu: por mim, este país que outrora foi grande em Eças e Camilos, não poderá desprezar a sua veia literária. Deixe-se, pois então, continuar a escrever cartas, romances e versos, quem sabe, e não se preocupe com mais nada. Por mim, pode ter a certeza que tudo farei para que assim seja.
Por hoje é tudo.
Receba aquele abraço grato e solidário do


lol
Espectacular missiva. 🙂
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O Costa tem solução para tudo, até depressões ou como fazer sexo. Fico com vontade de votar neste novo Messias.
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Por mais que o Messias nos explique continuo sem perceber: temos que ter mais filhos e é o governo que nos impede de ter mais porque ganhamos pouco.
O Messias só tem dois filhos e ganha 150 000 euros/ano.
Será falta de dinheiro ou de tusa?
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Costa e as suas epístolas aos indecisos, tipo ” segunda carta de S. Paulo aos Efésios…. percebo agora, que é o desenvolvimento natural do cartaz místico, afinal a campanha está bem montada…, depois da Fé nas medidas do macroeconómico, espero só, que não termine na crucificação do Costa, com sócrates do lado direito e o vara do lado esquerdo.
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