Obama e Delors (segundo Rui Tavares e com “Che” ao fundo)
Diz Rui Tavares, na sua “Crónica sem dor”, no Público (ed. de hoje, 23.03.2009, última página), que Durão Barroso, infelizmente, não chega a ser um Barak Obama, nem sequer, ao menos, um Jacques Delors.
Independentemente do fundo da questão que, no texto de Rui Tavares, acaba por ser, vagamente, a questão da “democracia europeia” e sobretudo, o objectivo de campanha de menorizar José Manuel Barroso (a quem Ana Gomes acusou de, como Presidente da Comissão Europeia, não dedender os interesses de Portugal!!??), acho interessante um pormenor que, contudo, julgo ser sintomático. É curioso, com efeito, que Rui Tavares indique como prémio de consolação Jacques Delors, comparativamente com um por si alegado primeiro prémio que seria Obama! Passo a transcrever: “Por outras palavras: que Durão Barroso não chegasse a ser um Barack Obama mas que ao menos conseguisse ser um Jacques Delors”.
Na realidade, de Delors, a história regista a obra feita. A construção europeia deve-lhe, em parte, os seus alicerces actuais. Tenho, para mim, que sem o consulado de Delors, não teria sido possível Maastricht, nem o estabelecimento das estruturas fundantes e operativas do SME (ECU) e, ulteriormente, da adopção de uma moeda única com curso legal obrigatório. Provavelmente, não existiria, ainda, União.
Mais: com Delors a integração teve um significado concreto, traduzido em pequenas/grandes mudanças e aprofundamentos (porém, sempre sentidos, a posteriori, com naturalidade e com sucesso pela população e pelos Estados-membros) e, acima de tudo, Delors conseguiu, avant la lettre, pôr em prática a dimensão essencial da democracia – sobretudo, da denominada “democracia europeia” ou de outra qualquer democracia transnacional – ou seja, o consenso. No caso europeu, o consenso e, consequentemente, um equilíbrio político sólido entre os interesses dos principais sujeitos da integração: os Estados e as populações…. Note-se, com efeito e a este propósito, que na época de Delors, os Estados ainda eram entendidos como os únicos – ao menos, os principais – sujeitos da integração, devendo-se, também, a tal período “Delorsiano”, a formação do objectivo político da construção de uma “Europa dos Estados e dos Cidadãos”.
No balanço da História, Delors tem, sem dúvida, a seu favor, ter conseguido fazer-se ouvir e respeitar quer por Miterrand, por Kohl e simultaneamente por Thatcher. Muitas vezes esquecemo-nos, com efeito, de que a regra democrática, por princípio e por excelência, é a do consenso, entrando em campo, supletivamente, a regra da maioria – precisamente quando a decisão consensual não é passível de ser alcançada.
Por isso, achei muito curiosa a indicação de Rui Tavares e perceber que, para ele, aquilo que é ainda uma esperança em construção (Obama), passou a ser um exemplo, nomeadamente, um exemplo referencial para a construção europeia, ultrapassando pela direita (na perspectiva de Rui Tavares, pela esquerda!) um acquis histórico que é Delors.
Curiosamente, Delors foi também um homem de esquerda (o único socialista de quem Thatcher – dizia ela própria – gostava e respeitava). É interessante notar-se esta marca característica de certas esquerdas: a sobrevalorização da esperança e da emoção (sobretudo se servir para exorcizar Bush ou outros quaisquer demónios ou anjos simbolicamente construídos) relativamente à própria realidade histórica.
De resto, para uma certa cosmovisão política de esquerda, a realidade sempre foi aborrecida, cinzenta; não se presta muito a caras estilizadamente românticas, estampadas em t-shirts!

Rapidinho: bom argumento sobre as diferenças Obama / Delors, semelhante aos que se costumam fazer sobre as diferenças entre Martin Luther King / Johnson ou Kennedy / Johnson. Mas a minha intenção não era comparar a obra realizada de Delors com a obra por realizar de Obama, que por definição ainda não é obra. Era comparar a chegada de Obama, com uma estratégia própria de mudança mandatada por um processo eleitoral “de massas”, com o papel de Delors como brilhante coordenador de estratégias de terceiros de forma a retirar delas o “máximo denominador comum”. Durão não é nenhuma das duas coisas e isso é incontroverso.
De resto, não se a que propósito se vai buscar o Che Guevara. Nunca fui fã dele, nunca o citei como referência e, como penso que fica claro a quem me ler, não é parte do meu universo.
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Delors ajudou a construir um Estado para destruir Estados e os resultados estão á vista. Obama para lá caminha.
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O artigo do Tavares é o que se pode esperar de um candidato do BE ao PE.
Traz nos olhos as palas próprias de quem anda à volta da nora, perdão, do tacho.
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Caro Rui Tavares.
