Saltar para o conteúdo

Revisionismos

11 Outubro, 2011

Pedro Bacelar de Vasconcelos, no JN, faz duas lipoaspirações na  história do século XX:

.

«Infelizmente, não somos cidadãos de uma “República centenária”. Somando os anos da segunda com os da primeira, dará pouco mais de meio século de República dividida por 48 anos da mais longa e anacrónica ditadura europeia do século XX».

.

Estou em crer que a mais «longa e anacrónica ditadura europeia do século XX» foi a que vigorou em país bem conhecido entre 1917 e 1991, num total de 74 anos. Mas posso estar enganado e Pedro Bacelar de Vasconcelos não considerar tal regime como ditadura, ou o país como não-europeu….

.

É  que transformar factos em opiniões e daí partir para a anunciação de novos factos, dá sempre asneira.  Por vir de um professor de direito, fica difícil de entender a oblituração do classificativo de república – a segunda –  ao regime político que entre nós ficou conhecido como Estado Novo. A menos que a classificação seja feita por critérios pessoais – legítimos, mas sem qualquer validade face a terceiros – , é pacífico que a única forma de contabilizar as repúblicas  será pelo número de constituições. Em caso contrário, a classificação de república pelo seu «ideário», pela sua «prática», para além de obviamente não ser critério algum, levaria a outras questões: uma monarquia também não o seria, se o monarca atraiçoasse o ideal monárquico ou o seu governo violasse tais principios. A verdade é mais simples: monarquia e república são formas de estrutura política da chefia de um estado. A sua prática, ou a forma de governo  é que pode ter variações, como sejam monarquias absolutas, democráticas, federais, imperais, etc. ou repúblicas ditatoriais, democráticas, coorporativas, etc entre outros classificativos.

.

E, até porque PBV não é único que faz tal revisionismo,  porque se questiona sequer que o regime politico formalmente inaugurado em 1933 com a adopção de uma constituição seja uma república? Porque em Portugal existe a ideia política – vigente desde o início do regime republicano em 1910 –  de que quem não partilha de certos valores comuns a uma minoria que liderou precisamente a 1ª república, não seria na verdade republicano. Muitas das convulsões, revoluções, perseguições, assassinatos e ditaduras do pequeno período entre 1910 e 1926 tiveram, sem excepção, essa justificação de que «havia desvios ao ideário republicano» ou de que quem dirigia ou queria dirigir os destino do governo não eram «verdadeiros republicanos». Até o golpe de 28 de Maio de 1926 teve essa justificação. A matriz totalitária nunca se afastou da 1ª república. Nem da 2ª.

25 comentários leave one →
  1. trill permalink
    11 Outubro, 2011 13:21

    “Estou em crer que a mais «longa e anacrónica ditadura europeia do século XX» foi a que vigorou em país bem conhecido entre 1917 e 1991, num total de 74 anos. Mas posso estar enganado e Pedro Bacelar de Vasconcelos não considerar tal regime como ditadura, ou o país como não-europeu….”

    Uma coisa é uma ditadura assumida como tal, outra é um estado de coisas que na prática funciona como uma ditadura. Uma coisa é o país estar geograficamente na Europa, outra partilhar do “ser” europeu”, da “grande história” europeia, da “grande cultura” europeia.

    De qq das maneiras a análise de Max Weber explicou – e continua a explicar – muitas coisas. psicanalises.blogspot

    Gostar

  2. trill permalink
    11 Outubro, 2011 13:46

    basicamente está tudo aqui:

    “A matriz totalitária nunca se afastou da 1ª república. Nem da 2ª.”

    O problema da história que se estuda no ensino básico e secundário em pt é um ensino enviesado que não leva à compreensão das verdadeiras grandes tendências que se manifestaram no contexto histórico mundial. Desde há muito que a história de pt é uma história marginal, regional, periférica, que deveria ser estudada no contexto ibérico. Dizer q a ditadura do salazar era ou não “republicanismo” é uma minudência que não vai interessar ninguém daqui a 50 anos, mas, que se saiba não era uma monarquia, assim como em espanha, onde de resto o rei teve de se exilar em portugal. Nesse caso o Franco que até obrigou o rei ao exílio tb não é republicano?

