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Artistas desunidos*

24 Julho, 2009

No ano da graça de 2009 um espectáculo gera polémica e terá mesmo estado para ser suspenso, em Portugal, porque o texto critica, pasme-se!, um encenador. Mais precisamente um grupo de actores pegou no texto do manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros e adaptou-o ao século XXI. No lugar de Júlio Dantas está agora Ricardo Pais. Vai daí nasce não um escândalo, coisa que precisa de público, mas na falta dele uma sucessão de declarações e contradeclarações que não sei porquê me lembra as sessões protocolares de cumprimentos no Palácio da Ajuda: o director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Diogo Infante, afirma que já manifestou a sua solidariedade a Ricardo Pais e declara-se consternado. Os responsáveis do Opart, entidade que gere o São Carlos, também estão “consternados”, pois na sua opinião “Ricardo Pais é uma referência na cultura portuguesa” e declaram ainda no PÚBLICO de quarta-feira que “era demasiado tarde para alterar a programação”.
Para ser sincera tenho de dizer que não me interessam muito as razões que levaram estes actores a estabelecer esse paralelo entre Júlio Dantas e Ricardo Pais. O que eu queria mesmo era um pretexto para falar do Dantas e sobretudo desmanchar aquele sorrisinho consensual, género “tão moderninho que eu sou!”, que nasce quando o nome do dito Dantas é pronunciado.
Durante anos o que conheci de Júlio Dantas foi o que dele escreveu Almada Negreiros. Um trabalho sobre o primeiro filme sonoro português, A Severa, fez-me interessar pela figura do tão ridicularizado Dantas.
Não foram as excelentes letras dos fados que me levaram a considerar que talvez o Dantas não fosse apenas o boneco que dele fizera Almada. Foram sim umas cartas. Mais propriamente as cartas que escreveu a um preso de seu nome José Carlos Amador Rebelo. Até ao dia 6 de Fevereiro de 1931, Amador Rebelo era uma figura conhecida nesse meio cultural que anunciava ir revolucionar e organizar o cinema português em moldes modernos. O que o levara a esse mundo foi o seu talento não para o cinema mas sim para arranjar dinheiro. Quando Leitão de Barros avança para a realização do primeiro filme sonoro português, a Sociedade Universal de Super Filmes, produtora da fita, procura Amador Rebelo, que garante boa parte do capital de A Severa. Acontece que desgraçadamente o dinheiro não era de Amador Rebelo mas sim do BNU, onde Amador Rebelo tinha o invejado cargo de inspector-geral e de onde desviara o dinheiro para financiar A Severa. Às onze da noite do dia 6 de Fevereiro de 1931, João Ulrich, então director do BNU, entrou no Torel para apresentar queixa por desfalque contra Amador Rebelo. Desde esse momento a grande preocupação da gente moderna da cultura e do cinema foi desvincular-se desse homem a quem até há uns dias enviavam telegramas pedindo dinheiro para fazerem a sua obra: “A escola Alves Reis, em cuja árvore genealógica entronca José Amador Rebelo, seu jovem e aproveitado discípulo deve ser expropriada e arrasada” – lê-se na revista Cinéfilo escassos dias depois da denúncia do BNU.
Amador Rebelo seria preso e julgado. E é aí, na cadeia, que entra o nome de Júlio Dantas, pois, ao contrário de outros, fossem eles cineastas, escritores ou artistas muito mais modernos, revolucionários e tidos como menos oficiosos, Júlio Dantas não se esquece de Amador Rebelo e escreve-lhe para a cadeia procurando encorajá-lo.
Certamente efeminado e postiço como lhe chamou Almada, vaidoso e egocêntrico como o descreveu pitorescamente Marcelo Caetano, a verdade é que Júlio Dantas é também o intelectual que desempenhou com qualidade os cargos que teve e o homem que não fez de conta que não conhecia um amigo e que, nos anos 20, se opôs ao grupo moderníssimo de radicais que pretendia retirar duma livraria do Chiado exemplares das Canções de António Botto.
Júlio Dantas tem representado convenientemente o papel do intelectual em que literal e historicamente falando é moderno malhar mas a vida (e no caso de Júlio Dantas a própria morte) e a sua teia de compromissos, fraquezas, glórias e princípios é sempre bem mais complexa do que as certezas inscritas nas frases dramaticamente sonoras e frequentemente belas dos manifestos.

*PÚBLICO

20 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    24 Julho, 2009 11:07

    É preciso coragem para fazer uam dessas!

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  2. Francesco's avatar
    Francesco permalink
    24 Julho, 2009 12:04

    “O Dantas cheira mal da boca”

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  3. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    24 Julho, 2009 12:21

    Grande lata que estes senhores têm. Visitem o blogue de crónicas humorísticas sobre a actualidade política:

    interjeicoes.blogspot.com

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  4. Desconhecida's avatar
    TransMont permalink
    24 Julho, 2009 12:44

    Pelo menos reedita-se em diferido Almada.
    Daí a considerar que o pobre do Dantas até era bonzinho, e é injusto ter levado tau tau do Almada – que fez o que Cronos faz a Urano, comer o pai – e reabilitá-lo, vai uma grande distãncia.
    Seja como for polémicas e controversias no país do respeitinho (ou da boçal injúria, seu sósia) são de saudar. Não saímos muito é do plágio, do deja vu.
    Dantesco ainda, e almadino o país. Que ainda não resolveu os complexos modernistas.

