Saltar para o conteúdo

Crónica ‘xi-coração’ contra os linchamentos, as decapitações e os homicídios*

27 Novembro, 2009

Armando Vara processou Miguel Sousa Tavares e Henrique Monteiro. Noronha do Nascimento processou José Manuel Fernandes e, assinale-se o detalhe, a própria mulher deste. José Sócrates processou João Miguel Tavares. A FENPROF processou Emídio Rangel. Porquê? Porque não gostaram da opinião que os segundos produziram sobre eles. Simultaneamente não há dia em que alguém próximo do Governo ou a ele pertencendo não venha acusar os jornalistas de tentativa de homicídio do carácter de José Sócrates  ou de pretenderem linchar e decapitar o primeiro-ministro e por arrastamento o PS.  Por fim, uma plêiade de pensadores que integra o bastonário da Ordem dos Advogados Marinho Pinto e Mário Soares  garante que o maior problema da justiça em Portugal são as violação do segredo de justiça. O ministro Jorge Lacão também assim pensa e, a par do líder parlamentar do PS, Francisco Assis, promete mais meios e legislação mais dura para travar  o tal  “mais grave problema da justiça portuguesa”, a saber as fugas de informação em que depois se sustentam os ditos linchamentos Não existissem comentadores soezes e torpes fugas ao segredo de justiça e o país não tinha problema algum!
Assim postas as coisas creio ter chegado o tempo de inaugurarmos um novo estilo de opinião. Ou pelo menos de eu inagurar esse novo estilo pois não só, perante o ar nédio e bem apessoado dos arguidos, me parece que as expressões linchado ou decapitado são de todo anedóticas mas sobretudo porque como cumpro as minhas obrigações fiscais não me sobra dinheiro para quase mais nada e muito menos para andar anos e anos em bolandas com a Justiça, para no fim acabar com a minha razão reconhecida mas naturalmente arruinada. Assim, como a liberdade de pensamento não paga indemnizações, passarei a rechear as minhas crónicas com “montes de xi-corações” dedicados ao primeiro-ministro na expectativa de que ele me mande um mail cheio de risonhos a explicar o processo da Cova da Beira e a  diferença entre os números do Orçamento e do emprego apresentados pelo seu Governo durante a campanha eleitoral e os números que agora nos caíram em cima.


Tenho contudo de admitir que este estilo causará engulhos a alguns colunistas preconceituosos que temem exprimir-se  neste linguarejar cheio de fofura. Portanto, e até porque à cautela tenho de fazer um pecúlio para indemnizações  futuras, desde já disponibilizo os meus serviços aos colunistas que queiram fazer amigos e não opinião fornecendo-lhes uns textinhos que farão os encantos de quem neles é referido. Por exemplo, como dar conta do caso Face Oculta sem ofender ninguém? Nada mais fácil. Tendo em conta as tradições republicanas da cidade onde decorre o inquérito recomendo um estilo inspirado na I República onde em vez de se falar de figuras como arguidos e crimes que só existem por causa das fugas ao segredo de Justiça, se escreveria: “O nosso prezado amigo foi a Aveiro em vilegiatura. Naquela localidade o seu intenso patriotismo a par do zelo que põe no engrandecimento da Pátria leva-o a contactar estrenuamente com os mais distintos membros da Veneza portuguesa, como os digníssimos mandatários do ministério Público. Figuras eminentes como o senhor Procurador Geral da República e o ilustríssimo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, apesar do trabalho insano em prol da República em que gastam a sua saúde, têm manifestado vontade de acompanhar esse labor que em Aveiro tem lugar e que certamente ficará como uma página de ouro nos anais da História pátria.” Bonito não é? E não ofende ninguém como diria o queirosiano poeta Alencar. Admito que algumas pessoas prefiram um estilo mais combativo sobretudo se tiverem sido detidas. Para este grupo basta recuar a Maio de 1975 e aproveitar o que se escreveu em torno do julgamento no Tribunal do Barreiro de um militante da ARA (organização terrorista afecta ao PCP) que tinha como então se dizia “desapossado” o Banco Totta-Aliança de treze mil contos: “Um revolucionário deve julgar, não ser julgado.” – afirmou uma testemunha do dito “desapossador” do banco e o próprio juiz ditou logo ali a sentença em que não só absolveu como pediu desculpa àquele combatente que se recusava tratar como réu: “Em nome do Tribunal quero dizer-lhe que lamento profundamente este mês que passou na prisão” para em seguida se levantar, tirar o réu do respectivo banco e abraçá-lo. Tendo em conta que o PREC já lá vai onde está revolucionário pode escrever-se sucateiro (afinal um consequente representante do extinto proletariado), banqueiro ou o que for necessário. E assim acabava-se duma penada com aquelas referências desagradáveis a burlas e tráficos de influência. Tínhamos desapossadores.