    Gostar

  3. trill permalink
    11 Outubro, 2011 14:02

    no URSS sob a capa da “democracia de massas” havia uma ditadura brutal, mas o facto da Rússia não estar na Ue não significa que o seu legado cultural não seja europeu, mais: a cultura russa é constitui uma parte nuclear da cultura europeia, pense-se em Tchaikovsky, Chostokovicth, Prokofief, (Rachmaninov, ainda que n tenha a importância histórica e estilistica dos anteriores), Stravinsky (sem o qual a música europeia não teria “evoluído! como evoluiu) Andrei Tarkovsky, nos escritores, e na escola de piano russa sem a qual a Europa não teria pianistas de grande génio e dimensão. A europa podia dispensar portugal e a cultura portuguesa mas não pode fazer o mesmo com a russa, que faz parte do “núcleo duro” da “grade cultura europeia”. Definitivamente poder-se-ia riscar portugal e tudo o que é português da história da cultura (excepto os descobrimentos, claro, mas isso não parece nem nos textos dos concertos nem nos das exposições de arte…), mas jamais se poderia fazer o mesmo com as culturas russa, alemã e francesa, que constituem o “núcleo duro” da “cultura europeia”.

    Por isso quando se fala de “europa” tem de se explicar do que é que se está a falar.

    Gostar

  4. A. C. da Silveira permalink
    11 Outubro, 2011 14:06

    É sabido que a seriedade intelectual não é apanagio da esquerda jacobina que de uma maneira geral frequenta o partido socialista. O que se passou em Portugal entre 1910 e 1926, que envergonha qualquer portugues digno desse nome, é pelos vistos motivo de orgulho para os socialistas, que costumam encher a boca com a “ética républicana”. Afonso Costa e os seus “compagnons de route”, ficam no caixote do lixo da Historia de Portugal, bem como muitos socialistas que descendem directamente deles, ou neles se inspiraram para fazer politica. E nem aquela caricatura de documentario que tem passado na RTP2 nos ultimos dias vai conseguir branquear os nefastos anos 1910-1926.

    Gostar

  5. JPT permalink
    11 Outubro, 2011 14:15

    Franco não era republicano, pois acabou com a república (e, por sinal, mandou restaurar a monarquia). Era um “caudilho” num regime não constitucional. O Estado Novo era uma república constitucional, cuja organização política era baseada em corporações e não em partidos. Na prática, os regimes até se podiam equivaler (dado o poder “de facto” ser exercido, de modo absoluto, pelos seus líderes carismáticos), mas, na teoria, têm tanto a ver um com o outro, como o cu e as calças. E, se devemos qualificar os regime pela sua prática e não pelo modo com se definem, então a “Primeira República”, que na prática era uma ditadura de partido único, com sufrágio não universal, fraudulento, limitações “legais” às liberdades de imprensa e de associação, e violência política organizada, também não era República nenhuma.

    Gostar

  6. 11 Outubro, 2011 14:18

    Um pobre diabo, esse Bacelar de Vasconcelos… Ignorante e atrevido, nem sequer se dá conta de que a sua amada 1ª República foi um dos períodos mais tristes da História de Portugal.
    É bem um dos herdeiros dos assassinos da camioneta fantasma… Ou dos energúmenos que, na I Guerra Mundial, mandaram para as trincheiras da morte milhares de camponeses sem qualquer preparação militar.
    Um verdadeiro fdp!

    Gostar

  7. trill permalink
    11 Outubro, 2011 14:33

    lamento a minha ignorância da história de espanha e sempre pensei que o actual rei viveu no estoril para escapar ao regime franquista.

    Gostar

  8. João Davim permalink
    11 Outubro, 2011 14:51

    A mais longa ditadura na Europa é o Vaticano desde 1929 (considerando os acordos de Latrão como início) até hoje e ainda a contar :p

    Gostar

  9. baudolino permalink
    11 Outubro, 2011 15:01

    isso até os meus alunos de 12º ano sabem!

    Gostar

  10. jose.gcmonteiro permalink
    11 Outubro, 2011 15:15

    Por favor, não façam História de estórias!

    Gostar

  11. votoembranco permalink
    11 Outubro, 2011 15:31

    Este Vasconcelos não era o mesmo que defendia traficantes de droga quando foi governador civil de Braga?

    Gostar

  12. neototo permalink
    11 Outubro, 2011 15:39

    “lamento a minha ignorância da história de espanha e sempre pensei que o actual rei viveu no estoril para escapar ao regime franquista”.

    Um poco sim que desconhece-a Sr. Trill dado que ainda que o actual rei de Espanha andava por Estoril era tao tao pequenino que até pode ser estudasse portugués por lá, e chege a dominar essa lingoa mais quem verdadeiramente andava ” fuxido” era o seu pai (do Juan Carlos) D. Juan de Borbon que nunca chegou a reinar porque o seu reinado ia a ser de tudos modos incompativel com o outro monarca daquele momento:. D. Francisco Franco.

