Jornais e partidarite – uma questão de mercado?
Um leitor regular de um certo jornal foi visto a ler um outro jornal. Questionado sobre a razão da mudança, respondeu que o seu antigo jornal era adverso em relação ao partido político do qual era simpatizante. Dessa forma, tinha decidido mudar de jornal.
Entre nós existe alguma tradição de os jornais se apresentarem a si próprios como neutros, no que respeita ao confronto político e partidário. Existem outros países nos quais, pelo contrário, a direcção de um jornal poderá não se abster de tomar partido, designadamente em sede de campanha eleitoral, a favor deste ou daquele candidato.
Esta última opção, se pode ser vista por alguns como criticável sob o ponto de vista ético, pode no entanto fazer algum sentido, quando se olha para o problema numa estrita lógica de mercado. A ideia seria aproveitar a “partidarite”, ou seja, captar leitores, e vender mais, em virtude de despertar uma afinidade partidária comum com o leitor – pelo menos, no que respeita à linha editorial principal.
Consegue-se um efeito semelhante colocando colunistas de diversos sectores políticos, mas com um claro predomínio de um dado sector (seja predomínio numérico, seja de nível intelectual). Também na televisão se pode montar um painel em que todos os sectores têm voz, mas o número de vozes de cada sector é significativamente diferente.
Nada disto é novo para os jornais desportivos. Aí, a própria cor utilizada para a folha da capa do jornal permite atingir uma afinidade de uma forma quase instantânea.
A crise económica, associada ao declínio do número de leitores da imprensa escrita paga, pode precipitar alguns jornais para esse tipo de opção. Seria desejável que, se fosse esse o caso, tal opção tivesse um carácter transparente.
José Pedro Lopes Nunes

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