Saltar para o conteúdo

Outra “verdadeiramente falsa boa ideia”…*

17 Abril, 2008

é aquela que se encontra nas palavras da vereadora da Câmara de Lisboa, Rosália Vargas, sobre o futuro do cinema Quarteto: “Sou sensível a este assunto e é uma pena se se perder o Quarteto. A Câmara de Lisboa gostaria de o preservar, ou pelo menos preservar a sua memória. O que podemos tentar fazer é classificar o espaço como de interesse cultural da cidade, impedindo que se altere o fim para que foi criado.” E depois o que acontecerá? O Quarteto tem de ser cinema porque a vereadora Rosália gosta de ser sensível a “este assunto” e entende que impondo um uso a um edifício nascem os seus utilizadores. Rosália Vargas não está só nesta sua concepção de que se preserva a memória como quem seca flores em livros.
O espaço cultural é a capela dos nossos dias. Os governantes e abastados do passado mitigavam as suas culpas custeando a construção de conventos e igrejas. Nos nossos tempos os pecados da política e da economia aliviam-se dizendo que se vai fazer um espaço cultural. Infelizmente na cultura, e ao contrário do que acontece com os espaços religiosos, não basta colocar um altar para que os fiéis acorram. E assim as cidades vão-se atulhando de espaços supostamente salvos para a cultura mas que ninguém frequenta. O caso dos cinemas fechados de Lisboa é exemplar desse processo: um olhar grosseiro sobre a cidade leva-nos ao Paris, cinema que por razões de segurança a CML mandou demolir em 2003 mas que lá continua periclitante à espera que a CML abra os cordões à bolsa para que a cultura ali continue a ter um espaço ou um vazadouro. O cinema Europa, apesar de tudo bem mais firme que o Paris, também espera, devidamente fechado, pela redenção para a cultura. Na Avenida da Liberdade, o São Jorge, propriedade da CML, prossegue a sua letargia de bela adormecida só quebrada por um breve alvoroço quando os organizadores dos festivais de cinema, apoiados pela mesma CML, lá concedem realizar algumas sessões. A esta lista não exaustiva ameaça somar-se agora o Quarteto. Grotesco fim para quem foi moderno.

*PÚBLICO, 15 de Abril

8 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    Mialgia de Esforço permalink
    17 Abril, 2008 15:53

    Ao ler este artigo, não posso deixar de sentir uma certa nostalgia. Passei muitas horas da minha adolescência naquelas salas.É óbvio que o Quarteto nunca mais reabre. De resto, já tinha entrado em coma profundo quando foi encerrado pelos SEAL da ASAE. E quando qualquer “governante” diz que está sensível isso equivale a uma certidão de óbito.

    “E assim as cidades vão-se atulhando de espaços supostamente salvos para a cultura mas que ninguém frequenta.”

    Mas como pode alguém frequentá-los se estão fechados?

    A não ser que a Câmara o classifique como espaço cultural e depois abra lá uma loja chinesa! Como projecto imobiliário não é possível, já o espaço é pequeno.

    É uma ausência total de ideias e projectos. Não têm nada naquelas cabecinhas. Já que não conseguem ter ideias próprias, copiem o que se faz em matéria cultural noutras cidades europeias e depois chamem-lhe benchmarking. Ao menos isso!

    Lisboa é cada vez mais uma cidade devoluta que despreza os seus cidadãos e cidadonas (como diria o outro).

    Gostar

  2. Fado Alexandrino's avatar
    17 Abril, 2008 16:09

    Tenho muita pena que o Blasfémias não tenha postado nada para honrar o desaparecimento de Pedro Bandeira Freira.

    Gostar

  3. Desconhecida's avatar
    17 Abril, 2008 16:13

    A vereadora Rosália não terá um familiar disposto a tomar conta de um cinema?

    Gostar

  4. Desconhecida's avatar
    Helena Matos permalink
    17 Abril, 2008 16:21

    De alguma forma este post é a minha lembrança do Pedro Bandeira Freire. Que o Quarteto não seja outro S. Jorge é uma forma de recordar o seu trabalho.
    Para quem quiser ler umas das últimas declarações de Pedro Bandeira Freire aqui fica o link
    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1323422&idCanal=59

    Gostar

  5. Desconhecida's avatar
    17 Abril, 2008 17:23

    Ainda não conseguiram descobrir que preservar a cultura não é o mesmo que preservar as recordações.
    A menos que a Dona Rosália ainda tenha a cama cheia de peluches e bonecas Barbie (e Kens).

    Gostar

  6. António de Almeida's avatar
    17 Abril, 2008 17:29

    -Obviamente também assisti a grandes filmes no Quarteto, o qual recordo com nostalgia. Mas não pode nem deve ser o estado, ou a C.M.L. gastando o que não tem, a subsidiar a sensibilidade e nostalgia de cada um de nós.

    Gostar

  7. Desconhecida's avatar
    Mialgia de Esforço permalink
    17 Abril, 2008 17:41

    CD e António de Almeida,

    Não confundam a minha nostalgia com o subsídio da CML. Nada disso! A vereadora é que afirmou que gostaria de preservar o Quarteto. Vai preservá-lo tanto como o Europa e o Paris. Conversa da treta!

    Para que conste, sou contra a existência de um Ministério da Cultura. Cultura por decreto, não!

    Gostar

  8. Luis Moreira's avatar
    Luis Moreira permalink
    17 Abril, 2008 18:22

    Grandes filmes no Quarteto.Ás tantas da noite.Agora há a preservar o quê? O local,o edificio ? Não tem valor para isso.Há a preservar a memória dos grandes filmes,das namoradas.Mas a CML nada tem a ver com isso!

    Gostar

Deixe uma resposta para CD Cancelar resposta