Saltar para o conteúdo

O país da sanha fiscal

14 Fevereiro, 2008
by

Na tentativa de salvar uma empresa familiar em grandes dificuldades, a administração tentou fazer o que lhe parecia ser a única solução para não perder os dedos. Tentou separar os activos em 3 empresas distintas, uma que ficava “com os anéis” e que venderia para pagar as dívidas e “duas mãos” que seriam distribuídas pelos dois ramos da família. Coisas simples no país Simplex? Nem pensar. Complicadex. Com Sócrates, a simples cisão de activos passou a estar sujeita a IMT e a apuramento de mais-valias. Numa operação desta natureza, envolvendo activos antigos reavaliados, a carga fiscal associada é de tal maneira extravagante e despropositada que pode inviabilizar o que quer que seja. E a única alternativa que resta, num caso destes, é o pedido de protecção de credores, a falência e mais umas dezenas ou centenas de desempregados.

Este é o estado do país Socrático. Impostos, impostos, impostos e mais impostos. Onde não há, inventam-se. Se tira de um bolso para meter noutro, paga. Se volta ao mesmo bolso, paga outra vez.

Até 2006, o DL 404/90 protegia as reorganizações empresariais. Não havendo nenhuma razão lógica para o estado cobrar impostos nas cisões ou fusões de empresas ou na mudança de titularidade dentro do mesmo grupo empresarial, um simples pedido fundamentado era suficiente para dar origem ao que se chamava “benefício fiscal”. Note-se como o estado é generoso. Chamava ‘benefício fiscal’ ao acto de não surripiar dinheiro a um grupo privado, em troca de nada e coisa nenhuma.

No último debate eleitoral, antes das eleições que levaram Sócrates ao poder, Anacleto Louçã tirou um coelho da cartola. Em mais uma das suas disparatadas acusações, Louçã proclamou o dano irreparável que o governo de então teria causado ao erário público por não ter obrigado um banco a pagar 400 mil euros de impostos, apenas por mudar a cor de uma rede de balcões. A acusção era pífia porque o governo não tinha alternativa. Era sempre obrigado a deferir o pedido se os pressupostos base estivessem reunidos.

Com Sócrates, ainda é possível pedir a isenção de imposto ao governo. Então, o que mudou? Tudo. Agora a decisão é discricionária e está nas mãos de um Secretário de Estado. Note-se como funciona o estado. Por princípio, rouba-se. Se não quiser ser roubado, pede ao Deus dos Impostos o favor de lhe perdoar. O problema é que o senhor Secretário de Estado não tem a vida fácil. Se ‘perdoar’, será imediatamente acusado de ter beneficiado privados, à custa do estado. Ora, vivemos em Portugal, o país das invejas, quer lá saber o senhor Secretário, os privados que se lixem que assim os jornais não chateiam. Indeferido é sempre o melhor carimbo certo para o sossego e a calma futura. A não ser que, talvez, algo que compense

A propósito deste assunto, absolutamente relacionado, a República Checa, Malta, a Eslovénia e Chipre passaram-nos à frente.

20 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    14 Fevereiro, 2008 12:10

    Outra vez? Esses países andam sempre a passarem-nos à frente. Já tinham dito isso há usn tempos atrás! lolol
    Já nao há noticias para deprimir mais, repetem..lol

    Gostar

  2. Piscoiso's avatar
    14 Fevereiro, 2008 12:11

    A Malta já vai à frente desde 2005.

    Gostar

  3. Desconhecida's avatar
    campeão permalink
    14 Fevereiro, 2008 12:26

    O estado socialista organiza-se da mesma maneira que as máfias americanas.Só que aqui o roubo é legal.Poderiamos enunciar centenas de casos em que o estado se limita a sacar a quem tem iniciativas para criar riqueza antes mesmo do processo começar.Assim não dá para trabalhar e fazer progredir o país! É o socialismo no seu pior!

    Gostar

  4. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    14 Fevereiro, 2008 12:28

    Há jornalistas que deviam ser internados no manicómio. eheh
    Andam sempre a repetir a mesma lengalenga depressiva. Sempre que sai uma boa noticia , lá republicam uma dúzia de más… lololol

    Devem sofrer de psicose depressiva.

    Gostar

  5. Jam's avatar
    14 Fevereiro, 2008 12:42

    «Agora a decisão é discricionária e está nas mãos de um Secretário de Estado.»

