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Sobre as Jornadas Mundiais da Juventude

28 Agosto, 2023

Aprendi com o meu pai – um cristão conservador nascido em 1943 no seio de uma família profundamente católica – a questionar tudo o que me rodeia; que não há verdades absolutas; que nada é inquestionável porque o mundo é feito de homens e os homens, ao contrário de Jesus Cristo, não são perfeitos. Foi o seu exemplo que me inspirou ao vê-lo colocar em causa tanta narrativa repetida por séculos mas, que aos seus olhos, não faziam sentido. Entre tantas, a incoerência da religião “praticada pelos homens”, foi uma delas. A ousadia de questionar o “inquestionável” valeu-lhe  ser “excomungado” da família, pelo meu avô paterno, para quem tal atrevimento era uma blasfémia imperdoável. Mas ele não cedeu. Não mudou uma vírgula do seu pensamento crítico à “religião praticada pelos homens”. Pelo contrário, demarcou-se das ovelhas fanáticas. Um homem muito à frente do seu tempo. Assim sou eu.

Esta introdução ao meu texto serve o propósito de explicar que aqui, não lê o que quer ler. Aqui, observa-se e analisa-se os temas de uma forma objectiva, sem emoções nem fanatismos, muito menos clubismos. Por isso, esta abordagem às Jornadas Mundiais da Juventude é para quem tem mente aberta, capaz de ver muito além do óbvio sem se desviar do bom senso, e acima de tudo, da verdade dos factos. É para quem sabe distinguir fé, de interesses; amor a Jesus Cristo, de aproveitamento político; religião, de corrupção, propaganda ou manipulação de massas. Saber que amar a Jesus Cristo transcende o mundano e vive-se na união espiritual que prescinde de tudo o que é tangível. Tudo mesmo. Amar a Jesus não é seguir uma seita.

Começo por falar sobre o respeito pela fé dos outros e de como a vivem. Cada um de nós é livre de ser ou não homem de fé. De acreditar ou não em Deus. De praticar ou não uma religião e, mais ainda, caso queira ter uma, escolher a que melhor se identifica consigo. Não temos o direito de julgar seja quem for pelas suas opções.

De acordo com o censo de 2021, somos, em Portugal, uma população 80,82% católica. Não há por isso, qualquer dúvida que é a religião com mais fiéis, por enquanto, no nosso país. E, em consequência, não surpreende este mar de gente que respondeu ao apelo da união espiritual nas Jornadas. Foi indiscutivelmente uma bela e majestosa manifestação de fé. De arrepiar. 

Confesso que por desconhecimento do que eram efectivamente as ditas jornadas, imaginei que este evento poderia ter sido em Fátima pelo cariz religioso e também por este local já ter recebido milhares de peregrinos ao longo dos tempos. Porém, rapidamente percebi que se tratava de um evento com outra dinâmica o que inviabilizava a sua concretização naquela localidade.

Porém, não é por esse facto que devemos aceitar a forma como o evento foi projectado e concretizado. Se somos críticos com a (des)governação do país, também o temos de ser quando se trata de qualquer outro evento, não importa a sua natureza, que vá directamente aos bolsos dos portugueses (escravizados por impostos que já não conseguem suportar). Sejamos coerentes e sem fanatismos, se faz favor.

Analisado à lupa e a conta gotas (porque o lançamento das despesas no Portal Base está a ser propositadamente atrasado), verifica-se, sem qualquer espanto, que dos 175 contratos, apenas 6 não foram por ajustes directos. Repito: apenas 6!!!!! Escandaloso. Criminoso. 

O busílis da questão deste evento (que podia ser qualquer outro) está aqui: como é possível aceitar – só porque se trata de um evento católico -, com passividade do género “é realmente errado mas foi um magnífico evento e por isso valeu a pena” ou “também meteram muitos mais milhões na TAP”, como se isso fizesse desaparecer o CRIME. Sim, crime. Seja no que for, o dinheiro PÚBLICO é extorquido do orçamento familiar, do suor do trabalho. Logo, gerir com DOLO é crime. E sim, ajustes directos como recurso principal, sistemático e com malabarismos contabilísticas para os justificar, é crime. Só que aqui, no “portugal dos pequenitos”, ninguém é preso por gerir com dolo o erário público. Quando muito, é promovido: sai de um lugar na administração pública para ocupar outro, numa empresa pública qualquer ou recebe convite para gerir no privado empresas do sistema.

