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Conta-corrente duma efeméride*

1 Novembro, 2009

“Isso já acabou, avozinha – disse ele – Agora estão todos metidos numa ratoeira” – Foi assim que, no dia 13 de Agosto de 1961, um jovem agente da polícia da Alemanha de Leste respondeu a uma senhora que, na estação de Friedrichstrasse, se lhe dirigiu perguntando quando partia o próximo comboio para Berlim Ocidental. Nem a senhora nem as centenas de pessoas que se juntavam nos arredores da estação sabiam então que o muro ia cortar linhas de comboio, estradas, redes de esgotos, prédios, ruas… e cercá-los. Como numa ratoeira. O que representou este muro, como foi construído, como alguns escaparam, quem o contestou, quem o defendeu, quem como a velha senhora se confrontou um dia com ele, enfim como foi possível no meio da Europa existir tal coisa que hoje nos parece tão distante é o que se lê no excelente livro “O Muro de Berlim” de Frederik Taylor, editado em Portugal pela Tinta da China. Quase a celebrarem-se os vinte anos da queda do Muro de Berlim convém que se recorde que enquanto o mesmo lá esteve não gerou nas democracias europeias a comoção com que hoje o absurdo da sua presença é assinalado. Sobretudo nos anos 70 os sectores que se tinham como mais críticos em boa parte do mundo ocidental fizeram questão de considerar que tão má era a democracia burguesa de Adenauer ou Brandt quanto o regime que estava do lado de lá do muro. Aliás esta efeméride pode ter também o mérito de fazer sair do baú muita da literatura de viagens produzida por centenas de intelectuais ocidentais após viagens à desaparecida RDA. Para muitos deles o muro foi motivo de viva indignação mas para outros, provavelmente a maioria, o Muro de Berlim foi pouco mais que uma mancha inconveniente na paisagem. Para perceber o que foram essas contradições nada como ler quem escreve bem e portanto recuperar o “Conta-Corrente” de Vergílio Ferreira o que dá direito não só a uma descrição deliciosa, no segundo volume, de uma viagem feita por um grupo de intelectuais portugueses, em 1977, às duas Alemanhas como ainda a considerandos actualíssimos sobre a condição dos professores.

*PÚBLICO

10 comentários leave one →
  1. Euroliberal's avatar
    Euroliberal permalink
    1 Novembro, 2009 10:30

    Exacto. Mas deixe lá os imtelectualóides vermelhuscos que se extasiavam com o Muro da Vergonha. Quase já não existem, é coisa do passado.
    Em contrapartida, muito deses antigos estalinistas e maoistas passaram a extasiar-se com o Novo Muro com que o “povo eleito” nazi-sionista empareda os sobreviventes dos massacres da Nakba, aqueles a quem roubou tudo, casas, terras, água e sobretudo dignidade. Decerto convirá que esses intelectulóides são tão desprezíveis como os que justificavam o muro de Berlim, oder ?

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  2. Desconhecida's avatar
    anónimo permalink
    1 Novembro, 2009 10:53

    valas, muros, arame farpado & outras electrificações natalícias na fronterira usa/méxico devem ter sido construídas com restos da bola de berlin para proteger os mexicanos dos comunas americanos.

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  3. Desconhecida's avatar
    1 Novembro, 2009 12:20

    Ainda tive a “felicidade” de conhecer a defunta “República Democrática”, embora com a visão de um adolescente. Do que me lembro é que o ambiente era estranho (muito a “preto e branco”), as pessoas tinham uma aparência estranha (saídas de um baú, dado o vestuário) e comportavam-se de forma esquisita (esquisito no sentido português, claro), como se fossem um bocado telecomandadas…

    Agora reconheço que o ambiente era um bocado de penitenciária, sem os gangs e o tráfico.

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  4. Desconhecida's avatar
    anónimo permalink
    1 Novembro, 2009 12:54

    #4 – se calhar o problema era teu. podias ter aproveitado para falar com os ddrs e beber uns copos com os gajos, terias quebrado a barreira da cor e do comportamento.

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  5. Desconhecida's avatar
    1 Novembro, 2009 15:11

    #4 Ó pá, tu deves ser um bocado bechorras… Arranja um nick e ensina alemão à gente, pá, para quando for à Alemanha entabular conversação com algum DDR que ainda exista (acho que há uns saudosistas).

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  6. Eduardo F.'s avatar
    Eduardo F. permalink
    1 Novembro, 2009 16:38

    4.anónimo disse
    1 Novembro, 2009 às 12:54 pm

    Este conhecido Anónimo, assíduo frequentador deste blog, é um desses saudosistas.

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  7. Eduardo F.'s avatar
    Eduardo F. permalink
    1 Novembro, 2009 16:49

    Um grande bem-haja à Helena Matos pela invocação do grande Vergílio Ferreira e da sua injustamente esquecida “Conta Corrente” que tão bem desmascara os Óscares cá do burgo (e fora dele).

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  8. Desconhecida's avatar
    anónimo permalink
    1 Novembro, 2009 17:20

    acabou-se o welcome to a brave new world , o shutlle e o panam lounge

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  9. Bom Senso's avatar
    Bom Senso permalink
    2 Novembro, 2009 04:59

    .

    Eu só gostava de entender como há gente que aplaude associações a países que vivem desgraçadamente sob regiméns socialistas ou, se preferirem, comunistas, que sofrem desalmadamente.
    É que, a coisa é esta, apoiam-se tais associações com o intuito de socorrer os povos que estão sob a pata dessas ditaduras para, afinal, as organizações não governamentais (ONG) ajudarem os carrascos.
    E ainda há muita, muita gente que não viu que está a ser enganada bem à vista de todos.

    Nuno

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  10. Desconhecida's avatar
    Amonino permalink
    2 Novembro, 2009 07:55

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    A queda do Muro de Berlim, além de ter derrubado o Comunismo e a Guerra Fria,
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    estilhaçou também a variante de Capitalismo tradicional, e consequentes forma de Democracia e organizações Partidárias que se instalaram, dominaram e prosperaram abrigados no chapeu de chuva da Guerra Fria/Muro de Berlim.
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    20 anos depois, o Vazio e a Crise vêm confirmar o que nunguém acreditava ou não valia a pena falar.
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