Crónica de tumultos anunciados*
Segundo o Diário de Notícias, “PSP e secretas esperam maiores tumultos desde PREC”. Ao que apurou aquele jornal, “um grupo de comandantes da PSP fez um relatório que conclui que “a agitação social deve crescer e pode atingir proporções nunca vistas nos últimos 30 anos”, em Portugal.
Não deixa de ter a sua ironia que a entidade responsável por este estudo, a PSP, seja exactamente a mesma que até agora conseguiu organizar a única performance de um tumulto digna desse nome: refiro-me naturalmente à alegada tentativa de forçar a entrada no Ministério das Finanças protagonizada por vários agentes daquela força de segurança no passado dia 28 de Setembro. Na verdade, as imagens desse tumulto que passaram nas televisões pareciam mais aquelas simulações com que as polícias nos brindam para mostrar a eficácia das suas técnicas e novos equipamentos e em que uns agentes fazem de polícias e outros de desordeiros do que uma real tentativa de forçar a entrada no ministério, já agora não se percebe para fazer o quê.
Mais irónica é ainda a referência ao PREC. Não sei onde está ou estava o pensamento dos comandantes da PSP para referirem tal assunto, porque precisamente o PREC caracteriza-se pela instrumentalização dos militares (as forças de segurança da época), que se transformaram em milícias partidárias e nessa qualidade andavam pelas ruas, de armas na mão, fazendo barricadas e apoiando os saneamentos e a ocupação de empresas e herdades decididos quase sempre pelo PCP. Por estranho que tal possa parecer às mentes actuais viciadas em caixotes a arder e carros destruídos, tudo isto e muito mais decorreu com muito folclore mas relativa ordem. Na verdade, o povo do PREC foi sobretudo um belo cenário para aquilo que outros decidiam. E por isso o PREC acabou como começou: em Novembro de 1975 um golpe militar mandou os militares para os quartéis, os revolucionários foram à sua vida, muitos deles com uma inegável sensação de alívio, e o povo passou directamente das manifestações para as filas do bacalhau, que o Natal que era já daí a um mês.
Tumultos no verdadeiro sentido do termo, com imagens que ainda hoje impressionam pela violência e por se pressentir nelas uma situação em que tudo pode ficar incontrolável, esses vemo-las no outro lado, naquele que precisamente abominava o PREC e que tocava os sinos a rebate para o combater. É entre os reaccionários que em 1975 assistimos a graves tumultos: nos assaltos às sedes do PCP e do MDP, no ataque às carrinhas que levavam os jornais controlados pelo PCP (e que eram quase todos) encontramos essa violência popular que, ao contrário do que sucedia nas terras do PREC, dificilmente alguém conseguia controlar.
Politicamente em Portugal os tumultos não são de esquerda, porque à esquerda falta-lhe o essencial para que exista um tumulto: falta-lhe povo. E em boa verdade assim tem sido noutros países: aquilo a que se tem chamado “tumultos” nos últimos tempos é pura e simplesmente barbárie e saque. O desfazer da utopia comunista e a falta neste momento de um real projecto socialista democrático para as democracias (para lá das idiossincrasias dos líderes alguém distingue um governo socialista de um social-democrata em Portugal ou Espanha?) leva a que a esquerda tenha vindo a integrar e a tratar como manifestação popular actos de absoluto vandalismo. Foi assim em Paris em 2008 voltou a ser assim em Londres em 2011: gangs de ociosos que destroem, roubam e matam naturalmente os mais fracos, porque só os mais fracos não conseguem deixar de viver naqueles sítios, passaram a ser postos pela esquerda ao mesmo nível das pretéritas manifestações de desempregados.
Em Portugal sempre que uma festa de aniversário, baile ou casamento termina aos tiros num desses bairros que os jornalistas dizem problemáticos, não falta logo quem venha falar de situações de pobreza.
Mas depois do que se viu em Londres o risco desta aposta na exaltação do tumulto é politicamente elevado, pois tornou-se demasiado óbvio que se está perante violência gratuita e não face a uma contestação. E em épocas de grande crise o risco ainda é maior, porque em cada vidro partido o contribuinte vê imediatamente mais despesa.
A isto junta-se que a extrema-esquerda portuguesa não é arruaceira, pelo menos quando comparada com a da vizinha Espanha. O PCP, que, ao contrário dos seus congéneres por esse mundo fora, chegou vivo a este ano de 2011, está aqui para manter o Estado e dele institucionalmente tirar o maior proveito. Manifestações sim, mas desde que obedeçam aos superiores interesses do partido e este quer ordem ou uma desordem controlada por si.
Obviamente os olhos de Louçã brilham sempre que se refere à rua, mas os eleitores do BE quase já não enchem uma rua, mesmo que arrumem o Trotski e se juntem com aquelas almas que levaram não sei quantos dias no Rossio a redigir um manifesto e a cozer grão-de-bico. Mas nada disto chega para fazer um tumulto ou pelo menos o tumulto que dava jeito.
Para haver tumultos é preciso mais. Era preciso o PS. É certo que naquele partido há quem deseje que António José Seguro estabeleça certas afinidades esquerdistas, numa reprodução da cooperação estratégica das esquerdas na rua que tanto sucesso teve aquando do buzinão no Governo de Cavaco Silva. É esta a táctica que está a ser seguida em Espanha pelo candidado do PSOE, Rubalcaba, que, perdidos pelos socialistas os votos do centro, mostra uma tolerância infinita para com a violência dos indignados, deixando assim ao PP, que tudo indica irá formar o próximo governo espanhol, uma rua em polvorosa. Mas a imagem de Sócrates e Teixeira dos Santos a pedirem ajuda externa ainda é demasiado próxima para que o PS possa contestar na rua o que assinou na secretaria.
E assim à falta de tumultos propriamente ditos vamos vivendo na crónica anunciada do tumulto que há-de ser: era o tumulto de um novo buzinão na ponte, era o tumulto dos protestos contra o aumento do preço dos transportes públicos, era o tumulto da manifestação dos professores – a propósito o Ministério da Educação ainda está ocupado? -, agora estamos na iminência de um novo PREC.
Não duvido que possam surgir tumultos, mas dificilmente serão aqueles que a PSP profetiza e pelos quais alguma esquerda anseia. Certamente que se tirarão alguns capuzes das gavetas para fazer de conta que também somos gregos, logicamente que vai haver muita gente sentada a dizer que o Rossio é a Praça Tahir (longe vá o agouro pelo menos para as mulheres!) ou a vestir-se de zombie como os meninos de Wall Street, mas, se eu estivesse no lugar desses comandantes da PSP, que de tanto investigar tumultos chegaram ao PREC, mandaria alguém ao Funchal, pois ali sim existe aquele qb que de um momento para o outro pode provar, mais uma vez, que em Portugal o tumulto nunca acontece onde se espera e muito menos de quem se espera.
*PÚBLICO

Horas antes de alguns jogos de futebol, é a própria PSP quem se encarrega de divulgar, aos-sete-ventos, que vai ser um “jogo de alto risco”, e enumerar os dispositivos repressivos que tem em preparação – o que, evidentemente, é ‘música celestial’ para os ouvidos dos arruaceiros do costume, que apenas anseiam por um bom confronto.
O resto do ‘filme’, de tantas vezes que o vimos, é por demais conhecido…
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Claro que só mentes maldosas podem pensar que a PSP faz isso para se mostrar necessária – especialmente nos casos em que o serviço é pago.
De qualquer forma, gostaríamos de ver idêntica genica no dia-a-dia, quanto mais não fosse no combate à pequena criminalidade. É que a pergunta «Onde pára a polícia?!» é feita vezes de mais…
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Agora há que acabar com as avenças aos escritórios de advogados e às sociedades de solicitadores na Justiça e nos institutos de interesse público e comparticipados ou apoiados pelo Estado, dando-se formação adequada aos funcionários da mobilidade e partilhando-se os juristas existentes nos vários organismos do Estado e nos institutos públicos ou “semi-públicos”. http://psicanalises.blogspot.com/
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Essa dos tumultos é uma nova invenção posta a circular pelo Ângelo Correia, o tal da inventona dos pregos de zinco…
Em todo o caso, espera-se assaltos e destruições às sedes do PSD!
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estes nossos policias ” a garantir subsidios disto e daquilo ” devem ter tido formação de manifs e cargas policiais com aqueles gregos farsantes … que vão enganando a Europa e sacam tranches por não fazer coisa nenhuma … só boas palavras
quem inventou o teatro quem foi ?
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caro Medina Carreira
é como com a bombeirada e os incêndios de verão … tanta parafrenália , sirene , meios aereos e tal … somos indispensáveis hein !!!!
vai um subsidio do MAI , da Camara ? , uns carros para a Protecção Civil ? umas fardas giras com boina para impressionar as camponesas ?
em casa de cegos quem tem …. é rei
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Todos tentam levar a água ao seu moinho. É o que se vê na PSP.
O tempo do Prec está mal contado.
Os tempos são bem outros – em minutos, os desordeiros são convocados aos milhares.
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César dizia “Preparemo-nos e marchai”.
Quando se foge desta simples regra, ou seja quando um militar ou polícia abre a boca para falar de política fardado, sai sempre asneira.
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As forças de segurança pública, neste oaraíso terreal á beira – mar plantado , foram substituídas por meros funcionários públicos fardados – e sindicalizados.
Poucos povos devem sofer do mesmo instinto suicidário…
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Creio que Gabriel Silva não esqueceu – e até gosta… – o regime de censura.
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leninha guarda este post bem guardado…, daqui a uns meses falamos.
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