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Bye-bye miss American Pie

23 Janeiro, 2026

Os média, redes sociais, blogues (este incluído), conversas de café e a própria convivência com outros humanos nas estradas, centros comerciais e padarias tornaram-se tóxicos, num envenenamento constante de emoção sobre qualquer razão. Não uma emoção edificante, daquelas positivas de pertença a um universo virtualmente infinito de mistério e maravilhas para além da compreensão: uma emoção de desconexão num mundo que afinal não funciona como, através de preceitos imbuídos na nossa psique, quer por formação quer por acumulação de números factores insignificantes, criaram um código para a compreensão do que nos rodeia que já não se aplica, pois apresenta erro de paralaxe perante os estímulos e as consequências cumulativas de “as coisas não baterem certo”.

Habituamo-nos no pós-guerra a separar os “bons” dos “maus” e toda a Europa caiu na ideia de que combater o comunismo era um desígnio do bem, criando um sistema de organização social baseado na ambição pela prosperidade. O preço a pagar foi a entrega de toda a cultura, incluíndo a do sonho pela necessidade humana de articular racionalizações macro sobre “a way of life” ao sistema fictício de valor fiduciário. Já ninguém coloca em questão o que significa “um dólar”. Ou “um euro”. Se o fizesse constataria que significa o que queiramos que signifique, o que quer que acordemos que signifique, algo que fazemos com a nota, ou a moeda, que nos origina satisfação, seja provindo subsistência, seja atribuindo-nos uma necessidade material que não possuiríamos na ausência de desejo. O que tornou “America Great” foram aspiradores. E por “aspiradores” refiro-me a qualquer produto industrial que passamos a necessitar. O que tornou “Europe Great” foram Porsches e Mercedes, medicamentos e preservativos, e plásticos, muitos plásticos. Mas, um belo dia, percebemos que na ânsia de também saírem da miséria, havia locais extraordinariamente longínquos que podiam fornecer aspiradores bem mais baratos, trabalhando 40 horas por dia pela mera hipótese de poderem cheirar, ao fim do mês, um osso de galinha. Maravilha das maravilhas: décadas a enaltecer as virtudes do humanismo laboral ocidental perante o dog-eat-dog asiático. Décadas a aperfeiçoarem tecnologia que os tendencialmente balofos ocidentais compram, para o seu conforto, restando a produção ocidental num acréscimo, um premium por chapar uma marca cheia de pujança bem à vista.

Deixou de se tratar do melhor carro, da melhor grua, do melhor telefone para se transformar no que, em português correcto, só se pode articular como o maior pedaço de trampa que possa ser vendido com a margem mais elevada. Além disso, toda uma economia baseada em éter, nas ditas tecnologias, empresas valoradas em centenas de milhões de fantasias e cujo produto é um quadro para mensagens ou uma máquina de escrever sem papel. Investimento brutal de dinheiro ficcional em papagaios que geram o seu próprio lero-lero ou cujo expoente máximo é a criação de imagens pornográficas para rendimento passivo num dos inúmeros serviços onde alguém pode mostrar as mamas por uma subscrição simples de €9,99. Empresas de proxenetismo virtual aliadas a empresas de geração de conteúdo académico em massa sem qualquer significado, valor, arte ou imaginação. Empresas “verdes” que consistem em mandar o lixo que não queremos queimar para cargueiros chineses que o transportam por patacos já que isso bate regressarem vazios depois de despejarem todas as peças e micro-peças e dezenas de milhões de ecrãs que trouxeram para os ávidos consumidores, tudo para repúdio dos virtuosos ocidentais por poluirem o ambiente com o lixo que nós consumimos. E especulação imobiliária no país com as cidades, vilas e lugarejos mais feios do planeta.