    É capaz de ter feito uma confusão… A decisão é discricionária ou é puramente política? É que são coisas bastante diferentes… Se for “discricionária” (juridica/administrativamente) não faz muito sentido o que escreve, quando afirma que “tudo” mudou.

    Gostar

  6. jcd's avatar
    jcd permalink
    14 Fevereiro, 2008 12:44

    Se é discricionária, é política. Já não depende de pressupostos que a empresa pode controlar, mas sim da vontade de alguém, do governo.

    Gostar

  7. Joaquim Amado Lopes's avatar
    Joaquim Amado Lopes permalink
    14 Fevereiro, 2008 13:03

    E, agora, quando o BCP quiser mudar a côr de uma rede de balcões, não há problema. Armando Vara tem o número do Primeiro-Ministro em speed-dial e este dá uma palavrinha ao Secretário de Estado. Ainda acaba por ser o Estado a fornecer a tinta.

    Gostar

  8. Beirão's avatar
    Beirão permalink
    14 Fevereiro, 2008 13:04

    Portugal vai ficar em último na UE pois que até o Sócrates a dizer que Lisboa(eu diria o país inteiro) é a cidade mais africana da europa…portanto qual é a admiração de sermos os últimos?Temos é que comparar-nos com o chade,senegal,cabo verde,etc…

    Gostar

  9. Beirão's avatar
    Beirão permalink
    14 Fevereiro, 2008 13:10

    Quanto aos empresários.É pá isto é assim:os ricos que paguem a crise, que eu que não o sou tenho estado a pagar de forma exagerada pelo estado a que os empresários deixaram chegar o país.Não eram eles que bradavam que tinham falta de mão de obra?Não são eles que andam na operação furacão, de que nunca mais se conhecem os resultados?Não foram eles que deslocalizaram as empresas?Portanto se isto é para ir ao fundo, primeiro eles, que até governam esta merda.

    Gostar

  10. Desconhecida's avatar
    14 Fevereiro, 2008 13:11

    Bom post jcd. Explica realmente como a ganância do Estado pode atrofiar a inciativa privada. Fossem todas as críticas ao governo assim objectivas e fundamentadas.

    Gostar

  11. Desconhecida's avatar
    pato permalink
    14 Fevereiro, 2008 13:25

    E esta:
    um contribuinte que sofreu um engano da finanças, que foi aconselhado a reclamar e, apesar de já ter passado prazo a reclamação assim mesmo foi aconselhado a raclamar, por ser um caso flagrante de erro. O fez e na resposta das finanças é o gozo total. Reconhecem o erro, mas… não aceitam, não por ser fora de prazo a reclamação, mas por o contribuinte em causa ter elevados rendimentos e não ter necessidade de correção do erro.

    É ROUBAR com todas as letras…

    Gostar

  12. Psicoiso's avatar
    Psicoiso permalink
    14 Fevereiro, 2008 15:03

    Aina não tiveram “tempo” para começar a economizar no “Banco Portuga”
    Portugal, um dia lá chegará, como North’s Coast of África.

    Gostar

  13. Desconhecida's avatar
    Pêndulo permalink
    14 Fevereiro, 2008 19:19

    Expliquem-me isso de o “mudar a cor dos balcões” pagar imposto.
    É que só estou a ver o IVA sobre a tinta…

    Ficava bem contar mais detalhadamente, assim é um bonito “sound byte” à Bloco de Esquerda e igualmente falacioso.

    Quanto ao caso em apreço até parece as “duas mãos” que concentrariam os prejuízos não abririam falência nem teriam desempregados.
    É muito chato pagar impostos, eu pago-os todos os meses quando me descontam o IRS. Há quem não queira pagar e que seja eu a pagar a parte que lhes compete.

    Gostar

  14. jcd's avatar
    jcd permalink
    14 Fevereiro, 2008 19:31

    “Expliquem-me isso de o “mudar a cor dos balcões” pagar imposto.”

    Mudar a insígnia de Atlântico para Millenium.

    “Quanto ao caso em apreço até parece as “duas mãos” que concentrariam os prejuízos não abririam falência nem teriam desempregados.”

