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O comércio local*

11 Outubro, 2009
Campanha autárquica em que os candidatos não falem extremosamente do comércio local não é certamente campanha autárquica. Provavelmente a única excepção a tal mandamento será a ilha do Corvo mas mesmo assim é melhor não dar o benefício da dúvida. Estas passagens dos candidatos pelos estabelecimentos do dito comércio local e tradicional têm qualquer coisa de romagem de agravados: os comerciantes dizem que o comércio vai mal e os candidatos defendem mais apoios para que passe a ir menos mal. No ar e às vezes nos microfones ficam algumas acusações às grandes superfícies. Enfim temos de reconhecer que nesta matéria todos mentimos um bocadinho: primeiro os comerciantes porque, durante décadas, deram a clientela como garantida e devidamente almofadados pelas baixas rendas que pagam pelos seus estabelecimentos deixaram de se preocupar com a rentabilidade do negócio; depois os clientes que dizem que adoram fazer compras a pé no comércio local mas que na verdade o único local onde se avistam carregados de sacos é no parque de estacionamento das grandes superfícies e por fim os candidatos que o mais que sabem é exigir que o governo, qualquer que ele seja, dê mais apoios ao dito comércio, esquecendo que as autarquias complicam de forma muito assinalável a vida aos comerciantes. Por exemplo, o custo de licenciamento de uma obra pode ser, em algumas autarquias de Portugal, muito superior àquilo que a obra propriamente dita custa. (Existem até autarquias que anunciam aos potenciais interessados em fazer obras que praticam taxas de licenciamento mais elevadas que Lisboa, como se essa carestia correspondesse a um grau invejável de cosmopolitismo.) E não estou a falar da construção de um edifício, embora também aí os custos administrativos pesem cada vez mais nos orçamentos, tal como a Ordem dos Engenheiros tem denunciado. Basta, por exemplo, numa loja do tão amado comércio local querer transformar a área de atendimento ao público integrando-lhe uma parte que até esse momento fazia parte do armazém para que, em muitos municípios, o dito comerciante rapidamente perceba que ou faz as obras clandestinamente ou desiste de as fazer pois as taxas de licenciamento têm um custo exorbitante. Aliás uma das coisas mais irritantes no discurso do amor ao comércio local são as referências às cidades europeias onde existem pequenas e simpáticas lojinhas porta sim porta não. Em boa verdade esquecem-se tais improváveis amantes de dizer que não só em Portugal tais espaços não passariam no crivo da ASAE e doutras actividades de inspecção como a facilidade e rapidez com que nessas  paragens se transformam espaços de habitação em comércio e vice versa pressupõem que tudo aquilo é licenciado a custos e em prazos muito diversos dos praticados em Portugal. Na verdade não é uma questão de dar ou não dar mas sim de não complicar. Por exemplo, acabando este texto a tarde e a más horas já não tenho o supermercado de sempre aqui ao pé de casa porque as exigências duma instalação eléctrica orçada em milhares de euros levou a que os interessados desistissem. E quanto a peixe é melhor ir também desistindo porque a ASAE e a sua fixação no aço inox afugentaram aqueles que se dispunham a transformar uma antiga padaria numa peixaria.
*PÚBLICO
4 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    anti-comuna permalink
    11 Outubro, 2009 11:18

    Parece que o Armstrong está na moda e a entrar no mainstream. Alguns comentadores do Blasfémias parece que apreciam os trabalhos sobre ele.

    Um artigo no mainstream:

    Click to access The-New-Yorker-article.pdf

    anti-comuna

    PM Como curiosidade, o PSI 20 fez os últimos dois lows com 7 PIs. Quem quiser pesquisar padrões deste tipo no mercado português, fica aqui a chamada de atenção.

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  2. fado alexandrino's avatar
    11 Outubro, 2009 11:58

    Outra coisa particularmente irritante é ver os candidatos (todos eles) apanharem um transporte público numa acção de campanha.
    Desta vez até se montaram em bicicletas, e sem corar.

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  3. JP Ribeiro's avatar
    JP Ribeiro permalink
    11 Outubro, 2009 12:07

    Corar porquê? Só cora quem sabe o que é ter vergonha.

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  4. Eduardo F.'s avatar
    Eduardo F. permalink
    11 Outubro, 2009 18:01

    Quando o modelo de financiamento das autarquias for totalmente alterado e o IMI deixar de ser uma receita delas, estará quebrado o mecanismo diabólico que esvazia as cidades de habitantes empurrando-as para as periferias e para os grandes centros comerciais.

    Quando as taxas de licenciamento forem muito mais baixas para as requalificações de edificado do que as referentes a novas construções, os municípios estarão a defender as suas cidades.

    Quando, finalmente, acabarmos com o congelamento das rendas e facilitarmos, de facto, o despejo administrativo daqueles que não cumprem com as suas obrigações, teremos um país melhor.

    E para aqueles que acharem que estas são medidas associais(?), de “terrorismo” cívico, anteciparei a resposta que o Estado, assim o pretendendo, poderá sempre apoiar directamente aqueles que ficassem em dificuldades com estas medidas de política. Sempre será melhor do que continuar a defender a desertificação das cidades e a destruição de património por ruína.

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