    Paradoxass da vida D. Juan tivo que renunciar e abdicar as suas pretensoes reais para que o seu filho D. Juan Carlos pudesse ser (só depois que o terceiro Monarca D. Francisco ) o queria assim…E ainda bem que para chegar a essa decissao ainda tivo que tirar fora de umas certas duvidas e de pros e contras e de patatin e patatán se aquele candidato real sería o mais idóneo aos seus propositados designios absolutistas…

    E que últimamente pareceria que palavra revisionismo só aparece ligada a ditadura soviética de outra época . Cá. Errado totalmente…

    Gostar

  13. Rambo permalink
    11 Outubro, 2011 16:01

    Não compreendo a reticência do autor em relação ao contributo, valioso e para recordar futuramente, do jornalista.

    A URSS não era uma ditadura, era uma democracia restrita, nada mais. Os tanques, os serviços secretos, as prisões na Sibéria e as Fomes propositadas são meras maquinações do Ocidente, mais nada.

    Gostar

  14. Arlindo da Costa permalink
    11 Outubro, 2011 16:10

    Enquanto houver Bourbons em Espanha, Portugal tem que pôr olho em Castela…
    Acabar com aquela monarquia anquilosada e cheché devia ser desígnio de qualquer espanhol com dois dedos de testa!

    Gostar

  15. xico permalink
    11 Outubro, 2011 16:22

    Arlindo Costa
    Se a monarquia espanhola é anquilosada e cheché, a nossa república é o quê? Moderna, desempoeirada e éticamente irrepreensível? Porque será que as personagens do Eça ainda são tão actuais?
    Nós somos melhores que os espanhóis que não têm dois dedos de testa. Não precisamos dos Bourbons para nada para criarmos a classe política mais anquilosada e cheché. Fizemo-lo sózinhos. Sem Bourbons e sem Braganças! Que felizes nos devemos considerar. Oh pra mim tão contente…

    Gostar

  16. JPT permalink
    11 Outubro, 2011 16:23

    Excelente comentário – apesar de ser em Leonês ou coisa parecida 🙂 Afonso XIII (avô de Juan Carlos) foi exilado pela República, em 1931, não por Franco. Mas, como bem se diz acima, só pode haver um “rei”, pelo que Franco, apesar de monárquico – o único regime adequado à sua visão tradicionalista, unitária e católica de Espanha – só quis lá “outro rei” depois dele morrer.

    Gostar

  17. 11 Outubro, 2011 17:46

    Caro Gabriel,
    Tive a honra e o privilégio de ser aluno do Prof. Pedro Bacelar Vasconcelos. Não sendo socialista como ele, sempre admirei a sua coerência enquanto tal e sempre o admirarei como um homem de coragem (especialmente no célebre assunto dos ciganos de Braga). Posso-lhe assegurar que aquilo que ele defendia nas aulas, praticava de facto. Coerente sempre e portador de uma educação ainda maior!
    Contudo, a análise que ele faz ao DN não me surpreende…devo confessar. Aliás, o Dr. (Mário) Soares faz a mesma. Em parte mentiria se dissesse que não os entendo, pois a “base estruturante” é a mesma quer para a I, quer para a III. Materialmente são (muitíssimo) similares. Porém, e em suma, a realidade é que formalmente são três como muito bem disse e defendeu o meu caro Gabriel. Concordo com o seu artigo.
    Bem-haja.

    Gostar

  18. A. C. da Silveira permalink
    11 Outubro, 2011 18:15

    Franco foi o que na nossa Monarquia seria um regente, e não quis que o Conde de Barcelona, Pai do actual Rei D João Carlos, fosse Rei de Espanha por duas razões: porque ele defendia uma Monarquia Constitucional, com democracia politica, e porque não era o primogenito de Afonso XIII. D João de Bourbon era apenas um dos filhos mais novos de Afonso XIII. O seu herdeiro legitimo era D. Jaime Duque de Segovia, que não podia ser Rei porque era surdo-mudo, e Pai do Duque de Cadiz que apesar de ser casado com uma neta de Franco, este não apreciava porque achava que ele era um playboy. João Carlos era perfeito para o lugar e Franco quiz educa-lo à sua maneira. Apesar da simpatia e aceitação geral de João Carlos, não há duvidas que o herdeiro legitimo do trono de Afonso XIII era o seu primo direito Afonso de Bourbon Duque de Cadiz, que depois de ver o seu filho mais velho morrer num tragico acidente de automovel , teve ele proprio uma morte tragica quando fazia sky numa pista fechada no Colorado.

