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29-03-1809

29 Março, 2009

«(…) Às 3 da manhã de 29 [de Março] tocou o sino a rebate;  e entre as 5 e as 6 atacou o inimigo com a artilharia;  assestando algumas peças contra S. Francisco, matando algumas pessoas na casa da guarda; mais para a esquerda , atiraram os Franceses com algumas granadas á linha, e isto pôs as ordenanças em confusão, e estas espalharam o terror por toda a linha. Entre as 7 e as 8, era geral  a retirada, e os fugitivos se recolhiam á cidade seguidos de muito perto pelos Franceses. Não vi mais o General Parreiras; e soube depois que ás 7 horas passara  a ponte e fora com o Exmo Bispo. Não se fazendo resistência alguma na cidade;  nem havendo preparativos para defesa, uma partida da Legião, que vinha das baterias, e alguns soldados ingleses, capitaneados pelo Major Domingos Bernardino, se portaram com grandessíssima  valentia; este oficial ficou levemente ferido e teve o seu cavalo morto debaixo de si. O General deu ordem para que fosse cortada a ponte, que conduz a Vila nova;  mas isto só se executou em parte, e ao depois, quando começou a retirada, e o povo queria todo passar pela ponte, se tornaram a por os pontões que se haviam retirado. Mal poderia exprimir a desordem e horríveis cenas, que  vi, e posso dizer que centos destes desgraçados foram mortos no aperto, principalmente mulheres e crianças, e pessoas de inferior condição. Parece-me que os Franceses tinham bons guias, e escolheram donde faziam fogo aos botes, que atravessavam o rio com gente. Avançaram à rua das Flores e rua Nova, onde uma partida da Legião se lhes opôs por algum tempo, e fez grande execução principalmente entre a cavalaria, mas sofreu muito, e viu-se obrigada a guarnecer o posto do mercado do peixe, e por fim cedeu á multidão do inimigo. Tomaram os Franceses posse da ponte, e havia nesse lugar duas peças debaixo do arco, os artilheiros fizeram fogo duas vezes; eu e o Major C – persuadidos de que tínhamos cumprido o nosso dever, cruzamos o rio n’um pequeno bote, por baixo de pesado fogo do inimigo;  deixamos os nossos cavalos. Indo para o Monte da Serra achei uma peça de seis, que atirava sem fazer bem algum, os que a manobravam não quiseram atender ás nossas representações, e mataram mais Portugueses do que Franceses. Tratei agora de retirar-me, estando certo que os Franceses ali chegariam em breve tempo. Eu e o Major marchamos a pé 3 léguas, no caminho de Ovar, onde me embarquei , e gastei 24 horas até Aveiro. Sou obrigado a dizer a V. Exa que o povo, nesta infeliz retirada, me mostrou o maior respeito e atenção.(…)»

 Carta de um oficial inglês, datada de Coimbra, 2 de Abril de 1809, in «Correio Braziliense ou Armazém Literário», Vol. II, Nº12, Londres, Maio 1809;

15 comentários leave one →
  1. o sátiro's avatar
    29 Março, 2009 15:40

    excelente pesquisa e transcrição oportuna. Afinal, parece q os ingleses nos dão ajudas importantes em momentos decisivos.

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  2. .'s avatar
    29 Março, 2009 15:47

    No Fripór deram uma grande ajuda às contas bancárias de alguns

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  3. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    29 Março, 2009 16:21

    convinha contar o resto da história (depois tivemos de correr com os Ingleses que além disso nos fizeram ultimatos anos mais tarde)

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  4. José Manuel Santos Ferreira's avatar
    José Manuel Santos Ferreira permalink
    29 Março, 2009 16:49

    Gostei

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  5. LUSITÂNEA's avatar
    LUSITÂNEA permalink
    29 Março, 2009 16:57

    Já naquela altura havia os adeptos dos “bons alunos”.Uns pelos franceses, outros pelos ingleses.E principalmente todos a julgar que aquilo nunca aconteceria.Que o mundo viveria em paz e haveria concordia entre todos os povos.Como diria o Camões “não cuidaram”.Tal como hoje.Os pacifistas desarmaram.Estamos portanto a caminho duma cena semelhante.Só que hoje já não temos portos a abrir como paga a quem lute por nós…

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  6. CAA's avatar
    29 Março, 2009 17:24

    O ‘príncipe’ fugiu corajosamente para o Brasil e deu ordens para ninguém resistir a Junot. Nas invasões seguintes muitos dirigentes pactuaram com os franceses.

    A resistência foi do povo, enquadrada pelos ingleses – um ‘modelo de desenvolvimento’ que resultou…

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  7. MJRB's avatar
    29 Março, 2009 17:49

    Terão sido esses momentos, os promórdios para a resistente, Invicta e Leal Cidade do Porto !?!

    Abraço especial para os portuenses, nesta ocasião comemorativa.

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  8. Desconhecida's avatar
    Ant O Opinocrata permalink
    29 Março, 2009 17:52

    o morbidamente irónico neste episódio é que ainda bem que foi no Porto. Tivesse isto acontecido em Lisboa e gastar-se-iam hoje milhões em comemorações.

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  9. MJRB's avatar
    29 Março, 2009 18:01

    Ant O Opinocrata,

    Para ganharem uns valentes cobres por ocasião do Centenário da Implantação da República, Vc nem imagina o “sangue” que já corre entre gentes da cultura, para terem um “projecto” apoiado…

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  10. Gabriel Silva's avatar
    Gabriel Silva permalink*
    29 Março, 2009 18:24

    A quem se interessa:
    A cidade Vigo também comemora a sua libertação, liderada pelo português Tenente Almeida
    http://www.farodevigo.es/secciones/noticia.jsp?pRef=2009032900_2_311185__Gran-Vigo-diablo-napoleonico-rendido-humillado-puerta-Gamboa

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  11. Gonçalo Marques's avatar
    29 Março, 2009 19:02

    Os Portuenses tiveram, ontem e hoje, ocasião de viver uma atmosfera cultural de grande nível, que espero se repita ao longo do ano e em ocasiões “menos evocativas”.

    Ontem tivemos no Coliseu o magnífico “Portugal: Poema Coral Sinfónico”, composto pelo Cónego Ferreira dos Santos (por expressa encomenda da CMP). Uma sala em que 700 artistas (entre músicos e coralistas) fizeram os presentes viver um momento de ascese patriótica e pensar que a tragédia pode, muitas vezes, mostrar a fibra e a grandeza de um povo.

    E agora mesmo, pelas 16h, quem esteve na Sé teve ocasião de ouvir o “Requiem”, de João Domingos Bomtempo na missa presidida pelo Sr. D. Manuel Clemente. Sulime e magnífico o “casamento melódico” entre Coro da Sé, Orquestra da ESMAE, Acústica Fabulosa e sublime direcção de António Saiote e Eugénio Amorim.

    As datas não podem ser um pretexto para fazer cultura. A Cultura deve ser como o ar: deve ser respirada quotidianamente!

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  12. Desconhecida's avatar
    O puto novo no bairro permalink
    30 Março, 2009 12:30

    Excelente relato! Umas das frases mais significativas é “parece que os franceses tinham bons guias.” Deviam ter. O exército napoleónico, além de bons mapas, tinha excelentes scouts e recrutava-os, a peso de ouro, nos nativos.
    Além de que em Portugal, nessa altura havia o “partido dos franceses” constituído sobretudo pela emergente burguesia.

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  13. Desconhecida's avatar
    O puto novo no bairro permalink
    30 Março, 2009 12:31

    Ou seja nessa tragédia há mãozinha nacional explícita, e provavelmente local.

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  14. Desconhecida's avatar
    dói muito? isso passa permalink
    1 Abril, 2009 08:05

    Se a cidade caiu, o povo fugiu e os franceses venceram porque razão se referem a ela como “invicta”?

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  15. Piscoiso's avatar
    1 Abril, 2009 08:14

    Depois retiraram e deixaram a francezinha.

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