A Antena da Vergonha: Quando a Autarquia Vira as Costas ao Povo

A instalação de uma antena de telecomunicações 5G na freguesia de Santa Marta de Portuzelo, em Viana do Castelo, tornou-se um caso exemplar de má gestão pública, opacidade política e desrespeito absoluto pela participação dos cidadãos. A torre da NOS, erguida na Rua Alto Xisto, foi colocada a poucos metros das habitações, enfiada no coração de uma zona residencial sensível, como se a vida das pessoas fosse um pormenor descartável no planeamento urbano.
O processo, contestado há mais de seis anos, não só revolta a população como expõe de forma gritante a ligeireza com que a Câmara Municipal lidou com um tema que afecta directamente o quotidiano e o bem-estar de centenas de moradores. A autarquia autorizou a instalação sem ouvir a comunidade, ignorando alternativas viáveis fora do meio habitacional. Foi um processo feito nas costas da população – literalmente.


Segundo os moradores, a antena apareceu sem aviso prévio, sem sessões de esclarecimento e sem qualquer forma de consulta pública. A comunidade soube do que estava a acontecer quando a obra já ia avançada, sendo confrontada com um facto consumado que nada tem de democrático. Sentiram-se surpreendidos, desrespeitados e, acima de tudo, usados.
Durante anos, apresentaram reclamações formais, reuniram cerca de mil assinaturas numa petição, elaboraram propostas concretas e tecnicamente sólidas para relocalizar a antena em zonas rurais ou menos densamente povoadas. Nada disso mereceu sequer análise, resposta ou publicação. A mensagem que receberam da Câmara foi clara: não contam. Não têm voz. Não são parte do processo.


A instalação da antena levanta preocupações reais. A torre está encostada às casas, numa proximidade que contraria qualquer noção de planeamento sensato. Há relatos de ruído constante proveniente dos equipamentos, degradando a tranquilidade e a qualidade de vida. As propriedades desvalorizam, porque ninguém quer viver ao lado de uma estrutura desta dimensão. O impacto visual destrói a harmonia do bairro, impondo-se como uma cicatriz metálica no horizonte. E mesmo que a ciência não demonstre riscos directos da radiação, a sensação de ameaça é real e pesa sobre o psicológico de quem ali vive.
A população manifesta elevada preocupação relativa aos potenciais impactos na saúde associados à exposição permanente a campos eletromagnéticos (CEM). Embora a legislação estabeleça limites máximos de emissão, existem estudos e organismos internacionais que recomendam a aplicação do princípio da precaução, sobretudo quando as antenas se encontram em zonas de elevada densidade habitacional. Os moradores recordam que a exposição contínua a fontes emissoras – mesmo de baixa intensidade – suscita dúvidas quanto à sua segurança a longo prazo, particularmente em grupos vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com condições clínicas pré-existentes. A comunidade assinala também a preocupação com interferências em dispositivos médicos implantáveis, como pacemakers e cardioversores-desfibrilhadores, um risco reconhecido por autoridades de saúde em circunstâncias específicas e que justifica, por si só, uma avaliação cuidadosa da proximidade entre antenas e habitações. Acresce ainda o relato de situações individuais que, embora não permitam estabelecer causalidade, merecem investigação independente: um caso de leucemia num jovem morador e agravamento de sintomas neurológicos noutra residente, actualmente em avaliação hospitalar. Estes elementos reforçam a necessidade de avaliação técnica e clínica imparcial, bem como de aplicação do princípio da precaução – sobretudo quando já existe, e foi proposta pela população, uma solução alternativa fora da zona residencial, tecnicamente viável e que elimina estes receios sem comprometer o serviço de telecomunicações.
A Câmara limita-se a dizer que a antena está licenciada. Mas o licenciamento não é um selo de bom senso. O licenciamento garante o mínimo legal – não garante que a decisão seja a melhor para o território, para a população ou para o equilíbrio urbano. Não substitui planeamento. Não substitui participação cívica. E muito menos substitui o dever político de proteger quem vive no concelho.
Este caso mostra o que acontece quando uma autarquia actua como mera carimbadora dos interesses de uma operadora, ignorando o contexto humano, social e urbanístico de uma freguesia inteira. E o mais grave é que a solução existe – foi apresentada, fundamentada e entregue formalmente à Câmara e à NOS. Uma alternativa que mantém a cobertura 5G necessária, evita impactos no tecido residencial e preserva o ambiente urbano. Porém, nunca foi analisada. Nunca foi discutida. Nunca mereceu resposta. Foi varrida para debaixo do tapete, porque era mais fácil ignorar a população do que trabalhar em conjunto com ela.
A polémica da antena de Santa Marta de Portuzelo ultrapassa largamente a questão das telecomunicações. É um símbolo vivo de défice democrático, de falta de transparência, de negligência no planeamento e de incumprimento do dever básico de ouvir os cidadãos. Num país onde se fala incessantemente de proximidade entre autarquias e comunidades, este caso demonstra exactamente o contrário.
A antena pode cumprir normas técnicas, mas falha em tudo o que realmente importa para a vida das pessoas: respeito, participação, equilíbrio, sensibilidade e bom senso. É uma decisão mal planeada, mal comunicada, mal justificada e profundamente desligada das necessidades reais da freguesia. E o mais inquietante é saber que tudo isto podia ter sido evitado. Havia uma alternativa fora da zona residencial. Havia solução. Havia vontade da população. O que não houve foi vontade política.
E vindo de um executivo do PS que se apresenta como herdeiro dos valores da liberdade e da democracia, a contradição torna-se evidente. Isto não é serviço público – é hipocrisia. Quando as pessoas deixam de estar em primeiro lugar e os interesses instalados falam mais alto, fica claro que não estamos perante uma autarquia ao serviço da comunidade, mas perante um poder local que serve quem mais lhe convém.

Não dava para colocar a antena ao lado da Aldeia? Num baldio qualquer? Qual a lógica de enfiar aquilo no meio das casas? Se fosse na minha casa o equipamento ia avariar todos os dias.
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Cara Cristina Miranda
Segundo verifico, a população dessa localidade votou, nas eleições de Outubro de 2025, nos mesmos que fizeram essa «bela» obra. Então, as pessoas queixam-se de quê?
Boas pedaladas.
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