Ao contrário do que sistematicamente nos é dito, e aqui neste evento não foi excepção, houve mais do que tempo para levar a concurso público, as obras e restantes adjudicações de prestação de serviços. Mas à boa “maneira tuga” (isto já é tradição na administração pública portuguesa) não se faz em tempo útil para alegar, depois, que houve este ou aquele impedimento e que, por isso, claro, teve tudo de ser feito à “pressa” por ajustes directos. Lembro que, com execepção da grande manifestação de fé que uniu milhão e meio de fiéis nas Jornadas, não houve retorno económico (e ainda serviu de porta de entrada de milhares de falsos peregrinos graças ao desastroso pacote socialista de legalização de imigrantes) nem podiam ter, pela sua natureza, e que essa desculpa para gastar à fartazana por ajuste directo, não é de gente séria.

Quando o assunto é futebol ou religião, a maioria anui porque se trata de algo a que emocionalmente estão ligados. E estes escroques sabem disso. Por isso, continuam e continuarão a fazer o mesmo (gozar com a nossa cara) enquanto as contas bancárias deles crescem à conta da nossa passividade consentida. Devíamos levantar a voz em surdina SEMPRE que agem desta forma. Mas não. E porque nos calamos umas vezes e berramos noutras, deixamos de ter força (e moral) na mensagem, para contestar seja o que for. E ficamos obviamente, nós cidadãos, totalmente desacreditados. Assim, não vamos lá.

A segunda questão é o financiamento do evento católico que a Igreja devia financiar sozinha. Se não o aceitamos nas outras religiões, não o devemos aceitar nesta. Sendo uma iniciativa católica, deveria ser reservado a fundos privados, com execepção, claro, daqueles investimentos de melhoramento urbanístico para acolher este evento e que, podem e devem servir, para outros fins. A Igreja católica, tal como as outras, recebe verbas bilionárias dos seus fiéis. Pode e deve financiar sozinha os seus eventos. Se não aceitamos que outras religiões sejam financiadas com dinheiros públicos, aqui temos de nos reger pelos mesmos princípios. Um Estado laico deve respeitar todos os seus cidadãos e não pode por isso, colocar TODOS a pagar algo que não é da sua competência. Espanha, mesmo aqui ao lado, além de ter gasto muito menos, não precisou de um único cêntimo dos contribuintes para organizar o mesmo evento.

A Igreja, por outro lado, deve EXIGIR do Estado, obras SEM QUALQUER OSTENTAÇÃO, com preços justos, dentro da simplicidade a que Cristo nos ensinou. Deve opor-se a que nos seus eventos, haja esbanjamento de recursos. Sobretudo, numa fase pós-covid onde desgraçadamente famílias lutam simplesmente para sobreviver. Esse é o dever da Igreja porque sempre foi essa a mensagem de Cristo.

Por fim, a vinda do Papa actual, sob “holofotes, glamour e purpurinas”, como se de uma estrela de Hollywood se tratasse e com aproveitamento político por parte daqueles que, no governo e fora dele, se dizem ateus (só me apetece rir com a hipocrisia). O Santo Padre é um simples representante supremo da Igreja Católica, aquela que nos ensina a não seguir cultos, a não adorar senão a Deus, pai todo poderoso. Quando transformam a religião num culto fanático a um só homem, deixa de ser, perigosamente,  uma religião. Não é este o conceito de “Igreja” deixado por Jesus Cristo. Porque “Igreja” somos todos nós.

Os Papas, são homens escolhidos por homens não eleitos, para servirem de símbolo máximo na hierarquia Católica. Homens como todos nós, com virtudes e defeitos. Não são Deuses imaculados. Por isso, não podemos idolatrá-los enquanto fechamos os olhos aos sinais. Não podemos, só porque estamos imbuídos sentimentalmente, ignorar atitudes, discursos e comportamentos que denunciam intenções que nada têm a ver com a religião católica. 

De todos os Papas, este é sem dúvida aquele que mais reflexão e atenção nos deve. Porque a verdade dos factos é que, no meio de palavras bonitas que nos enchem a alma (ele é de facto um magnífico orador e tem carisma), como foi o caso nestas Jornadas, há um homem que não só se envolve em políticas globalistas (entre as quais, a “plandemia”), como as defende abertamente; que não só visita líderes ditadores e corruptos como Lula e Dilma,  e que violam os direitos humanos, como ainda os defende. E é sobre isto que devemos reflectir, mais do que em frases, muitas delas citações, só para nos tocar o mais profundo do nosso ser.