Para aqueles que não se sentem à vontade com estas linguagens tão marcadamente ideológicas também tenho solução. Por exemplo, para escrever sobre a FENPROF em vez de, como fez  Emídio Rangel se recorrer a comparações com os hooligans- estes últimos podem ser umas bestas ma até agora não pediram idemnizações a ninguém -,  pode e deve adoptar-se um estilo didáctico. E que mais didáctico pode haver para falar da FENPROF  do que a saudosa redacção da vaca que milhares de professores ensinaram às criancinhas? Digam lá quem se ofende com uma crónica que comece assim: “Os sindicatos são muito úteis e muito nossos amigos. Dão-nos muita animação nas ruas e garantem emprego para toda a vida aos seus dirigentes…”? Enfim, creio já ter demonstrado que tenho um texto para cada ocasião e que se seguirem os meus conselhos ainda se ouvirá neste país “colunista amigo, o arguido está contigo”. Paz e Fraternidade a Bem da Nação, com “bjokas amigas” e saudações revolucionárias em prol da cidadania,
Helena Matos, uma colunista ao dispor

*PÚBLICO

8 comentários leave one →
  1. balde de cal's avatar
    balde de cal permalink
    27 Novembro, 2009 08:49

    os processos dos governantes e afins
    vão entupir os tribunais

    ainda vem mais estrume

    Gostar

  2. Cfe's avatar
    Cfe permalink
    27 Novembro, 2009 09:49

    Um homem chega a casa e encontra sua mulher com outro no confortabilissímo sofá de sua sala.

    Depois de acesa discussão com a mulher a chorar e ir para o quarto, não antes do amante levantar-se a correr antes que lhe acontecesse algo de mal, o enganado tomou um decisão:

    Retirou o sofá de sua casa e passaram todos a sentar em cadeiras.

    Gostar

  3. Desconhecida's avatar
    Confrade permalink
    27 Novembro, 2009 10:30

    Oh Lena, cá beijinho,cá beijinho :)))

    Gostar

  4. Desconhecida's avatar
    José permalink
    27 Novembro, 2009 11:06

    O SOl noticia hoje que a 10ª Vara Cível condenou José Manuel Fernandes ( absolvendo a mulher deste, também demandada ) no processo cível instaurado por Noronha do Nascimento. Em vez dos 150 mil euros pedidos, o tribunal reduziu para 30 mil ( as custas do decaimento vão ser interessantes).

    Veremos o que diz a Relação daqui a dois anos. E o STJ daqui a seis. E o tribunal Europeu dos Direitos do Homem daqui a nove.

    Gostar

  5. Pedro Braz Teixeira's avatar
    27 Novembro, 2009 13:56

    EXCELENTE!

    Gostar

  6. portuguêsdebosta's avatar
    portuguêsdebosta permalink
    27 Novembro, 2009 16:59

    <Todo o mundo processa todo o mundo pois no fundo todo o mundo tem telhados de vidro. Ou alguém no seu bom senso acredita piamente que existe segredo de justiça e que os politicos não são corruptos ou que os juízes nãio se vendem? Se até o vara se vendeu por meia dúzia de robalos congelados e um pão de lÓ!…

    Gostar

  7. Licas's avatar
    Licas permalink
    29 Novembro, 2009 20:11

    e a camisola se um fuebolista do clube lá da terra, para o se filho!

    Gostar

  8. grouchomarx's avatar
    grouchomarx permalink
    1 Dezembro, 2009 00:14

    Uma pergunta:

    O que é que a mulher do JMF tem a ver ocxm o assunto para ter sido também acusada?

    obgd,

    grouchomarx

    Gostar

Deixe uma resposta para grouchomarx Cancelar resposta