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Conversas improváveis

16 Novembro, 2008

Por aqui cheguei aqui Vale a pena ouvir a reportagem. Não aprecio o estilo mas chama a  atenção para um assunto fundamental: os velhos. Há pouco tempo dei comigo a ter uma conversa que jamais imaginei manter com alguém. A questão que me era colocada por uma pessoa a quem chamaríamos  idosa era simples: se matasse uma pessoa – dizia-me – os seus problemas ficariam resolvidos. Às minhas objecções a resposta surgia pronta: Toda a vida tinha trabalhado e o toda a vida é praticamente desde os seis anos. Nem sequer foi à escola. Teve o primeiro par de sapatos aos 16. Casou, teve dois filhos. Criou-os o melhor que soube.  Após a viuvez os filhos impuseram-lhe partilhas. Ficou praticamente sem nada. Apesar da reforma voltou a trabalhar e resiste a passar a casa para nome dos herdeiros. Mas receia cada vez mais o dia em que as forças lhe vão faltar. Ou, pior ainda, em que vai ficar dependente. E é aí que entra o homicídio duma criatura de quem tem recebido agravos vários. Não é que considere que gostasse de o ver morto mas “é uma má rês. Ora se eu o matasse a mulher via-se livre dele e da pancada que ele lhe dá e eu tinha a casa e a saúde resolvidas para  resto da vida. Nem precisava de trabalhar. Ainda era um tempinho bom que eu tinha na vida. Perdia a liberdade? E que liberdade é que eu tenho? Olhe a cadeia é melhor que um lar.”

18 comentários leave one →
  1. Piscoiso's avatar
    16 Novembro, 2008 19:54

    Dizem que Guantanamo é um modelo de prisão. Mas a admissão é só com cunhas.

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  2. Pedro's avatar
    16 Novembro, 2008 19:58

    Realmente,…na cadeia não se pagam refeições nem cama…muito mais barato que um lar

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  3. Desconhecida's avatar
    a prima do picoiso permalink
    16 Novembro, 2008 20:06

    Só que não vai haver polícias para prender:
    “Pessoas revoltadas com o que sentem como injustiças cometidas contra si, desmotivadas face à profissão, sem confiança na instituição e nas hierarquias, com medo de agir por receio de serem alvo de um processo disciplinar, com a vida familiar desestruturada, desenraizadas das matrizes afectivas ou porque estão afastadas dos seus locais de origem e, por isso, também, da sua casa, da mulher e dos filhos, ou porque não conseguem conciliar as exigências da profissão com a vida familiar; muitas delas cansadas, com problemas de saúde e a necessitarem de ajuda psicológica – Eis, em traços largos, um retrato de muitos dos polícias portugueses. Vivem uma vida dura, com fracas recompensas, e mesmo assim procuram cumprir o que entendem como o seu dever.

    Mas pagam um preço elevado que, em alguns casos, felizmente pouco frequentes, pode chegar ao suicídio, porque há aqueles que, incapazes de conciliar a farda com o ser humano que também são, “acabam por se meter em comprimidos, no álcool, noutro tipo de vida, para esquecer, para se anestesiarem como forma de sobreviver, até que alguém lhes diga – Mata-te, tens aí uma pistola!” “Polícia à Portuguesa”, Fernando Contumélias e Mário Contumélias.

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  4. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    16 Novembro, 2008 20:58

    A cadeia é melhor que um lar? Nunca viram uma cadeia na vida.

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  5. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    16 Novembro, 2008 21:02

    E claro que a culpa toda é do governo. Nunca é dos salários baixos e dos privados, nem das escolhas que fizeram na vida.

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  6. jesebel's avatar
    16 Novembro, 2008 21:24

    http://quenemloucos.blogspot.com/

    Peço desculpa ao dono deste blog pelo intruso que cá entra. Entra de boa vontade, e venho convidá-lo a participar neste momento de loucura total….
    Visite o meu blog e depois aceita ou não convite lá proposto!
    E assim como convido o sr.blasfemias, convido também a todos que o queiram fazer. O meu nome é Marco António Jesebel E agradeço desde já o facto de me terem lido até ao fim.

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  7. dlim!dlim!'s avatar
    16 Novembro, 2008 22:32

    Valerá a pena viver? Com a morte à espera, qual o valor de uma vida problemática ou sem sentido, onde o absurdo campeia?
    Será que a revolta diária ainda permite uma existência condigna?

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  8. Saloio's avatar
    Saloio permalink
    16 Novembro, 2008 23:03

    Estimada HM: a história que conta é comovente.

    Também eu, ao longo de uma vida no tribunal, tenho visto tanta gente má, mesquinha ou simplesmente invejosa, para quem o ódio inexplicável e profundo é o lema principal das suas vidas.

    Pode ser um vizinho seu, educadissimo e simpatiquissimo enquando lhe segura a porta do elevador, ou quando faz festas pelo lombo do gato. Mas que, por uma qualquer razão que para os comuns não vale nada, para ele é a fonte de ódio e maldade contra alguém.

