A ortografia e a ordem espontânea
A propósito do texto de Desidério Murcho citado no post anterior, João Pinto e Castro escreve o seguinte:
Desidério, que manifestamente nunca se debruçou a sério sobre o tema, alvitra que a melhor maneira de conseguir a uniformidade ortográfica – à qual, presumo, reconhecerá alguma utilidade – é deixar que ela se inspire nos “dicionários, gramáticas, enciclopédias e outras obras de consulta, além da escrita académica em geral e também da popular, como é o caso dos jornais.”
Não fica claro que espécie de mecanismo de selecção impedirá que um dicionário opte por “elefante” e outro por “ilfant”, dado que se trata de uma mera convenção, mas a questão central nem é essa.
Esta passagem mostra que João Pinto e Castro não percebe a emergência de convenções numa ordem espontânea. Acredita que uma convenção única só é possível num regime de comando e controlo. Acredita que, se não fossem as autoridades públicas, os autores de dicionários desatariam cada um a escrever as palavras à sua maneira. E no entanto, no mundo anglo-saxónico, onde não existe nenhuma estrutura de comando e controlo a dirigir a ortografia, os autores de dicionários escrevem as palavras da mesma forma. Um verdadeiro mistério.

Sinceramente, li o post citado e não gostei do tom (achei pretencioso e deselegante – sendo que o comentado portou-se como um Senhor, agradeceu o comentário e disse que lhe responderia no seu próprio blogue).
Não deixo, porém, de compreender a perspectiva do João Pinto e Castro quando diz que, a haver vantagens na uniformização, o acordo deve ser conduzido pela academia e sancionado pelos Estados partes – só assim é que se garante o objectivo inicial.
Agora, parece-me que a questão que é realmente importante e que não vejo ninguém discutir não é (para mim, entenda-se) se o Estado intervém ou deixa de intervir, mas sim: quais são as vantagens do acordo ortográfico. De outro modo, o que é que a uniformização trás de bom, que suplante o valor da identidade pela língua?
Eu, confesso, ainda não tenho opinião formada (presisamente, porque ainda não consegui ler ninguém que se pronunciasse sobre esta questão); não sou, visceralmente, contra o acordo; mas não estou disposta a aceitá-lo antes de perceber a sua utilidade.
Alguém me ajuda?
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Pelo andar da carruagem, daqui a uns anos, vamos ter um acordo ortográfico entre todos os paises que utilizam a net, se não forem todos.
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O que será mais fácil: uma língua escrita que segue a língua falada ou uma língua escrita que parece ser outra língua? Nao e’ coincidencia que a lingua usada como exemplo pelos anti-acordo ortografico seja o ingles. O ingles, como o portugues, apresenta a desvinculaçao entre o escrito e o falado. Mas qual é o problema? É mais dificil escrever bem, pois é necessario ler muito, é preciso ver a palavra escrita para escrever. Noutras linguas, como o alemao e o espanhol, acompanhadas para que sigam a fala, basta ouvir para escrever.
O falado evolui mais depressa que o escrito e pode ate’ passar a ser outro mundo. Deixamos que a disjuncao aumente ou de vez em quando corrige-se? E’ uma questao de nos perguntarmos se a lingua vive em funcao de nos ou nos da lingua.
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He he. Há gente que não concebe um mundo sem uma regulação omnipresente. Devem pensar que os símbolos usados por todos os matemáticos do mundo (como +, -, %, o símbolo do integral, etc) são impostos por alguma resolução da ONU… Aahaha! E já agora os sinais de música, etc. etc.
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Ó minha cara Sofia Ventura, que lhe interessa o novo acordo ortográfico se nem o actual respeita?
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Acredito em mecanismos de auto-regulação, sim senhor. Precisamente por isso é que perguntei que espécie de mecanismo de selecção poderá funcionar neste caso. A diferença entre mim e o João Miranda é que ele acredita (questão de fé?) que os mecanismos de auto-regulação: a) existem sempre; b) produzem sempre bons resultados; c) são sempre eficientes (ou seja, a relação custo-benefício é-lhes sempre favorável.
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Em Inglaterra nao existem mecanismos de auto-regulaçao, porque a sua língua conheceu uma expansao tal que nao sao necessárias medidas proteccionistas. O inglês passa por língua oficial de muitas áreas intelectuais, como sejam as científicas. Logo, há gente por todo mundo a escrever em inglês, a consultar os seus dicionários, gramáticas, prontuários, etc. A ausência de necessidade de regulaçao na cultura anglófona vem da enorme expansao da sua aplicaçao formal.
Entidades reguladoras deste género surgem quando o nível de conhecimento de uma língua está em declínio e, como tal, tomam-se medidas proteccionistas contra a deturpaçao linguística.
Já nao me lembro onde li que o nível de desenvolvimento cultural de um país corresponde ao tratamento que os seus habitantes dao à própria língua. Acerca disso e relativamente a Portugal estamos conversados. Este tipo de discussao, em que as pessoas gritam contra os rígidos formalistas da língua, nao é mais que um subterfúgio para nao terem que estudar a língua e escrever correctamente.
Chegamos a um ponto tal de chavascal linguístico, que confundimos escrever mal com ser moderno. Nao estou de acordo que, no caso da nossa língua, se busque uniformidade formal fora do que é convencionável. O que é “popular”, pelo menos na língua, raramente pode ser convençao, uma vez que os neologismos e as deturpaçoes se sucedem em rítmos frenéticos, seguindo muitas vezes incidências fora da própria sintaxe e da gramática. Tal é destruir a língua, lançar o caos quando se pretende estabelecer regra.
Nao esqueçamos que estamos a falar de convencionar o que é Português e, por oposiçao, o que NAO é Português (correcto).
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«LPedroMachado Diz:
31 Janeiro, 2008 às 10:17 pm
Ó minha cara Sofia Ventura, que lhe interessa o novo acordo ortográfico se nem o actual respeita?»
“trás de bom” = “traz de bom” (leia-se).
Mas olhe que a minha gaffe não têm nada a ver com o acordo ortográfico.
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