A Igreja Católica há muito foi tomada por dentro. É factual e há muita bibliografia sobre o tema. Gente sem escrúpulos que, escondidos “na fé”, utilizam-na para outros fins:

  • Sua Santidade – As Cartas Secretas de Bento XVI; Vatican SA – Las archives secrètes du Vatican; Merchants in the Temple – Inside Pope Francis´s Secret Battle Against Corruption inthe Vatican, de Gianluigi Nuzzi;
  • Avareza, de Emiliano Fittipaldi;
  • God´s Bankers – A History of Moneyanda Power in the Vatican, de Gerald Posner;
  • The Vatican at War – From Blackfriars Bridge to Buenos Aires, de Philip Wilan;
  • In God´s Name – An Investigation into the Murder of Pope JohnPaul I, The Power and the Glory – Inside the Dark Heart of John Paul II´s Vatican, de David Yallop;
  • THe Vatican Connection, de Richard Hammer;
  • The Vatican Exposed – Money, Murder, and the Mafia, de Paul L. Williams;
  • Dark Misteries of the Vatican, de H. Paul Jeffers;
  • Render Unto Rome – The Secret Life of Moneyin the Catholic Church, de Jason Berry;
  • Histoire Secrètes du Vatican, de Corrado Augias;
  • La maxitangente Enimont – Tribunale di Milano, V Sezione Penale, dos juízes Romeo Simi de Burgis, Salvatore Cappelleri e Marisella Gatti;
  • Os Abutres do Vaticano, de Luís Miguel Rocha;
  • Associates if the Sicilian Mafia: Roberto Calvi, Licio Gelli, Giulio Andreotti, Salvatore Lima, Salvatore Cuffanro, Michelle Zaza, de diversos autores;
  • Documentário sobre o inexplicável desaparecimento de Emanuela Orlandi no Vaticano: https://www.netflix.com/pt/title/81117191

Por muito que nos custe, pela ligação que temos à fé cristã, JAMAIS podemos fechar os olhos a esta realidade que está bem à nossa frente.

Termos consciência que a religião católica (assim como outras) foi politizada e serve neste momento para concretizar agendas “escondidas” (usando a fé dos seus fiéis) é o primeiro passo para o combate sério na limpeza que urge fazer a estas “serpentes” (e que são mais do que imaginamos). E aqui, o papel do representante máximo da Igreja Católica é preponderante, vital até, para a sobrevivência dos cristãos no mundo. Ignorar que há quem esteja infiltrado para fazer implodir o cristianismo, só os beneficia na concretização do objectivo. E o Papa, ao ter um comportamento dúbio – sem haver quem o responsabilize por isso -, também. E isso deveria preocupar-nos mais do que aplaudir. Disso depende a sobrevivência do cristianismo.

12 comentários leave one →
  1. Carlos Silva's avatar
    Carlos Silva permalink
    28 Agosto, 2023 12:08

    Texto notável Cristina. Não posso estar mais de acordo.

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    • carlos rosa's avatar
      carlos rosa permalink
      29 Agosto, 2023 00:02

      Mas deste quando é que Jesus era perfeito?
      Um homem de carne e osso?
      Que parvoíce da Sra Cristina.
      Com crenças malucas não vai a lado nenhum.

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  2. Fernando Santos's avatar
    Fernando Santos permalink
    28 Agosto, 2023 13:17

    O Papa é eleito por homens…
    Deliciei-me a ler esta (mais uma ) peça da Cristina.

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  3. Atento's avatar
    Atento permalink
    28 Agosto, 2023 15:00

    Claro que qualquer grande obra ou evento, seja uma festarola ou um aeroporto, é usado e abusado por esta classe pulhítica corrupta e inimputável para sacar-nos ainda mais. Daí o entusiasmo de governantes, autarcas, comentadeiros e sobretudo das grandes empresas – todos sabem que vão mamar.

    É assim esta “democracia”: os políticos recebem um cheque em branco que usam como lhes dá na gana. Os cidadãos nada decidem, os contribuintes nada mandam. Só pagam. Passados 4 anos roda o tacho. E recomeça.

    A Cristina é católica e critica o embuste chulo desta festarola, mas isso é agora: todos tinham de gostar desta ‘fantástica oportunidade do nosso país’. Quem a criticava era antipatriota, jacobino, mata-frades, estalinista, etc.

