ninguém o meterá no bolso
Marcelo Rebelo de Sousa nunca foi um típico homem de direita, embora a direita portuguesa também não seja muito típica. Nasceu e cresceu num ambiente social e familiar muito politizado, no coração do antigo regime, apanhou o 25 de Abril ainda jovem, e andou pela social-democracia e pelo centro-esquerda, embora não me lembre de, e ao contrário de muitos outros que hoje o acham pouco ortodoxo, o ver particularmente entusiasmado com «as conquistas do socialismo», ou a renegar família e amigos, ou a renunciar à sua religião de sempre, a católica, para quem não souber. Coisas que não eram de pouca monta para os tempos de então. Inteligente e com sentido de humor, diz quem o conhece que nunca se levou muito a sério. Católico praticante que sempre foi, terá uma perspectiva sensata da volatilidade das coisas, que o distancia da cegueira das paixões políticas. Por isso, ele se transformou numa personagem relativamente consensual na sociedade portuguesa. Excepto na direcção do seu partido, quando começou a ser evidente que aspirava à Presidência da República.
Não se lhe pode pedir, portanto, nem pela sua história pessoal, nem pela experiência política recente, que ele surja nesta candidatura a desfraldar as bandeiras da coligação de direita que ganhou as eleições mas que perdeu o governo. Se a direita quisesse um candidato mais comprometido, que o tivesse arranjado. Não por aquela herança ser boa ou má, mas porque não lhe compete fazê-lo para o cargo a que se está a candidatar. No modelo constitucional vigente, o presidente é um rei-moderador, à semelhança do perfil enunciado pela Carta de 1826, ainda que com menos poderes do que tinha, então, o chefe do estado português. Como moderador, ele poderá, no limite das suas competências, dissolver a Assembleia e demitir o Governo, se estes fizerem perigar o bom funcionamento do regime, mas está completamente fora de causa um protagonismo ideológico, isto é, ser portador de uma ou várias ideias sobre o destino de Portugal e procurar influenciar para que essas ideias se realizem.
A grande virtude que Marcelo terá se for eleito é a de que, no exercício das suas funções, ele dependerá, sempre e só, de si mesmo. Ou seja: Marcelo é um homem livre e independente e será sempre um presidente livre e independente, daqueles que António Costa não consegue meter no bolso. É por essa razão – e só por essa – que ele é o alvo de toda a esquerda e, sobretudo do próprio António Costa, ao contrário da ideia meia tonta de que ele será o seu melhor aliado. Ideia, de resto, que o PS tem difundido, para ver se consegue desviar votos da direita. E que alguma direita tem comprado, de resto, muitíssimo bem.
Mas, se alguma garantia Marcelo nos pode dar, é a de que sempre foi um homem livre. E ter um homem livre na presidência é a única garantia a que um eleitor poderá ambicionar nos dias que correm. Uma enorme garantia. Se ele, em campanha, diz coisas amáveis à esquerda e não se lembra tanto de amaciar o ego da direita, paciência. Isso não lhe retirará a liberdade de exercício das suas funções, que é o que o cargo precisa. Que é o que Portugal precisa.
Numa altura em que a esquerda tomou o poder com um partido minoritário e sobrevive com um arranjo precário, ter um homem livre na presidência é a última coisa que lhe convém. Por isso, Costa apostou em Sampaio da Nóvoa – muito mais até do que em Maria de Belém -, porque sabe que se ele alguma vez chegar à presidência lho ficará a dever integralmente a si. E será mais um que Costa porá nos seus já fundos bolsos. Mas alguém acredita que Marcelo se deixará pôr no bolso seja de quem for?
A direita que faça, então, o que entender. Mas que não se queixe de acordar daqui por uns dias com o país integralmente nas mãos da esquerda radical. Só lhes falta mesmo a Presidência da República e Marcelo é o único obstáculo que precisam de ultrapassar.

Marcelo só tem dado armas e legitimidade à Esquerda Marxista.
Se alguma vez chegar ao poder é também por causa de Marcelo.
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Já lá está. Ainda não tinha reparado?
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Se já lá está, Marcelo tem dito que a apoia muito.
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As ideias têm consequências, e Marcelo tem tudo feito para que triunfem as ideias da Esquerda.
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Ninguém é presidente com a adição dos votos do PSD + PP. Marcelo vai buscar votos a todo o espectro partidário, no meu caso, votei PAN, vou votar Marcelo
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ahah o PAN, na boa, mas leia isto, vale a pena:
http://www.ionline.pt/artigo/493435/animais-de-todo-o-mundo-uni-vos-contra-o-pan-?seccao=Opiniao_i
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Pois eu, apesar de pouco provável, terei votado no peiésse do porco preto e agora também vou votar Marcelo…
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“Ninguém é presidente com a adição dos votos do PSD + PP.”
Porque não?
Mas para isso é preciso trabalho, e este trabalho é ideológico e combate político.
Não é ficar envergonhado quando o jornalista lhe pergunta se é de direita.
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Se esta eleições fosse para eleger o mais hipócrita este Marcelo tem vantagem
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Muito bem escrito, caro Rui A. A direita avessa a Marcelo que explique como é que consegue eleger um PR fortemente alinhado à direita num país que tem um eleitorado fortemente de esquerda. A não ser que a direita avessa a Marcelo queira ver toda a máquina do Estado nas mãos de extremistas de esquerda, favorecendo com a abstenção a eleição do Nóvoa, um homem que militou na Luar, andou sempre a navegar na extrema esquerda e nunca se penitenciou disso.
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Um homem?… zinho?
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Tudo argumentos muito bons para votar nele na segunda volta. Marcelo pode não estar no bolso de ninguém, mas definitivamente acha que tem muitos no seu bolso.
