O Seguro do PS e da Direita
Um dos candidatos presidenciais que ficou pelo caminho nas recentes eleições, tinha numa das letras das canções da sua antiga vida artística uma imagem que hoje encaixa com precisão em António José Seguro: Seguro é um «detergente sentimental».
Seguro não rouba, será bem-intencionado e sabe comer com talheres. Provavelmente nunca tomaria a iniciativa de criar crises políticas nem fomentaria o caos institucional. Estas virtudes banais tornaram-se defeitos num Partido Socialista treinado por António Costa. Foi por isso que as piores facções da esquerda lutaram, em surdina, contra Seguro na primeira volta. E é por isso também que muita gente à Direita, cansada e desorientada, decidiu que ele é “decente” o suficiente para merecer o voto.
Sem dúvida que as versões mais sujas e perigosas do socialismo foram grandes perdedores da noite eleitoral de Domingo. Mas convém abrir os olhos e notar que os socialistas perceberam imediatamente que a derrota podia ser convertida num caminho de regresso, sem que a Direita que apoia Seguro se tenha apercebido do truque.
É que sendo um homem decente, Seguro é conhecido também pelos seus atributos de vacuidade e molenguice. E um pastelão político é perfeito para ser usado como alibi e instrumento de uma operação de branqueamento e amnistia política da história trágica e fétida da governação socialista, antiga e recente, e da colonização das instituições de poder pela rede tentacular do PS.
O golpe mágico dos socialistas é simples e eficaz: pegam num homem sem cadastro, alavancam o rótulo de “decente” que a Direita ingénua já lhe atribui e usam essa imagem como detergente institucional. Um rosto limpo para lavar uma história suja, rosto esse que será desprezado e triturado pelo partido socialista logo que os eleitores estiverem suficientemente esquecidos das malfeitorias de António Costa.
António José Seguro não precisa de conspirar nem participar activamente nesta marosca. Basta existir, para que a sua endémica passividade e moleza seja o bastante para servir de cenário e manter as aparências éticas do milagre da reabilitação do PS.
O trabalho dos socialistas é largamente facilitado pela Direita míope obcecada em sinalizar a falsa virtude do seu activismo anti-Ventura com pregões imberbes contra o que consideram o obscurantismo, radicalismo e fascismo do Chega. Esse berreiro da Direita fofa é tão histérico quanto parolo, mas serve-lhes de passe social entre os salões do Príncipe Real e da Foz, mas transforma-os, politicamente, em idiotas úteis, quando não simplesmente inúteis..
O plano é cínico e engenhoso: ao declarar Seguro como candidato “de todos os decentes” e antídoto da extrema-direita, o PS não só se lava a si próprio como envolve a direita na lavagem.
O detergente é Seguro. A máquina de lavar é o sistema.
E a única coisa que pode estragar o programa é aquilo que falta a tantos Portugueses: memória.
A minha crónica-vídeo de hoje, aqui:

