Tempo de náusea.
1. A náusea é uma sensação de enjoo, algo que nos incomoda e que não conseguimos controlar. A náusea é desagradável, é algo que sentimos como se tivesse uma origem visceral. A náusea pode ser seguida pelo vómito, um reflexo de expulsão que pode fornecer uma sensação de alívio, de esvaziamento de um conteúdo incómodo. Por vezes ingerimos voluntariamente algo que verificamos ulteriormente que nos faz mal. Sentimos náuseas, e podemos vomitar – o vómito pode fornecer uma sensação de libertação.
2. A História estará provavelmente cheia de pessoas nauseadas. Se pensarmos na Rússia comunista, na Alemanha nacional-socialista e em tantos outros exemplos, podemos imaginar a quantidade de náuseas que devem ter sido sentidas. Muitos, contudo, não chegaram a ver o “vómito”, a expulsão do material incómodo. Os que morreram em Auschwitz ou no Gulag, os que arrastaram pedras para a construção das pirâmides, todos os que sofreram injustamente e pereceram, não puderam testemunhar o “vómito”. Morreram sem saber qual o curso da História – essa, não sendo a mais injusta, é a morte mais penosa.
3. Será esta a nossa situação actual? Estaremos nós no tempo da náusea? Algumas pessoas, pelo menos, poderão estar. Não sabem, contudo, quanto mais tempo a náusea vai durar. Desconhecem se vai ou não haver expulsão, e quando terá lugar. Desconhecem o que vão ingerir em substituição do que será expulso. É isso que torna a sua vida tão custosa.
4. A democracia não é uma solução perfeita para a náusea. Só por si, não chega. Não é um sistema ideal, é apenas “the worst form of government, with the exception of all others” (W. Churchill). Mas a democracia traz-nos responsabilidades acrescidas – somos, ainda que em pequena medida, co-responsáveis, mesmo os que não votam.
5. A liberdade, que acompanha a democracia, é absolutamente fundamental. É preferível a náusea, com liberdade, do que tentar acabar com a náusea mas com o custo da liberdade. O desafio é portanto acabar com a náusea, mantendo a liberdade.
José Pedro Lopes Nunes

Os comentários estão fechados.