    (Por isso, quando estudei o nazismo (particularmente Anna Arent), comprendi com alguma dificuldade inicial como é que o povo alemão anónimo colaborou voluntariamente nas atrocidades indescritíveis).

    E quando essa vítima é alguém incapacitado, por razões de idade (criança ou velho), por razões de família, dependência económica, ou por ignorância e falta de expediente em se defenderem, então a situação torna-se dramática.

    E ocasiona na vítima uma revolta interior crescente e reprimida que pode justificar o desejo de matar o opressor. São bombas-relógio ambulantes, que às vezes explodem em situações da vida normal – e longe do opressor.

    Como eu percebo bem essa senhora.

    Digo eu…

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  9. Desconhecida's avatar
    DISTRAIDO permalink
    16 Novembro, 2008 23:07

    Helena,

    em que mundo vive?

    nunca viu reportagens nas farmácias, em que o “velhote” diz que ou compra os medicamentos ou compra comida?

    (salienta-se que só não vai para “debaixo da ponte”, porque a renda é antiga e o senhorio foi nacionalizado, de facto, pela “Segurança Social”).

    onde há um imposto sobre a longevidade, escondido no binómio reforma (valor e idade para) e “esperança de vida” que funciona na razão inversa?

    e que salários baixos se pagam de reformas igualmente baixas, ao ponto de se questionar se será economicamente viável manter alguém numa empresa depois dos 50 anos?

    Helena vá mais à rua, veja reportagens e perceba que está em Portugal, Europa em 2008 (Calendário Gregoriano)

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  10. PimPamPum's avatar
    PimPamPum permalink
    16 Novembro, 2008 23:14

    Os velhos, os doentes, os desempregados, são uma carga para a segurança social, para as famílias, para a comunidade.
    Há-de vir o tempo em que, por decreto, estas classes sejam banidas da sociedade a bem do progresso e da modernidade…

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  11. Desconhecida's avatar
    Anonimo permalink
    16 Novembro, 2008 23:15

    .
    Achei intressante. Ler aqui:
    .
    http://clix.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/453194

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  12. mdsol's avatar
    16 Novembro, 2008 23:35

    Dilacerante o que relata! É o tal realismo que fere de morte as nossas pretensões de vivermos numa sociedade decente!

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  13. cão-tribuinte's avatar
    cão-tribuinte permalink
    16 Novembro, 2008 23:51

    tenho 77 anos,1,77m, 62 kg de meias . estive para morrer em todas as décadas. faço as compras e a comida para a família. escrevo e publico livros. viajo dentro e fora do país para casa de amigos. ando 1h de bicicleta e 2 a pé. como sopa de hortaliça,salada, fruta, peixe e carne cozida, grelhada.
    não consigo definir se sou velho ou idoso.
    comprei um creme para depois da fazer a barba. encontrei uma amiga que pergunta se a pele é seca ou oleosa. respondi: velha. ouvi: credo! velhos são os trapos
    devo ser idoso,
    num país que não é para vivos, qualquer que seja a sua idade

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  14. Desconhecida's avatar
    mariana permalink
    17 Novembro, 2008 01:34

    é, o liberalismo é assim…que trabalhasse mais, que estdasse mais, que se fizesse à vida..termos agora nós que andar a sustentar esta cambada? deixar o mercado regular!

    mas quando as coisas ganham rosto, custa muito mais sermos ortodoxos, não é?

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  15. Desconhecida's avatar
    helenafmatos permalink
    17 Novembro, 2008 09:17

    A pessoa em causa não se queixa da reforma nem do Governo´. Queixa-se sim dos seus descendentes que das relações familiares só conhecem a expressão direito à herança.

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  16. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    17 Novembro, 2008 10:21

    Ah, se isso fosse uma excepção, ou pelo menos raro….

    Muitas estórias assim, no meu juramentodoshipocritas@blogspot.com, caríssima Helena, e muitas mais por contar, infelizmente.

    Um bem haja por falar neste assunto, que é sem dúvida a suprema hipocrisia, a suprema imoralidade, e suprema desumanidade dos tempos que correm, neste muito frequentado blog.

    Placebo

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  17. Saloio's avatar
    Saloio permalink
    17 Novembro, 2008 10:50

    Estimada HM: a malta não entendeu que este caso é de maldade pessoal e familiar e aproveita logo para atirar no Sócrates e na “segurança social” que vamos tendo (e com razão).

    Estimado Cão-tribuinte: tem aqui alguém que, mesmo sem o conhecer, já o estima e gosta de si…e o considera ainda muito útil.

    Que o senhor se mantenha entre nós por mais 77 anos é o meu desejo sincero.

    Digo eu…

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  18. Desconhecida's avatar
    DISTRAIDO permalink
    17 Novembro, 2008 21:39

    Helena,

    é só para dizer que essa senhora nunca terá direito ao Sibsídio ESPECIAL PARA IDOSOS, ou lá como se chama, porque tem filhis com os quais, pelos vistos, não se dá, mas que pelo facto de existirem a excluem segundo a LEI SOCRÁTICA.

    é só para colhecer o que se passa à volta ….

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