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Só não consigo entender a vantagem de obrigar o homem a ir à segunda volta e correr o risco de a perder: obrigá-lo a dizer que é aquilo que nunca foi? Carlos, as coisas não estão para graças e estes dois primeiros meses do governo Costa são uma evidência disso mesmo. Mil vezes o Sócrates…
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Concordo, tirando o facto de ter enfiado as duas mãos no “pudim” sempre que pôde…
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“Mil vezes o Sócrates…”
É por essas e por outras que estamos como estamos!
Nem este nem Sócrates.
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O Costa já vai levar nas trombas da troika que vem aí de cacete na mão, ou alguém acredita que ela vem aí por causa das anunciadas 18 medidas?! Muito pior será o resto que ela não anunciou…
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Tal como o peixe não vê a água em que vive, Marcelo vive num regime socialista sem se aperceber.
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O título, muito interessante, remete para o slogan que ganhou um concurso patrocinado pelo Expresso e que foi “Ninguém o mete no bolso” aludindo ao calhamaço que era nessa altura.
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Excelente artigo, Rui Albuquerque. E para a direita que escreve e afirma não votar Marcelo na 1ª volta, junte uma receita de Kompensan 340 MG x 20 COMP. MAST. , aconselháveis para a noite eleitoral do dia 24 de janeiro de 2916. Não votei Passos, nem Portas, nas legislativas, mas vou votar Marcelo. Por outro lado, estou optimista no centro direita, vi uma entrevista da Assunção Cristas e dá gosto ouvir palavras de esperança e de contraponto às “esganizadas”. Considerando que o PSD não tem homens para afrontar Passos, não haverá uma mulher com bolas que queira avançar e lavar a fachada do PSD?
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Votaria no “Martelo” se tivesse a brilhante ideia de mergulhar, desta vez , nas aguas fétidas do rio Trancão em Sacavem .
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Muito bom post Rui…..infelizmemnte não consegue convencer alguns fanáticos (completamente alheados da realidade….que…..enfim……acham que vivem sozinhos no mundo mais os livrinhos que os impressionaram na puberdade……..mas deles será o “Reino dos Céus” 🙂 ) que aqui comentam.
Parabéns pela frontalidade!
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“Se ele, em campanha, diz coisas amáveis à esquerda e não se lembra tanto de amaciar o ego da direita, paciência. Isso não lhe retirará a liberdade de exercício das suas funções, que é o que o cargo precisa. ”
Se só fosse possível um mandato presidencial, até poderia concordar consigo. Mas como o presidente se pode recandidatar, receio que a “liberdade de exercício” de Marcelo será fortemente constrangida pelo seu desejo de recandidatura, o que se traduzirá numa campanha de 5 anos em que Marcelo ” diz coisas amáveis à esquerda e não se lembra tanto de amaciar o ego da direita” . E para isso não tenho muita paciência. Se ele fôr obrigado a ir à segunda volta, pode ser que pelo menos a sua “campanha de 5 anos” não se resuma a piscar o olho sempre para o mesmo lado.
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Rui, não li todos os comentários, não sei se repito alguma ideia. No entanto como libertário, gostava de um candidato menos ao sabor dos sound bites da esquerda. Vou votar nele mas não estou convencido que será tão livre assim.
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Vasco, como libertário votarei no candidato que menos me possa prejudicar e, sobretudo, que seja capaz de evitar que outros, que mo poderão lesar gravemente, lá cheguem. Para a maioria dos libertários, o valor da democracia não é a representatividade, que raramente acaba por existir, mas a possibilidade de retirarmos de forma pacífica do poder quem não queremos lá.
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” Se ele, em campanha, diz coisas amáveis à esquerda e não se lembra tanto de amaciar o ego da direita, paciência. Isso não lhe retirará a liberdade de exercício das suas funções”
Concordaria consigo se o mandato presidencial não pudesse ser renovado, e se Marcelo não tivesse revelado nesta campanha uma capacidade perturbante para mudar o seu discurso para se tornar consensual. Tenho dificuldade em saber se ele “é carne ou peixe”, se diz que “é carne” para não assustar os peixes, etc. Ao menos o Sampaio da Nóvoa e a Maria de Belém dizem ao que vêm…
A possibilidade de re-eleição do presidente significa que a presidência de Marcelo tem uma enorme probabilidade de ser uma longa campanha de 5 anos que não lhe concederá liberdade para exercício das suas funções e em que ele continuamente “diz coisas amáveis à esquerda e não se lembra tanto de amaciar o ego da direita”. Para isso não tenho paciência, e por isso acho que obrigá-lo a uma segunda volta é uma forma de lhe fazer notar que nessa “campanha de 5 anos” não deve estar sempre a piscar o olho para o mesmo lado.
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O Marcelo um homem livre? Com os fretes que fez ao Salgado na TVI? Tenha pudor, Rui A. Tenha pudor!
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O mais livre, não precisa de ninguém, até afasta o PSD/CDS enquanto Sampaio e Belém se degladiam para ter o PS. É preciso Marcelo voar para ser mais livre que os outros? Felizmente que Costa ao arrastar PC e BE para o poder perdeu a presidência. O povo é mesmo sábio
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Deixa ver se eu entendi, que sou um bocado lento: um “homem livre” é bom para o gado comum porque vai fazer exactamente o quê por eles?
(Sobretudo depois de ter declarado intenção de que o presumível carrasco dos nossos heróicos libertários “cumpra o mandato”.)
Vai olhar para ele com um ar desapontado?
Esta conversa do “mal menor” não tem fim? Já está um bocado gasta.
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