Portugal com olhos em bico.
Nos últimos dias, o Japão produziu um dos resultados políticos mais extraordinários do pós-guerra. Sanae Takaichi, primeira-ministra japonesa, venceu eleições antecipadas com uma super maioria de dois terços no parlamento, algo inédito desde 1947.
Takaichi é a primeira mulher a liderar o Japão, mas ao contrário do padrão progressista, ela nunca governou como símbolo identitário, nunca pediu votos por ser mulher, nunca fez da política de género um eixo do poder. No Japão, o facto de ser mulher é um não assunto.
Tal como Thatcher, esta dirigente japonesa prefere a clareza ao consenso cómodo, e decisão à gestão do declínio. É uma líder que força o Japão a sair de décadas da ilusão de que poderia manter prosperidade, segurança e autonomia sem o país assumir custos difíceis.
No plano cultural, a primeira-ministra japonesa é particularmente incómoda para a esquerda global, já que recusa importar a agenda woke, não adere ao feminismo identitário, não transforma o Estado num agente de reeducação moral. Takaichi não faz disto uma guerra cultural ruidosa. Faz orelhas moucas aos panfletos do progressismo de esquerda e segue em frente.
Na imigração, defende regras claras, limites e soberania. É institucionalmente prudente e antes da abertura de portas procura assegurar a coesão social local. Uma posição hoje quase considerada uma heresia na Europa.
Na economia, Takaichi não é um Javier Milei de saias, mas o seu programa está muito mais próximo do liberal-conservadorismo clássico do que do estatismo social-democrata europeu. Combina incentivos fiscais, parcerias público-privadas, atração de capital e know-how estrangeiro, e alinhamento com aliados estratégicos, nomeadamente os Estado Unidos. O programa inclui a redução ou eliminação do imposto sobre consumo em bens essenciais, aumento dos limiares de isenção, créditos fiscais para classes médias e baixas.
Takaichi não enquadra política económica ou industrial em termos ESG, não usa linguagem de emergência climática e dá prioridade à segurança energética, competitividade industrial e autonomia estratégica. Aqui, novamente, o contraste com a Europa é evidente.
Na política externa, a clareza é total: sobre Taiwan e a China, Takaichi disse que se houver conflito, o Japão estará envolvido. Não se trata de uma provocação, mas de realismo, aliás acompanhado por um aumento histórico da despesa em Defesa.
Para a Europa e para Portugal a vitória de Takaichi é muito relevante pois é outro exemplo de que é possível combinar crescimento, soberania, identidade nacional e defesa sem populismo, sem wokismo, e sem resignação.
- A minha crónica-vídeo de ontem, aqui:

