quem anda a enganar quem?
Sobre a possibilidade da aplicação de uma taxa aos depósitos superiores a 100 mil euros em bancos portugueses, com a finalidade de os resgatar de situações de falência, como foi feito em Chipre, diz o Governador do Banco de Portugal: “Situações do género não são transponíveis para o nosso país”. Mas, respondendo a uma interpelação do deputado Nuno Melo, os serviços da Comissão Europeia esclareceram que: “Para minimizar o impacto sobre os contribuintes, o instrumento de resgate interno previsto nesse enquadramento permitirá a um banco ser recapitalizado através da anulação ou diluição das participações acionistas e da redução ou conversão em ações dos créditos dos credores”. Num cenário destes, como poderá a banca portuguesa ser confiável e atrair depositantes? E como espera o governo português (e, presume-se, as autoridades comunitárias) que, neste contexto, os bancos portugueses possam retomar o crédito às empresas e à economia? E como pode o Governador do Banco de Portugal garantir-nos o contrário do que nos diz a Comissão Europeia? Por outras palavras, quem anda a enganar quem?
ADENDA: A gravidade desta situação exigiria uma imediata interpelação parlamentar ao governo e ao governador do Banco de Portugal. Os portugueses não podem ficar na contingência de desconhecerem o que poderá suceder às suas poupanças e ao seu património se os confiarem aos bancos portugueses, nem estes devem sujeitar-se a esta situação de suspeição lançada pelas autoridades da União Europeia, se a mesma não tiver – como garante o governador do Banco de Portugal – qualquer fundo de verdade. O Partido Socialista, sempre tão lesto em pedir audições parlamentares a propósito de assuntos de treta, parece não se interessar pelo que possa acontecer ao dinheiro e à propriedade dos portugueses. É bom sabê-lo.

Mas como é que o Rui A preferiria que fosse? Que o banco fosse deixado falir, lixando todos os depositantes nele? Ou que fosse salvo como dinheiro dos contribuintes – o que seria colocar todo o povo a pagar para aqueles que, ao fim e ao cabo, são os mais ricos?
É evidente que, estando um banco em dificuldades, a solução proposta pela Comissão Europeia é a menos má de todas. Os depositantes mais ricos não perdem o seu capital na totalidade, mas ficam com ele transformado em ações do banco – que, a longo prazo, podem voltar a valorizar-se.
De resto, esta solução que a Comissão Europeia propõe não se aplicará apenas aos bancos portugueses: aplicar-se-á a bancos de todos os países. Pelo que, não é por isto que os bancos portugueses ficarão em pior situação do que os restantes…
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Estou totalmente de acordo com o post. E tenho gostado das intervenções do Nuno Melo, que não é a primeira vez que mostra tê-los no sítio.
Agora digam os tipos de esquerda só sabem criticar. 😛
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“Mas como é que o Rui A preferiria que fosse?”
Eu não tenho preferência por coisa nenhuma, caro Balio. A única coisa que quero saber é se os bancos portugueses são fiáveis – como garante o governador do Banco de Portugal – ou não são fiáveis – como parece estar a Comissão Europeia (foi esta a interpretação do Nuno Melo) – para que as pessoas possam ter e manter lá os seus depósitos. O título do post é, se reparar, “quem anda a enganar quem” e não “como devem os bancos portugueses falidos recapitalizarem-se”.
Por outro lado, aproveito para lhe lembrar que há um fundo de garantia que assegura os depósitos – julgo – precisamente até aos 100 mil euros, pelo que a única coisa que essa eventual medida permitirá não será evitar que todos os depositantes “se lixem”, utilizando as suas palavras, mas manter de portas abertas instituições bancárias à custa do dinheiro de quem, de boa fé, lá o depositou. O que é mesmo conveniente é que não venhamos a ser “lixados” pelo facto das autoridades portuguesas nos estarem a garantir o que parece não poderem fazer. De todo o modo, parece da mais elementar conveniência um esclarecimento das autoridades competentes.
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Você não é de esquerda, caro Fincapé. O que acontece é que ainda não o descobriu…
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Teve piada. No aspeto social, está-me nos genes, não há nada a fazer. Quanto a justiça, educação e alguns valores da moda tenho reservas nuns casos e contradições noutros. Por isso, não me parece possível estabelecer a tal linha contínua como divisória. Anarco-pessimista de esquerda. Já tinha dito isto? 🙂
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A alternativa liberal para os bancos com problemas parece ser a falência e a perda total dos depósitos.
Parece que há países onde isso já aconteceu algumas vezes!
De qualquer maneira penso ser do mais elementar bom-senso que o Governo se preocupe com o dinheiro dos portugueses, senão corre o risco de não ter onde sacar.
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Os bancos não estão nos mercados como um vendedor de alfaces. São supervisionados, têm de cumprir regras rigorosas, existem fundos de garantia de depósitos e outras regras, como reservas obrigatórias. Se as atuais regras não chegarem, definam outras, de forma a que cada depositante saiba concretamente o nível de confiança. O que os políticos não podem fazer é apelar à poupança e depois “irem buscar” esse património. Se o dinheiro for gasto num carro de alto valor vão-lhe tirar uma ou duas rodas?
