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A fortuna, o azar e o reflexo*

10 Abril, 2008

Podem as criancinhas portuguesas estar descansadas que não serão mais sujeitas àquelas traumáticas experiências de as máquinas de bolas não darem sempre chocolates de igual valor. Se o “cliente não sabe o que vai sair” estamos, segundo a ASAE, perante um jogo de fortuna e azar. Nem mais. O desconchavo deste tipo de argumentação é enorme e apetece perguntar: donde vieram estas almas? Nunca fizeram furos nas barracas da Feira Popular? Não sabem que a graça resultava e resulta exactamente de poder sair o chocolate maior? Ou de não sair chocolate algum?

(fotos http://baroesdaseviseu.blogspot.com/)


Saber, sabem mas sabem também que o poder deixou de ser uma questão de ideologia para se tornar num exercício de paternalismo. Os governos não governam. Cuidam de nós. A ASAE não inventa regulamentos, simplesmente aplica com especial entusiasmo alguns dos milhares de regulamentos aprovados pelos nossos governos, regulamentos esses que só não nos tornaram ainda  a vida de todo impossível porque o marasmo vai imperando nos serviços públicos. Mas esses regulamentos aí estão à espera que um qualquer António Nunes lhes pegue.

Como se tal não fosse já suficiente todos os dias alguém reivindica ainda mais um regulamento. Por exemplo, a propósito da violência nas escolas, o presidente da Confederação  Nacional de Associações de Pais (CONFAP), Albino Almeida, não fala de filhos nem de pais, apesar de oficialmente representar estes últimos e de o próprio Ministério da Educação contribuir com dezenas de milhares de euros para a actividade em prol dos pais que a CONFAP promoverá. O presidente da CONFAP fala sim de televisão – “Os ídolos de hoje não são os pais nem os professores. São aqueles que, numa novela, marcam relações sexuais por telemóvel dentro de um colégio privado” – para logo em seguida exigir que o Estado faça uma “correcta avaliação” do alvará dos canais de televisão e que o retire “se preciso for”. Naturalmente a CONFAP e não sei quantos outros seus clones integrariam o organismo que faria a “correcta avaliação” da programação das televisões. E assim o senhor Albino Almeida poderia dormir descansado: os seus filhos fariam dele um ídolo porque os episódios dos “Morangos com Açúcar” seriam devidamente supervisionados. Claro que em seguida ter-se-ia de fazer a “correcta avaliação” da programação das rádios, o controlo da internet, das letras das canções… tudo para que o senhor Albino Almeida não tivesse de exercer directamente a sua autoridade de pai e continuasse na sua regulaçãozinha.

Mas se é lastimável que o presidente da CONFAP reivindique que o Estado intervenha (ainda mais!) nas televisões, absolutamente preocupantes são as declarações do presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), Noronha de Nascimento. Quando interrogado sobre a violência nas escolas, o presidente do STJ também optou por não falar da sua área de poder e saber  preferindo sim fazer considerandos sobre a pobreza, a riqueza e a distribuição da população no território nacional: “Se há gente a mais no litoral, se não há emprego, se fecha a indústria, o que é que a gente nova vai fazer? Estamos a falar de gente nova, porque não são as pessoas de 50 ou 60 anos que estão a criar problemas. O que vão fazer as pessoas que estão a começar a vida? (…) A escola é um reflexo disto. A indisciplina vem de fora da escola. As escolas problemáticas são aquelas cujos alunos vêm de bairros problemáticos. Não são os alunos problemáticos das escolas que vão para os bairros. O problema da escola não é autónomo.”

Mais misteriosa do que a incerta data em que os pais foram os ídolos dos filhos referida por Albino Almeida é esta “gente nova” que estando a  “mais no litoral” compensa o desemprego batendo nos professores.  Em quantos casos de violência nas escolas é que os protagonistas vinham de famílias com problemas económicos? Desde quando é que os filhos dos desempregados são “problemáticos”? Onde estão os estudos que o provam?

O Estado socialista que nunca fomos ganhou fastio ao povo. Se o mar avança pelo litoral a culpa é do turismo de massas. Se as escolas públicas ensinam mal e são incapazes de impor disciplina a culpa é da massificação do ensino. Se o comércio dito tradicional agoniza a culpa é das massas que  preferem endividar-se nos centros comerciais das periferias.

As massas não quiseram acompanhar o esforço revolucionário das élites mas estas vingaram-se bem da desfeita: acabaram os cursos, vestiram-se a rigor e ocuparam os lugares que há tanto esperavam por eles na administração pública e na política. Desde então não mais cessaram de  produzir regulamentos supostamente apolíticos mas que se imiscuem mais na vida do povo do que qualquer constituição o fez e que transformaram os cidadãos numa espécie de criança-utente que tem o direito e o dever de esperar que o pai-governo lhe dê subsídios ou contratos, casinhas ou empreitadas, escolas ou hospitais. Os regulamentos evitam que caiamos em tentação, no dia a dia não existe mal nem bem, pois feita a devida ressalva à nossa condição de contribuintes onde todos somos presumíveis delinquentes, não passamos dum reflexo, como explica Noronha de Nascimento.

Os donos dos regulamentos dizem-nos quando começam os saldos, qual o fim a que se pode destinar um edifício, arrogam-se o direito de saber quanto custa o vestida da noiva e o que se comeu no copo-de-água ( a Páscoa e o Ano Novo ficam de fora do interrogatório até quando?) e agora nem os brindes de chocolate escapam. Porque não se sabe o que vai sair – dizem. Pois é, a vida era isso: era não sabermos o que ia sair. Dos cursos, das paixões, dos filhos, dos trabalhos… não sabíamos de facto o que ia sair. E acreditámos que isso era a liberdade.

*PÚBLICO, 8 de Abril

16 comentários leave one →
  1. rxc's avatar
    rxc permalink
    10 Abril, 2008 09:35

    Alguém que nunca aceitou que a bola colorida tenha saído ao Manelinho e não a ele. A vingança é um prato que se serve frio…

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  2. Piscoiso's avatar
    10 Abril, 2008 10:23

    Já agora, venha daí uma petição para as crianças poderem entrar nos Casinos.

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  3. Desconhecida's avatar
    Jose Ferreira da Silva permalink
    10 Abril, 2008 10:34

    é o funcionalismo publico levado ao extremo , misturado com uma baforada modernaça de pseudo regulamentação europeia.

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  4. Desconhecida's avatar
    Biscoiso permalink
    10 Abril, 2008 10:49

    A CONFAP não estaria interessada em resolver um problema que é meu, mas também de milhões de portugueses?
    É o seguinte:
    O meu filho, queixa-se de que, cada vez que sente vontade de defecar, senta-se na sanita mas,
    umas vezes não sai nada
    algumas vezes sai mole
    algumas vezes sai duro
    algumas vezes é tão duro que tem dificuldade em sair e até dói
    algumas vezes sai líquido e em esguicho

    Isto não é propriamente um jogo, mas que é de azar, não tenho dúvidas.

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  5. RP's avatar
    10 Abril, 2008 10:52

    de facto, a culpa das escolas ensinarem mal não é da massificação do ensino, é, contudo, do “ensino de massa” que se pratica, baseado na existência de metas que nem todos têm a mesma possibilidade de alcançar, em vez de se basear nas capacidades próprias de cada aluno e estar adaptado para acompanhar o desenvolvimento da personalidade, das capacidades e dos talentos de cada um.
    Ver o que sobre isso foi publicado por E. L. Pires, A. S. Fernandes e J. Formosinho. E, já agora, dar uma olhadela no site da Escola da Ponte.

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  6. C. Medina Ribeiro's avatar
    10 Abril, 2008 11:19

    Uma vez obtida a autorização da autora, é frequente o Sorumbático transcrever algumas das crónicas da Helena Matos – e esta está “vai-não-vai” para ser uma delas.
    No entanto, o absurdo denunciado é-o a um tal ponto que – peço-lhe desculpa… – terei de o confirmar primeiro!

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  7. atento's avatar
    10 Abril, 2008 11:22

    Quando a ASAE aparece, as bactérias começam logo a marchar em fila. E o mundo mudou, lembram-se?
    A qualquer momento pode sair uma dose de polvo empeúgado de preto para a mesa…
    Como ter tantas certezas que o furo X vai dar. Bem, se não der nada, toca a abrir os furos todos de rajada, não vá o barraqueiro dos furinhos andar a enganar as crianças. Sim, porque o meu filho tem uma intuição que nunca falha.
    Daqui a uns anitos:
    -Bactérias, abaixem-se, que eles vêm aí.

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  8. Desconhecida's avatar
    Ai Jesus! permalink
    10 Abril, 2008 13:47

    O país no bom caminho… já agora deixem-me incluir também o resto do mundo no bom caminho. A ASAE agora é a DECO só que para os outros. Porque, quando foi para passar o ano em beleza a ASAE foi atrás do azar do casino.

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  9. Desconhecida's avatar
    Doe, J permalink
    10 Abril, 2008 15:08

    E a proibição das eleições à portuguesa também já não deve tardar muito pois votar numa personagem que traz um rótulo de estadista socialista ou social democrata e sair-lhe depois um vigaristazeco do mais genérico que pode haver é com toda a certeza uma causa para graves traumas futuros não só nas criancinhas como também nos adultos.

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  10. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    10 Abril, 2008 18:15

    texto confuso que mistura alhos com bogalhos.

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  11. MJP's avatar
    MJP permalink
    10 Abril, 2008 18:56

    E que tal fiscalizar as eleições? exigimos que o resultado não saia “branco” ou ficamos viciados: vai mais um votinho? eu só quero que me saia tinto!

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  12. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    10 Abril, 2008 23:20

    Santa ingenuidade. Não sabiam que há locais em que as máquinas de chocolates são um disfarce para jogos de azar, em que o lojista depois troca o chocolate por um prémio monetário?

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  13. Fernando Vasconcelos's avatar
    10 Abril, 2008 23:48

    Que me desculpem quem critica esta opinião da Helena mas neste caso tenho de concordar. É (a ser verdade porque sinceramente parece demasiado ridículo) um abuso de poder e uma regulamentação que só proporciona o livre arbítrio dos fiscais que assim podem fazer o que bem lhes apetece sem nunca serem chamados à responsabilidade abrigados que estão pela regulamentação. Concordo também que existem regras a mais para demasiadas coisas … Onde discordamos é apenas no corolário 🙂

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  14. Isabel Coutinho's avatar
    Isabel Coutinho permalink
    11 Abril, 2008 01:01

    E com isto lembrei-me que, quando fecharam a Feira Popular, prometeram abri-la noutro sítio. Até hoje.
    É que eu tenho saudades da Feira Popular, das rifas, dos tirinhos, dos carrocéis, e até do algodão doce (que a ASAE deveria achar terrivelmente pouco higiénico).
    Digam-me lá onde é que eu hei-de levar os meus netos, em recompensa de boas notas?

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  15. Desconhecida's avatar
    Tribunus permalink
    11 Abril, 2008 16:55

    O tempo, não anda para trás, a massificação, o crescimento do consumo, fizeram surgir todas as vigarices ao de cima das actividades, comerciais, industriais, etc.
    Tanto azar co a ASAE, mas que dizem à merda apreendida, em frigorificos, com anos de congelação? até hoje não vi ninguem desmentir! querem que lhe sirvam aquela mixordia nuns pastelinhos
    caseiros? hoje as crianças não querem furinhos, querem consolas!
    Porque se andam a retirar produtos para emagrecimento do mercado?
    porque em 3 anos o homem maravilhas (socrates) não conseguiu fazer uma entidade, que cotrle as lojas de produtos diététicos, que crescem como cogumelos!

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  16. Desconhecida's avatar
    NUNO permalink
    20 Julho, 2009 19:24

    pelo que eu estou vendo ninguem aqui esta a par deste assunto que foi agora lançado para a praça publica.
    as maquinazinhas de bolas que contem um numero ou letra e se faz acompanhar de um cartaz têm tambem na parte lateral esquerda da maquina uma janela com um espelho que só quem não quizer ver é que não vê o que lhe vai sair porque a bola que vai sair á criancinha ou o paizinho ou a mãezinha esta lá e é aquela que irá sair, ainda á firmas em portugal que são transparentes nesse negocio , como pagam de 3 em 3 meses os ivas respectivos dessa exploração ao estado. então em que é que ficamos uma coisa ilegal não pode pagar contribuições ao estado mas que as paga lá isso paga é melhor repensar nisto obrigado

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