Nunca o associei a Che. Coincidentemente a sobrevalorização de Obama vs. Delors (se bem que explicada, supra, na sua perspectiva e relativamente a “uma estratégia de mudança mandatada por um processo eleitoral «de massas»), é que me pareceu típica da sobrevalorização (romântica) da figura de Che….claro está, na minha perspectiva (talvez mesmo, instintiva). De resto, a invocação de Che decorre da “efeméride” actual da respectiva morte, dfeita um pouco na imprensa (uma mera questão de actualidade, portanto).
Quanto ao retso, concordo consigo, se bem que ache que se está já a tentar exigir de Barroso ( crucifica – lo mesmo ) algo que não seria possível exigir a quem quer que seja que ocupasse o cargo, neste momento, …. como acho que também acaba por notar na sua crónica.
Cumprimentos.
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Viva Felix Rodriguez !!!
Venceremos .
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Quando abri o “pdf” na página da coluna e li o primeiro parágrafo dei uma gargalhada tão sonora que toda a gente se assutou lá em casa!
Julgo que RT conseguiu, numa página espelhar a actuação do nosso compatriota por terras belgas (o seu eterno carreirismo atrás do mais forte, em defesa do interesse pessoal) e a sua incapacidade para desencadear o multiplicador.
pois, que ao menos fosse um Delors. Barroso bem tentou (basta ler o primeiro parágrafo da sua “comunicação” sobre o plano de retoma)… o problema é que ninguém ligou peva! Para além disso, nem nos 5.000 milhões disponíveis no orçamento soube investir… deixou os ingleses lidar o processo de “alocação” e esteve durante três semanas à espera que os chefes de governo se entendessem sobre a “boa” distribuição! Se tal excedente fosse devolvido aos Estados, caberiam a Portugl uns meros 60 milhões de euros
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Tem piada o Rui Tavares que eu não sabia quem era porque só leio o Le Monde, o Times e a New York Review of Books (e os extractos do Público e do CM publicados aqui no Blasfas), dizer no 1º comentário que “Che Guevara não faz parte do meu universo”.
O meu universo que é inclusivo alberga o Che e Herr Fritzl. O meu universo alberga todos os mundos possíveis mesmo aqueles de que eu não gosto.
O mundo selectivo de Rui Tavares exclui cores ideológicas determinadas.
Em contrapartida o meu mundo passou a incluir o mundo de Rui Tavares
Não resisto a uma citação de Parménides – ” Os ignorantes vivem numa pluralidade de mundos distintos, os iluminados vivem num só mundo comum.”
Parménides esqueceu-se (para nos dar o prazer de continuar o seu pensamento,)do corolário:
# esse só mundo comum alberga todos os mundos possíveis.
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Os “iluminados ” no sentido de Parménides não tem nada a ver com os “illuminati” nem com a gente neojacobina descendente da Aufkalrung e dos pós-hegelianos.
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este RT é um pândego. Onde foi buscar os termos de comparação? E Delors não foi um autor das tais políticas q o BE tanto critica?
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eu tb não gostei da arbitragem do Lucídio … esse primo do Parménides
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# 10
Regozijo-me imenso com os suicidados da luz.
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A pergunta a fazer não é classificar o DB num campeonato de lideres nem fazer um inventário das suas performances/piruetas ideológicas.
É mais simples: a quem serve ele?
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Que debate mais vazio. Mera discussão acerca de estilos e impressões. Nada acerca das ligações e dos financiadores destes três personagens. O pior é que isto não é uma conversa de bar, é um debate entre um advogado e um licenciado em história.
O pior é o licenciado em história. O seu estilo é horrivelmente contemporâneo. Vejamos:
“Mas a minha intenção não era comparar a obra realizada de Delors com a obra por realizar de Obama, que por definição ainda não é obra.”
Muito bom.
“Era comparar a chegada de Obama, com uma estratégia própria de mudança mandatada por um processo eleitoral “de massas”, com o papel de Delors como brilhante coordenador de estratégias de terceiros de forma a retirar delas o “máximo denominador comum”.”
Comparar os efeitos da propaganda massiva numa eleição com as pressões subterrâneas dos patrões de Delors sobre os sectores mais nacionalistas em cada uma das nações européias para saber em qual caso o Durão se encaixa parece algo inteligente?
Mas a conclusão a que chega Rui é que Durão é diferente de Delors. Afinal, o Rui acha que o Durão e o Delors estão em posição de dizer não aos patrões da BP,da Shell, da Thyssen e da ABB. Ainda bem que a criminologia ainda não seguiu o caminho dessa história da qual Rui é um expoente menor. Se assim fosse, não havia ninguém nas cadeias.
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“só leio o Le Monde, o Times e a New York Review of Books (e os extractos do Público e do CM publicados aqui no Blasfas”
tem piada, eu também leio isso quando se acaba a assinatura do renova
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# 14 o que só demonstra o seu ecletismo e imparcialidade, além de um certo lado rústico bastante apreciável.
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