Curiosamente, Nuno Melo deu ontem exemplos deste género. Mas já quando começou a crise em Chipre comentei várias vezes nestes termos.
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O Balio tem muita razão e o Nuno Melo, assim como o Rui A., estão a empolar um problema que, a existir, não é assim tão grave, nem tem outra forma justa de ser resolvido.
Digo isto, não só por que o Governador do BdP disse o que disse – pois não me esqueço que o Dr. Constâncio também disse que tinham acabado os problemas com as dívidas soberanas -, mas por que a questão aqui levantada vale para todos os países e para todos os regimes – não esquecer que a União de Bancos Suíços, não há muito tempo, também passou por dificuldades.
O que estaria errado é que, no caso de um Banco falir, fossem todos os portugueses obrigados a cobrir o prejuízo, como, desgraçadamente, está a aconteceu no BPN,
Para mim, é bom que se saiba que os depositantes dos Bancos portugueses também correm alguns riscos, agora poucos, quero crer, para desconfiarem das entidades que lhes prometem juros elevados, muito acima da concorrência, como aconteceu com o BPP e como dizem que está a acontecer com financeiras de outros países a operarem em Portugal, directa ou indirectamente.
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Ó Rui A., então o colega Miranda não lhe explicou que tal opção é perfeitamente natural e justificada?!…
Entendam-se…
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Aquando do caso de Chipre o Silva Lopes disse que isso nunca aconteceria em Portugal pois o nosso sistema bancário é muito diferente do deles.
Agora já diz que é possível embora não para já, segundo ele daqui por três ou quatro anos já nada garante.
Espanta-me a maneira como estes economistas dizem o que lhes vai à cabeça com ar sério.
Primeiro muda de opinião em meia dúzia de dias, depois atira para o ar “três a quatro anos” como o Zandinga falava da queda da ponte.
O gajo não sabe se com a idade que tem vai estar vivo daqui a quatro anos como é que pode adivinhar a economia daqui a quatro meses?
Em segundo lugar os Constâncios da nossa e deles praça propõem converter em acções depósitos de bancos falidos. Obrigado.
Por último gostei de ver o Ulrich a aplaudir o confisco dos depósitos.
Para o presidente do único grande banco português com lucros acho muito bem que ele aconselhe os depositantes a mudarem para o seu banco.
Quem vos avisa…
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Já agora admiro o silêncio de todos os partidos dos portugueses quanto a este assunto.
Só por curiosidade é bom saber que no Chipre quem se lixou foi o Zé Pagode (os russos levantaram o dinheiro em bancos derivados em Londres)
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Meus indignados e *caros* amigos (com mais de centena de milhares de € em depósito) . . . NÃO SABEIS uma coisa elementaríssima?
Os Bancos não são depósitos de *massa* . . . eles, antes de mais, fazem contratos
com os depositantes (seria mais exacto designá-los por sócios . . .).
O mal-chamado de *Depositante* ARRISCA. E quem arrisca nem sempre PETISCA.
E não pode ser de outra maneira. Negócio do Banco juros de X , empréstimos de X+Y.
(e se a quem empresta não cumpre, o Banco perde, se cumpre ganho-bruto =Y.
ISTO É TÃO SIMPLES, PÁ . . . Se o Banco vai à falência . . . AGUENTEM!
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Finalmente uma medida com a qual os marcianos concordam…..
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Isto de ter capital e’ de ricos e eles que paguem a crise!!!!
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Quando, há muitos anos, fui fazer o serviço militar obrigatório, o “pré” era pago por transferência bancária, num banco que não pude escolher. Depois de sair, deixar estar essa conta e, durante estes anos todos, tenho tido, também, conta noutro.
De vez em quando, pensava em fechar uma das contas, deixando apenas activa a outra. Mas agora deixo estar as duas, que estão muito bem.
E mais: embora não esteja em causa nada que se pareça com os 100 mil euros, passei a manter as 2 contas com, aproximadamente, o mesmo dinheiro.
NOTA: a geração dos meus pais (nascida nos primeiros anos do século passado e quase toda do Porto) tinha uma verdadeira fobia dos bancos, e tinha razão para isso: em 1919, durante a chamada “Monarquia do Norte”, o governo recolheu TODAS as notas em circulação, apropriou-se de 90% delas, e nas que devolveu imprimiu um texto que fez com que, acabada a intentona, o dinheiro perdesse o valor.
Pois bem. Se isso era assim com o dinheiro que se tinha no bolso, imagine-se o que sucedia com o que estava nos bancos…
Muito mais tarde, a seguir ao 11 de Março de 75, os bancos também bloquearam o acesso às contas bancária (TODAS), não se podendo levantar, por dia, mais do que alguns “contos” (já não me lembro quantos, mas lembro-me que eram poucos).
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