    Gostar

  19. João Santos permalink
    11 Outubro, 2011 21:42

    Portugal acoitou, com geral mansitude, muito aplauso e rara oposição, a mais longa ditadura de todo o ocidente europeu. Ponto e parágrado.
    Sobre a monarquia espanhola, limita-se ao estado, que cimenta e prestigia, e dá colorido às revistas do coração, mas não retorceu os cérebros. Os espanhóis em regra tratam-se todos por tu, lidam uns com os outros de forma muito mais igual do que os cidadãos desta república centenária apenas no calendário.
    Nós por cá chafurdamos num deserto de respeito mútuo, mas a abarrotar de salamaleques, em genuflexão permanente às excelência, aos senhores, aos senhores doutores, aos senhores professores, aos senhores professores doutores. Cívicamente não estamos erguidos. A nossa república curva-se, venera, bajula. E arrasta a barriga no chão.

    Gostar

  20. João Santos permalink
    11 Outubro, 2011 21:44

    E chegamos, endividados, incompetentes, exibicionistas e gastadores compulsivos a este ponto mais do que lamentável: já andamos a arastar o rabo no chão.

    Gostar

  21. JCA permalink
    12 Outubro, 2011 06:51

    .
    E a 1ª quem acabou com ela não foram os Partidos nem os Movimentos socio-filosofos nem os religiosas nem os Politicos. Foram os Padeiros, a Economia, a industria da panificação. Olarilas.
    .
    Na horada verdade é assim que a História Universal ensina que canta. Depois para apanharem o barco os Pos Movimentos socio-filosofos nem os religiosas nem os Politicos aplicam a Ditadura para reganharem o Poder.
    .
    Pelo menos tem sido mais ou menos assim por esses seculos fora. com ou sem sangue azul, com deistas ou ateistas etc e tal
    .
    E no Tempo de hoje como é que vai ser ????? Puxem pelas meninges.
    .

    Gostar

  22. J.J.Pereira permalink
    12 Outubro, 2011 13:43

    Este tipo não é o mesmo que protegeu , “in illo tempore”, os ciganos da droga ( Barcelos ou Braga , que a memória já não é grande coisa…) ?

    Gostar

  23. 12 Outubro, 2011 16:56

    Viva o Rei dos Frangos! e dos Móveis! Abaixo a República que permite ao cidadão escolher o Chefe de Estado (ainda que este escolha um Cavaco)!
    Viva a Republicazinha amordaçada, amestrada e bem controlada, onde o Chefe de Estado era livremente escolhido pela canalha da União Nacional!
    Cuidado com os vermelhos bolcheviques, as crianças comidas e as carnificinas entre 10 mil e 10 milhões de vítimas!
    Viva a seriedade intelectual da burguesia instalada que não faz revisão da história e que não branqueia os crimes que cometeu e comete neste País, abaixo o revisionismo que põem em causa o bem pensar do pensamento único!

    Gostar

  24. Anonimo permalink
    13 Outubro, 2011 17:35

    .
    Mas quem é este Vasconcelos ou po obra de quem tem acesso ao trombone da Comunicação Social ? Que obra real tem a não ser só teorias e palpites ? está ao novel duma cavaqueira num banco de jardim e a Comunicação Social faz disto uma NOTICIA. É ridiculo num País que precisa de gente operacional, e não pessoal das teorias-textos-decretos, para se recolocar de NOVO e com inovação no Mundo. Porque já siu de lá. Nem nunca esteve em nenhum pelotão da frete. eram sonhos e fantasias.
    .
    Com noticias destas e gajos destas estirpes ‘elitistas de trazer por casa’ Portugal continua em funeral.
    .

    Gostar

  25. Anonimo permalink
    13 Outubro, 2011 17:42

    .
    O moneto do extase é quando vão à secretaria ao fim do mês receber o vencimento de ouro pago pelos otários daEconomia que criam a riqueza que há mas são os fi*h*s da p*t*.
    .
    Chegou o momento de ir entregar ao Senhor Ministro da Finanças (os verdadeiros 1º Ministros de Portugal, herança salazarista) simbolicamente as chaves da Empresas num contentor n o terreiro de Paço e entrar em greve. Se o governo entende que as medidas que es~tá a tomar sustentam a Economia, ele que fique com as Empresas e que faça a sua gerência porque os empregadores são analfabetos e impfreparados. Faça o Estado que tem tanta teoria, conselho, opinão sentada no trono do Rei.
    .

    Gostar

Indigne-se aqui.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: