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O que é que tem?

11 Abril, 2009

ou um artigo a ler de Graça Franco:

«Um jovenzito, com pouco mais de seis anos, salta em cima de uma tampa de contentor do lixo sob o olhar embevecido dos companheiros espigadotes que, por perto, lhe admiram a ousadia e, num quase êxtase, lhe veneram as qualidades de líder “vencedor”. Há gente fingindo não ver e a passar adiante, evitando chatices com o pequeno bando de miúdos de rua. O contentor há muito que não abre e fecha com a destreza requerida, mas, surpreendentemente, vai resistindo, com garbo, ao teste de resistência de materiais do pequeno gafanhoto. O metal, amassado de façanhas várias, limita-se a soltar, a espaços, roncos de dor, infernizando os ouvidos da vizinhança. De uma varanda, um adulto intima-o: “Sai já daí! Não vês que isso não se faz?!”. E o pequeno, indiferente a meio de um pinote, dispara desarmante o desafio: “O que é que tem?”. Noutra janela, um velho de pijama ainda balbucia qualquer coisa, mas, vencido, desiste de pôr fim à chinfrineira e regressa pacatamente ao “vale de lençóis”. Há-de cansar-se!
Foi a primeira vez que me confrontei com a doença. E não me esquecerei da carita provocante em desalinho. Podem não acreditar, mas nada há mais inibidor (e estranhamente intimidador…) na comunicação entre dois seres humanos do que constatar, no interlocutor, este alarmante grau de incompreensão do nosso discurso.
Estamos preparados para explicar o complexo, mas não para legitimar a dúvida que temos como óbvia. “O que é que tem?” Lançado assim, na mais pura inocência, produz em nós um silêncio de morte. Gera um nó na garganta. Faz-nos pensar se efectivamente o que dissemos faz sentido ou se a razão não estará no microdelinquente destruidor do mobiliário urbano que, desta forma, esbanja (achamos nós!) ou usufrui (imagina ele!) dos nossos impostos.
Estou em crer que, fossemos nós suecos, finlandeses (vide a quase total ausência do fenómeno de corrupção), e nem um só adulto teria passado indiferente. Que os bens comuns são de todos e o civismo serve-se em biberon. Mas, por cá, é diferente.
“O que é que tem?” Martela-nos nos neurónios. Somos inconscientemente levados a pensar que, se calhar, “não tem nada!”. A interpelação que, segundos antes, nos parecia de uma clareza meridiana pode, afinal, dever-se, em rigor, apenas ao nosso mau feitio, ao nosso irredutível conservadorismo social, que nos impele a coarctar a liberdade de movimentos do interlocutor, precipitando-nos em julgamentos de carácter. Ora, em Portugal, como se sabe, todos julgamos tudo, mas há uma coisa sagrada que ninguém, em caso algum, pretende julgar: o carácter. Seja ele de quem for.
O carácter é, aliás, visto como uma qualidade absolutamente indiferente para o exercício de qualquer tipo de funções: administradores, banqueiros, ministros, presidentes de câmaras, dos governos regionais, do Conselho ou da República. Se há coisa que não interessa nada são avaliações de carácter. Interessa-nos o que lêem, o que vestem, o que comem, mas jamais nos interessa o respectivo carácter.
É certo que o povo continua, na sua simplicidade, a distinguir os homens entre os que são “bons” ou “maus carácteres”. Mas isso é coisa de gente iletrada.
A cena que descrevi passou-se, vai para vinte anos, nos subúrbios da cidade. Num bairro tranquilo, onde a frequência dos caixotes do lixo mostrava à exaustão que haveria de mostrar-se problemático. Já é. Fugi a tempo para o centro da cidade e perdi-lhe o rasto. Voltei lá há semanas. Os meninos gafanhotos cresceram. Metem medo. Vagueiam, em pequenos grupos ao acaso. Espreitam-nos das esquinas.
Dizem-me que o cenário é igual à semana. Os media relatam os confrontos frequentes entre grupos rivais. A estação, onde antes apanhava o comboio para Lisboa, é agora palco quase diário de desacatos.
Durante anos, achei que a síndrome (OQEQT) era uma espécie de vírus social. Desagregador, mas limitado às chamadas populações de risco. Mas não é. Lembro-me desta cena real sempre que me confronto com o estado da actual da nossa política. Valeria a pena estudar os mecanismos de disseminação do vírus e os seus efeitos de contágio. Hoje ataca todas as classes sociais, grupos profissionais, estruturas partidárias, magistraturas. A crise internacional mostra, aliás, que não se trata de uma simples epidemia nacional, mas há risco de verdadeira pandemia. Há mesmo já toda uma geração de políticos nacionais e estrangeiros afectados.
Berlusconi, por exemplo, teve ainda esta semana uma crise pública da doença na sua variante mais perigosa NVQEOM (não vejo qual é o mal?) quando o alertaram para o facto de a população de L’Aquila se ter sentido indignada com a comparação, feita horas antes, do campo de desalojados a um camping de fim-de-semana, onde haveria de desfrutar do facto de se ter “tudo o que é possível disponível: abrigo, assistência médica, refeições quentes, etc…”.
Mas, por cá, os exemplos são de uma frequência alucinante. Tente-se perguntar aos autarcas de Braga, que por unanimidade votaram a nomeação de Domingos Névoa, condenado por corrupção, para presidente de uma empresa municipal, como foi possível a nomeação, e a probabilidade de assistirmos à mesma unanimidade na resposta “o que é que tem?” será de 100 por cento.
Lopes da Mota? Almoços e conversas que talvez fosse razoável não ter? NVQEOM.
Para quem não conheça a doença, o QEQT é um vírus. O principal sintoma é de, perante uma pergunta óbvia para o interlocutor, o doente não conseguir balbuciar mais do que uma variante simples da expressão “o que é que tem?”, por incapacidade de descodificar o porquê do respectivo conteúdo. A doença é genuína e nunca o perguntador falseia o seu espanto. Quem sofre do QEQT, não é um falsário a fazer-se de ingénuo. Não é um tratante a fingir-se de sonso. É simplesmente alguém que, no pico da doença, não é genuinamente capaz de discernir o cerne da questão. Não entende o ponto. De tal forma lhe é estranha a lógica mais corrente, o raciocínio mais normal. E ainda que a pergunta lhe seja colocada, por todo o mundo, e em uníssono, ele não conseguirá ver nela mais do que uma gigantesca ameaça, uma cabala de todos contra si. Nestes casos, o povo comenta que o doente “deixa de ter vergonha na cara!”, porque é comum ouvi-los dizer, com desfaçatez, em público o que não seria suposto assumirem sequer em privado. Mas a verdade é que a vergonha não lhes abandona apenas a cara, pode subitamente esvair-se do corpo todo, da toga, do uniforme, do fato e gravata, da própria gravata. É por isso que há tantos crimes cometidos por colarinhos brancos em que só o colarinho vai preso.
» PÚBLICO

25 comentários leave one →
  1. testiculatus's avatar
    testiculatus permalink
    11 Abril, 2009 08:33

    para A. J. Jardim portugal está entregue a um bando.
    os outros bandos são gente menor sem acesso a negociatas
    e a protecção legislativa e policial

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  2. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 09:31

    Actas da Unidade de Missão para a Reforma Penal:
    http://www.inverbis.net/opiniao/actas-umrp.html

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  3. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 09:42

    Então e o que é que tem alguém opinar e dizer de mal de pessoas que nem conhece, a e se colocar aos pinotes nos caixotes de lixo dos outros para os deitar abaixo e humilhar, sem quere saber.

    Qual a diferença entre os miudos aos saltos no caixote de lixo e os opinadores dos jornais?

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  4. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 09:56

    E além do mais todos os dias há desacatos nos jornalistas e opinadores de jornais e ninguém faz nada. Parecem putos aos saltos sempre a bater nos mesmos, como se fossem os reis da verdade absoluto e os unicos do mundo que possum a razão toda. São os donos do mundo que destroem os bens de todos e ficam impunes.

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  5. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 11:18

    e foi preciso um lençol daqueles para ir parar ao lmota. o jbarreiros só tem aquela folha. já agora, o névoaparks não deve ser grande coisa, mas cheira-me que deve ser melhor que os que o acusam.

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  6. Desconhecida's avatar
    José permalink
    11 Abril, 2009 11:38

    Helena Matos:

    O fenómeno tem um nome que ISCTE entende mas não integra nos seus quadros: anomia. É palavra de esquerda, da sociologia de Durkheim.

    A história do contentor ( que leio melhor aqui do que no jornal, curiosamente), é bem apanhada. Tal como a que presenciei há uns tempos numa escada rolante: uns putos pré-adolescentes a bloquear de propósito a escada, impedindo a mesma de subir. Só não houve estalo na hora porque eram vários…

    O que faz falta é estalos, mesmo virtuais. A violência do castigo, mesmo sem ser físico, é o melhor antídoto para esta anomia.
    A penalização das condutas é necessária, através da simplificação dos actos processuais e não o seu contrário, como acontece.

    A despenalização prática das mesmas tem autorias conhecidas: os que foram perseguidos no tempo da ditadura, abominam repressões de toda a ordem, principalmente as que lhes tolhem os movimentos para se apoderarem do que é de todos.

    O colarinho preso deixa o dono de fora

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  7. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 11:45

    Os putos pre-adolescentes a bloquear a escada? Tal e qual… esses são assim tipo aqueles a dizer mal do Magalhães aos saltos para tudo destruir, ou a dizer dos emails dos ctt.. ou a … tudo bloquear para nada funcionar.

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  8. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 12:08

    Só não houve estalo na hora porque eram vários…
    porque tivestes medo de levar porrada? e agora vens para aqui fazer queixinhas. podias ter chamado a polícia.

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  9. Desconhecida's avatar
    José permalink
    11 Abril, 2009 12:13

    Olha, na verdade foi porque o responsável fugiu imediatamente a ser interpelado do alto da escada. E se lá estivesses no grupo comias também.