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  5. fado alexandrino's avatar
    24 Julho, 2009 13:11

    Também gostei da carta que o doutorado em música, o Nery, publica no Diário de Notícias em desagravo da crónica do António Gonçalves.

    aqui
    e aqui

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  6. MJRB's avatar
    24 Julho, 2009 14:09

    Ricardo Pais tem comido quse tudo, e sempre que tem precisado…
    Qualquer que seja o governo e o ministro da tutela, ele lá está, apoiante e usufruário.

    RPais não é uma ‘vaca sagrada’ do teatro e da cultura em Portugal.
    Adaptaram o Manifesto Anti-Dantas à sanguessuga RPais ! — fizeram muito bem !

    Incrível como Diogo Infante e a OPART criticaram mais ou menos veladamente, a leitura do manifesto…

    N: RPais é um bom encenador.

    Quanto (e ainda) ao Dantas: “Morra o Dantas ! PIM !”

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  7. Piscoiso's avatar
    24 Julho, 2009 14:43

    #6.

    Subscrevo todo o seu comentário, excepto:
    “N: RPais é um bom encenador.”

    PIM!

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  8. MJRB's avatar
    24 Julho, 2009 15:25

    Mr. Piscoiso,

    Não vacilo sequer: RPais é um bom encenador. Em Portugal.
    E considerado na ‘cena teatral’ europeia, ou se quisermos, conhecido/considerado entre os seus gurus — fez por isso; para isso se tem promovido.

    Não tem a ‘dimensão’ de Luís Miguel Cintra, por exemplo, mas a RPais se devem, algumas rupturas estéticas, discursivas, visuais, embora estilisticamente ‘bebidas’ no que grandes encenadores já tinham feito…

    Quando me ocorre o nome RPais, lembro-me sempre do Zeca: “Eles comem tudo…”

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  9. LUSITÂNEA's avatar
    LUSITÂNEA permalink
    24 Julho, 2009 15:29

    Quem foi o verdadeiro artista que disse que a Coreia do Norte era “democrática”?

    Mulher executada por distribuir a Bíblia
    24 | 07 | 2009 10.19H
    A Coreia do Norte executou publicamente uma mulher cristã em Junho por alegadamente ter distribuído a Bíblia, proibida naquele país comunista, denunciaram hoje activistas sul-coreanos.

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  10. Zé Preto's avatar
    24 Julho, 2009 15:30

    O Diogo Infante é tão sensível como o namorado. Estes gays tão muito efeminados!

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  11. Piscoiso's avatar
    24 Julho, 2009 16:02

    #8.
    “…embora estilisticamente ‘bebidas’ no que grandes encenadores já tinham feito…” parece que chegou lá.
    Não chega a ser um criativo, mas um oportunista plagiador.
    PIM…PIM

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  12. MJRB's avatar
    24 Julho, 2009 16:15

    Mr. Piscoiso, 8

    Eu, já ‘lá’ tinha chegado desde finais dos anos 1980’s…

    Mas o Ricardo Pais têm méritos. Um deles: a programação do Teatro Nacional de S.João no Porto, mais as dinâmicas que proporcionou e incentivou. Alguma da melhor contemporaneidade cénica europeia esteve no Porto !
    António Pedro teve enorme importância para uma ruptura teatral no Porto(e em Portugal), excelente e áureo tempo; o FITEI, também; e… Ricardo Pais.

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  13. Desconhecida's avatar
    O puto novo no bairro permalink
    24 Julho, 2009 17:14

    No caso vertente, convem não esquecer a história recente do teatro em Portugal. Trata-se de uma luta entre Capuletos e Montéquios…ou seja, uma querela entre duas “old boys networks” que são duas mafias suaves instaladas, lutando ambas pelo Papado do Teatro. Tal como na política, no teatro há uns que papam todos os lugares, e dão lugar ao fenómeno da onscolesc~encia interminável dos actores. São sempre os mesmos, não porque sejam os melhores, mas porque são os que estão melhor instalados.

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  14. Desconhecida's avatar
    O puto novo no bairro permalink
    24 Julho, 2009 17:15

    Peço desculpa pela gralha, não é evidentemente onscoles^~encia, mas sim obscolescência!

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  15. MJRB's avatar
    24 Julho, 2009 18:57

    O Puto Novo, 13

    Pois.

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  16. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    24 Julho, 2009 21:31

    Subscrevo o #7,
    «“N: RPais é um bom encenador.”

    PIM!»

    Só se souber fazer cenas lá no Mercado do Bolhão. Mas acho que nem isso.

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  17. Desconhecida's avatar
    Diz que permalink
    24 Julho, 2009 21:35

    Eu concordo com o espírito do post.
    O Júlio Dantas é muito melhor que aquilo que os esquerdalhos pensam, se é que estes pensam alguma coisa.
    Comparar Ricardo Pais a Júlio Dantas é um insulto a Júlio Dantas.
    E uma injustiça.

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  18. Desconhecida's avatar
    25 Julho, 2009 13:02

    -18

    Acha mesmo que o Júlio Dantas é melhor do que Almada Negreiros, modernista na hora própria?

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  19. bulimundo's avatar
  20. Desconhecida's avatar
    Dantas do Bolhão permalink
    28 Julho, 2009 03:03

    O que eles queriam era comer tudo! Como sempre. “Morram os Mouros ! PIM !”

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