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O padre DJ com «bênção» Papal

5 Dezembro, 2025

Excertos do meu artigo de hoje na coluna da Oficina da Liberdade no Observador:

O Padre Guilherme Peixoto é sacerdote da Arquidiocese de Braga, onde exerce funções como pároco nas comunidades de Amorim e Laúndos. Integra ainda o serviço de assistência religiosa das Forças Armadas Portuguesas como capelão militar. Como é notório, mantém simultaneamente uma carreira artística internacional como DJ em múltiplos concertos e festivais em Portugal e actuações em países como Espanha, Chile, Colômbia, México, Brasil ou Eslováquia.

Pode mesmo dizer-se que este pároco de aldeia é profissional global da música eletrónica de dança já que a actividade artística do sacerdote é formalmente enquadrada através da sociedade Lux Aeterna Records, Lda., da qual é sócio e gerente. Trata-se de uma microempresa criada em 2023, cujo objeto declarado abrange produção musical, gestão de eventos e actividades conexas. Contudo, o ponto relevante para este artigo não é tanto a existência da empresa, o envolvimento de contratos públicos ou a presença mediática significativa da figura, mas o modo como a actividade de DJ se articula com a condição sacerdotal.

Bastante mais grave, e diria mesmo escandaloso, é o facto de este colapso da fronteira entre vocação e hobby ser reflexo de fragilidades estruturais na Igreja, na forma como entende a vocação sacerdotal, a missão pastoral e a relação com a cultura contemporânea. A questão não é o techno, gostos musicais, nem sequer o choque entre “tradição” e “criatividade”. O problema ético, institucional, teológico, espiritual e pastoral é mais sério e mais simples: o que significa, afinal, ser padre?

O sacerdócio não é uma profissão entre outras. É uma identidade sacramental. O Código de Direito Canónico é explícito: o pároco deve residir na paróquia, estar disponível para as necessidades dos fiéis e viver com sobriedade; o sacerdote deve abster-se de atividades incompatíveis com o seu estado; e a vida clerical deve ser simples, transparente, ordenada ao cuidado das almas. Nenhum destes critérios é compatível com tournées no estrangeiro, presença em festivais, cachets elevados, dependência de clientes públicos, fornecedores desconhecidos publicamente ou uma empresa com estrutura financeira opaca. Não é apenas uma questão de disciplina. É uma questão de coerência espiritual. Aquilo que deveria ser uma vocação torna-se um produto. O sacerdócio torna-se uma ferramenta de marketing para o DJ.

Porque se a autoridade do Papa é usada para sancionar um acto que objectivamente banaliza a catedral e a missão sacerdotal, e se até o Papa transforma a sua mensagem numa extensão e apêndice da cultura pop, então a Igreja já não evangeliza o mundo, é evangelizada por ele. Se a ideia foi tentar demonstrar a sua “modernidade”, ao invés contribuiu para o desmantelamento da autoridade de líder espiritual e do simbolismo da sua condição de sucessor de S. Pedro.

É que ainda por cima a ideia de que um padre “cool” atrai a juventude para a Fé não passa de um mito. É um erro muitas vezes repetido como justificativa, mas empiricamente desmentido. Há dezenas de anos que muitas dioceses investiram na figura de uma espécie de padre entertainer com uso de linguagem juvenil, estéticas pop, missas performativas, sacerdotes vestidos “à civil”, atividades “animadas”. Mais recentemente temos visto padres influencers, modelos sexy, músicos, performers e DJs. Mas os dados mostram que as comunidades que mais se “modernizaram” foram as que mais depressa perderam jovens. Ao invés, as dioceses e comunidades que mantiveram liturgia sólida, clareza doutrinal, identidade sacerdotal forte e exigência moral são aquelas que atraem mais vocações e retêm mais jovens.

Os jovens não rejeitam a Igreja por ser demasiado séria; rejeitam-na quando ela deixa de o ser. Não se afastam por causa da liturgia; afastam-se porque a liturgia se tornou pobre e indiferenciada. Não abandonam porque a fé é exigente; afastam-se porque já não a reconhecem como proposta de sentido. A cultura do espetáculo não converte ninguém. Apenas distrai daqueles espaços e momentos em que a fé poderia tocar verdadeiramente a vida.

A confusão entre a função consagrada de um guardião de almas e performance de entretenimento é um sinal de secularização interior da própria Igreja. Quando o padre se transforma em vedeta-pop, a Igreja abdica de ser sinal de transcendência. Se até a Igreja se orienta pelo espírito do tempo e não pelo Espírito Santo, quem lembra o Sagrado? A função sacerdotal é, por definição, contracultural e quando se torna “cool”, deixa de ser necessária. E uma Igreja que já não sabe reconhecer o que é um sacerdote caminhará paulatinamente para deixar de saber para que existe.

O artigo completo, aqui.

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