    Quanto à Igreja ter sido tomada, não vejo como – ou porquê. A Igreja sempre foi um instrumento de controlo de massas: não lute contra mamões e injustiças agora, conforme-se, espere pela outra vida… vai tudo correr bem!

    A Igreja também sempre foi uma grandíssima mamona, uma hipócrita sem par e um covil de pedófilos. Não precisa ser ‘tomada’ por ninguém. O que acontece é que muitos católicos desprezam este Papa; chamam-lhe comuna.

    Incomoda-os ver a sua ganância e a sua hipocrisia tão expostas; incomoda-os ouvir a Igreja falar de modo tão cristão! Ser cristão… é ser comuna.

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    • castanheira's avatar
      castanheira permalink
      28 Agosto, 2023 19:50

      Ser cristão, é ser livre para decidir, para escolher e ser responsavel pelo bem ou pelo mal, recebendo as consequencias dos seus actos.
      Ser comuna é querer decidir pelos outros, é querer impedir os outros de decidir por si mesmos e viver a vida que querem é subjuga-los é impedi-los de ser livres, exactamente o contrário do cristiNismo

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      • Atento's avatar
        Atento permalink
        29 Agosto, 2023 15:10

        Ser cristão, é ser livre para decidir…

        Na sua interpretação talvez, na da Igreja não: durante séculos quis, e quer ainda, impor-nos dogmas e comportamentos. A Igreja sempre se meteu na vida, até na cama das pessoas.

        Quanto a consequências, basta confessar-se e rezar umas ave-marias para ser ‘perdoado’; e se for um padreca pedófilo pode ficar ainda mais tranquilo – a Igreja até o promove.

        O comunismo é a gestão livre e democrática da economia e da sociedade pela população. Não por pulhíticos, não por CEOs ou mamões: pelos cidadãos e pelos trabalhadores.

        Tente agora prestar atenção. Tudo, tudo, tudo o que proclame ser ‘comunismo’ mas que não seja o que descrevi acima, não é comunismo. É outra coisa. A URSS era outra coisa. Cuba é outra coisa. A Coreia do Norte é outra coisa.

        Sim, dizem-se comunistas. Sabia que a Coreia do Norte se diz democrática? V. acredita?

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  4. Pedro Dias's avatar
    Pedro Dias permalink
    30 Agosto, 2023 09:13

    Sim, claro que o Atento, Venerador e Obrigado Mamão não é comunista. É muito mais do que isso. É GRAMSCISTA de gema. E por aí vai…

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  5. Viegas Fernanda's avatar
    Viegas Fernanda permalink
    30 Agosto, 2023 15:27

    Sublinho as palavras do Carlos Silva.

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  6. Jerónimo Mendes's avatar
    Jerónimo Mendes permalink
    31 Agosto, 2023 12:24

    Quando escreveu;
    “não houve retorno económico (e ainda serviu de porta de entrada de milhares de falsos peregrinos graças ao desastroso pacote socialista de legalização de imigrantes) nem podiam ter, pela sua natureza, e que essa desculpa para gastar à fartazana por ajuste directo, não é de gente séria.”
    Disse tudo!!!

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  7. Viriato Viseu's avatar
    Viriato Viseu permalink
    31 Agosto, 2023 12:32

    Há “apenas” DUAS coisas boas vindas do Papado;
    – 23 de Maio de 1179 Bula Manifestis Probatum. Naquela época o único notário Europeu, era o Papa.
    – João Paulo II

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  8. Maria's avatar
    Maria permalink
    3 Setembro, 2023 23:09

    Cristina: mais um texto de eleição, como é sua norma. Desculpe só hoje vir dar a minha opinião sobre o mesmo, embora o tenha lido assim que aqui o publicou. Só me resta dizer-lhe que fiquei maravilhada com tudo quanto escreveu. Continue a transcrever para o Blogo (e mais tarde de certeza noutro livro) todos e cada um que nunca serão demais. O patriotismo em tudo quanto escreve é um bálsamo para a alma de quem sofre horrores, como eu e igualmente milhões de portugueses, sobre o estado lastimoso em que o nosso País se encontra em todos os seus domínios: políticos, sociais, económicos e morais. A tragédia atingiu uma tal dimensão que difìcilmente haverá solução pacífica para alterá-la.
    Cristina, o motivo da minha demora é eu estar a passar a limpo – empregando uma caligrafia mìnimamente legível, a minha habitual é péssima – uma quantidade enorme de páginas sobre o trabalho que tenho em mãos e de que a Cristina tomou conhecimento através da pequena amostra que levei quando nos vimos.

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