No entanto, bem no fundo, qualquer um saberia que o sistema é insustentável por design, não por falha. Foi-se mantendo até ao limite, até que se percebeu que há formas de subsidiar empresas ocidentais não competitivas num mercado global. Arranja-se uma pandemia, faz-se a maior deslocalização do esbulho ao contribuinte para farmacêuticas. Está pujante “o capitalismo de bairro”, está. É o chamado capitalismo de xerife de Nottingham.

Recentemente, acordamos com o bully a sair do seu revestimento dourado de idealismo e bondade para a declaração explícita de que as regras que foram sendo estabelecidas entre países eram mera retórica para papalvos. Aceitavas-se que assim eram porque se dava a página 3 e todas as mamas que conseguirem consumir, virtualmente, claro,  agora em regime de subscrição e um aspirador novo a cada três meses após a avaria irreparável do anterior. Já instalaste a actualização 342.7.33? Esta tem novos filtros adelgaçantes. Mas afinal não é. Já sabíamos que não era desde o momento em que os EUA sequestraram a vitória soviética sobre os nazis, clamando-a sua, e festejando com duas bombas que formaram lindos cogumelos — foi espectacular — num Japão essencialmente feudal. Foi o dia em que os EUA conquistaram a Europa, que é, efectivamente, uma espécie de Puerto Rico com a vantagem de ser governada por pavões e idiotas e ter património remanescente do tempo em que os idiotas ainda não tinham nascido. União Europeia ou Vichy sob administração norte-americana, tanto faz. Ei, de que me queixo? Antes os amaricanos que os russos, certo?

Agora, o bully decide que não basta possuir efectivamente a Europa. Tem que a humilhar. E nada podemos fazer por isso. Deviam ter-lhe dado o Nobel da Paz e serviçais sexuais para o manter entretido, longe do tabuleiro de Risk. Ao que (não) consta, convinha que tivessem idade para netas. O papão soviético ainda vende bem, o testa-de-ferro da lavagem de dinheiro dos democratas americanos na Europa ainda tem carne para canhão e os idiotas europeus ainda não conseguiram assumir que são meros mediadores de seguros com o dinheiro dos seus improdutivos e envelhecidos contribuintes para “ocidentalizar” um país que nunca nasceu sem ser com a intenção de estabelecer mais território a saque de outra província de um Puerto Rico europeu. Nem estatuto de estado temos.

Porém, cá, na terrinha do azeite, discute-se quem é será o fantoche que governa a junta de freguesia. Uns juram por Seguro, outros por Ventura. Anda também no ar o chavão do “combater o socialismo”, que se não fosse tão cómico nem trágico conseguiria ser. Ventura e seus seguidores são mais estatistas do que qualquer um dos ditos moderados consegue imaginar, o que é obra. A única diferença substancial entre os candidatos é que um deles abre a boca para inventar divisões que não existem, apenas nos delírios de quem vê fantasmas nos outros, nos sotaques, na cor da pele, na forma como se ajoelham em meditação pelo facto de que não têm mais nada que os una além da superstição. E pelo facto de que não gostam de coisas, são uns ranzinzas incomodados com a festa gay a que nunca iriam (essa parte é discutível… como os escândalos da Igreja Católica mostram).

Mas não só: votar Ventura é votar num sebastianismo parolo numa apalermada divisão “esquerda” e “direita” que só existe como propaganda neste não-protectorado, que nem sob ameaça está, porque, na realidade, não tem nem terá qualquer soberania para o ser.

Esta foi a última contribuição para este blogue. Já não há ordem liberal, já não há socialismo, já não há comunismo. Já não há nada, só a esperança vã dos tolos. Já não me consigo rever no delírio nacional de que isto é um país independente, governável ou passível de comentário. Causa-me alguma dor perceber que este nunca seria o meu mundo, porque se o que por aí vai é a realidade então fecho-me na minha própria ficção. Porém, incentivo-vos a deixarem como comentário final um lindo fogo de artifício em forma de cogumelo na defesa acérrima do vosso novo deus, a coligação dos virtuosos Genghis Khans de teclado.

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