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  10. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 12:35

    #9 – com medo de ti e do magnum .44″ da olá.

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  11. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 12:44

    esqueci-me de dizer, eu também sou muita mau. vai tudo à chapada, ao pontapé e às vezes bato-lhes com o diploma do cej na cabeça, mas só em último caso.

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  12. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 12:55

    “o responsável fugiu imediatamente”
    então é irresponsável. anda uma mãe a criar um magistrado para isto.

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  13. professora's avatar
    11 Abril, 2009 14:21

    Muitos professores (ainda) estão a tentar segurar a barra dentro de portas, leia-se Escolas. Daí que ainda se encontra sob algum controle a marginalidade social. Mas que ninguém duvide que será por pouco tempo. Os professores estão fatos de avisar a população. Ninguém lhes liga. Já estão fartos, cansados.

    Vai dar barraca social da grossa.
    Ninguém duvide.

    Já agora. A quem é que a sociedade vai pedir explicações? Ao trio da 5 de Outubro?
    A responsabilidade, meus senhores, é da população que permitiu (e até aplaudiu) que 3 loucos tivessem zurzido nos agentes educativos – os professores.
    Na sua autoridade pedagógica.

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  14. kruzeskanhoto's avatar
    11 Abril, 2009 14:48

    E se um dia desatarmos todos a matar-nos uns aos outros admirem-se…

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  15. professora's avatar
    11 Abril, 2009 14:54

    Adenda. Muitos professores embarcam em serem desautorizados para não terem chatices… Resta uma minoria mais consciente que está a chamar a atenção para o problema gravíssimo que daqui vai resultar.

    Quem os ouve?

    Dentro de portas das escolas são constantemente mal vistos, até perseguidos. Fora de portas ninguém os ouve, com raras e honrosas excepções.

    A questão do Ensino não é uma questão de governo ou de Estado. É uma questão de cidadania, da sociedade civil.
    Ora, a sociedade divil mais instruída tem sido, regra geral, a inimiga número um dos professores mais conscientes e lutadores.

    Muito triste. Um país muito feio.

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  16. Desconhecida's avatar
    José permalink
    11 Abril, 2009 15:08

    Há um professor de uma escola de Viana do Castelo, chamado Luís Braga que teve um abaixo-assinado na Rede, para obrigar os poderes públicos do Parlamento a legislarem no sentido de resolverem melhor o problema da responsabilidade das famílias nos alunos enquanto tal.

    Recolheu mais de doze mil assinaturas. E merece atenção.

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  17. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    11 Abril, 2009 15:32

    Recolheu mais de doze mil assinaturas?
    O que é que tem?

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  18. per caso's avatar
    per caso permalink
    11 Abril, 2009 16:17

    Eh, dispois, a pingar do caixote, o jornal só pede um isqueiro, quem tem um squeiro? A nha mãe vê-se à rasca pà cender u lumi, lá em casa, ih, ka ganda fogueira! E que tem isso? A cambra de Lisboa gasta k sa farta a distribuir pra lá dinheiro!…

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  19. per caso's avatar
    per caso permalink
    11 Abril, 2009 16:21

    Polícia? Eu?!
    Siiim, sou sou, tome lá a pistola.
    E nem já lembrava, cara, mi disculpi, vai? Disculpi…

    A sinhóra ministra é qui manda. Ela e o sinhór primeiro.

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  20. rosarinho's avatar
    rosarinho permalink
    11 Abril, 2009 16:42

    Oiçam atentamente a Professora.
    Esta Professora sabe do que fala.

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  21. Levy's avatar
    11 Abril, 2009 16:44

    15 # Professora

    É tal e qual como diz.

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  22. OLP's avatar
    OLP permalink
    11 Abril, 2009 18:31

    E eu diria mais….
    A tal de sociedade civil apercebendo-se que a maioria dos professores até persegue os colegas que tentam fazer qualquer coisa para melhorar o sistema no sentido da esducaçao e responsabilização, está cheia de razão em estar contra essa maioria que pretende apenas progressões automaticas.

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  23. Desconhecida's avatar
    Zenóbio permalink
    11 Abril, 2009 18:48

    Helena Matos,

    Que mil Candelárias floresçam!

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  24. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    12 Abril, 2009 00:14

    “Já agora. A quem é que a sociedade vai pedir explicações? Ao trio da 5 de Outubro?
    A responsabilidade, meus senhores, é da população que permitiu (e até aplaudiu) que 3 loucos tivessem zurzido nos agentes educativos – os professores.”

    Da população e dos professores que têm votado no centrão.
    Ajoelhou? Agora tem que rezar!

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  25. anti-liberal's avatar
    anti-liberal permalink
    12 Abril, 2009 04:41

    Ou me engano muito ou a maioria desta gente não sabe do que fala.
    Pois, é que a coisa é esta: ESTÁ TUDO DOIDO1
    Podemos completar com: E NÃO SABEM O QUE FAZEM.
    E ainda: COM AS DEVIDAS RARÍSSIMAS EXCEPÇÕES, CLARO…

    Nuno

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