    Vendem-se parte dos activos para pagar as dívidas. Vendem-se oa anéis, salvam-se os dedos. Dizendo de outro modo, parte-se uma empresa em 3: Uma fica com o imobiliário não afecto à exploração e as outras duas com dois diferentes ramos de actividade. Vendem-se os anéis (a empresa que fica com o imobiliário) e com o dinheiro da venda, aumenta-se o capital das outras duas, que poderão então pagar as dívidas e recomeçar sãs.

    Só que, neste caso como noutros, o estado exige que lhe sejam entregues os anéis e 2 ou 3 dedos, só para autorizar que as mãos se separarem.

    Gostar

  15. nuno's avatar
    nuno permalink
    14 Fevereiro, 2008 21:43

    Excelente artigo jcd. Pois é, estamos literalmente a ser roubados e nem temos noção disso. O processo que descreve é semelhante à “brilhante” estratégia de Pina Moura enquanto ministro de tributar os lucros de investimentos.

    Eu recebo o meu salário (que resulta de um valor já tributado). Vamos imaginar q tenho apenas duas alternativas para usar esse dinheiro:
    1 – Gastar tudo na tasca
    2 – Investir num fundo de poupança com os riscos inerente.

    Na actual situação o melhor é gastar tudo em vinho verde e pão com chouriço senão sou um “mercenário” que só vejo dinheiro à frente e o Estado salvador vem-me sacar dinheiro para assegurar uma distribuição da riqueza e subsidiar o companheiro que gastou tudo na tasca.

    Gostar

  16. Desconhecida's avatar
    cão tribuinte permalink
    14 Fevereiro, 2008 22:18

    o conde drácula não paga a metade dos desempregados de modo que tem lucro

    Gostar

  17. portela menos 1's avatar
    portela menos 1 permalink
    14 Fevereiro, 2008 23:36

    (…) O BCP terá usado uma sociedade imobiliária controlada pelo próprio banco para esconder as perdas decorrentes da utilização irregular de sociedades “off-shores” para financiar a compra de acções próprias (…)

    jcd, quando se cansar de bater no ceguinho, vai tomar posição sobre o tema acima; sim, porque isto tem que ver com equilíbrios do mercado…

    Gostar

  18. Jam's avatar
    15 Fevereiro, 2008 02:34

    «Se é discricionária, é política. Já não depende de pressupostos que a empresa pode controlar, mas sim da vontade de alguém, do governo.»

    Não jcd. Confirmar-se a confusão. Um acto, administrativo – ou administrativo em matéria fiscal, mais concretamente – discricionário nunca o é totalmente. Existem sempre momentos vinculados (à lei). Imagine a situação em que, estando preenchidos os pressupostos x e y; o agente administrativo tem a opção de aplicar a, b ou c. Por um lado, está obrigado a actuar, sempre que se verifiquem os pressupostos. Por outro não pode deixar de actuar. Ou aplica a, ou aplica b, ou aplica c. Tem de aplicar um deles. E depois essa escolha tem de ser fundamentada, como é evidente. É uma escolha discricionária, mas não o é, nunca o pode ser, totalmente.
    A confusão que você está a fazer é entre discricionariedade e a definição de uma política. Um inspector de saúde pode decretar uma quarentena, ao abrigo de uma discricionariedade e com isso não está a fazer política. A confusão estende-se ao facto de estar em causa um membro do governo. Ai, ai…

    Gostar

  19. jcd's avatar
    jcd permalink
    15 Fevereiro, 2008 07:43

    Jam

    Antes, quando se planeava uma reorganização qualquer numa empresa, sabia-se de antemão que essa reorganização não seria taxada em sede de sisa (imt). Agora, não sabe. Se me explicar quais são as condições a,b ou c que estão nas mãos da empresa para garantir essa isenção, agradeço-lhe. Não sou o único…

    Gostar

  20. LG's avatar
    15 Fevereiro, 2008 09:35

    Para tentar o premio de 41 anos de trabalho e descontos, vou tentar a minha reforma, antes que a segurança social vá à falencia.
    Para tal, convido pessoas inteligentes, que gostem de arriscar moderadamente, aproveitando subsidios a fundo perdido para a criação do proprio emprego.
    Trata-se de ceder as quotas de uma sociedade que explora há 15 anos uma Residencial 3 estrelas no Ribatejo.
    Contacte as.accounting.antonio@gmail.com

    Gostar

Indigne-se aqui.