Os estético-daí*
A liderança de José Sócrates produziu não um movimento político ou sequer um grupo que se identifique politicamente com ele mas sim um movimento que passo a designar pelos estético-daí.
Os estético-daí não têm propriamente ideias e muito menos ideologia. Como identificá-los então? Pela observação. Não daquela observação a que os ornitólogos sujeitam as aves mas uma observação tecnicamente muito mais simples: imagine-se o caso mais bizarro, um daqueles casos que até Sócrates se ter tornado primeiro-ministro entendíamos ser impossível não só de acontecer mas sobretudo de ser defensável. Depois de devidamente imaginado, é só engolir a indignação e dizer, como se não fosse nada: E daí?
Ao que tem sido possível observar em Portugal, após o primeiro “E daí?” não se pára mais. Cada “E daí?” é um patamar moral que se desce em relação ao anterior. O vice-presidente da bancada parlamentar do PS, Ricardo Rodrigues, deu uma entrevista na Assembleia da República (AR) e, a dado momento, levantou-se e levou os gravadores dos jornalistas, tentando em seguida que a revista à qual pertenciam os jornalistas não revelasse o caso. E daí? Daí soube-se que Ricardo Rodrigues foi eleito pela AR para o Conselho de Segurança Interna. Daí Francisco Assis, líder parlamentar do PS, e o deputado Sérgio Sousa Pinto compareceram ao lado de Ricardo Rodrigues numa conferência em que este acusou os jornalistas de pressões intoleráveis. Daí, finalmente, os deputados do PS, acompanhados pelo PCP e pelo BE, presentes na Comissão de Ética, entenderam que o comportamento de Ricardo Rodriges durante a referida entrevista não cabe nas competências de uma comissão parlamentar e inviabilizaram a discussão deste caso no Parlamento. Como se vê, cada “E daí?” implica que, no dia seguinte ou até escassas horas depois, outros “E daí?” sejam pronunciados pois um “E daí?” nunca aparece só e precede outros ainda mais graves.
Os estético-daí podem defender hoje uma coisa e amanhã o seu contrário. A única coisa que não toleram que lhes digam é que não são modernos. Sendo que ser moderno pode passar por apoiar com unhas e dentes muito investimento público ou promover qualquer uma daquelas medidas de engenharia social que não resolve problema algum mas que cria vários: veja-se o que aconteceu com o caso dos alunos deficientes que, em nome da igualdade, deixaram de poder contar com escolas especiais. Quais são os resultados desta política igualitária? Não interessa. Era igualitária.
Note-se que os estético-daí não cultivam a igualdade propriamente dita. Nada disso. Aliás nessa sua troca da ética pela estética muitos deles, sobretudo os que se dizem da nova geração, apostaram em distinguir-se pelos gostos. Detestam o mainstream e naturalmente usam a classe executiva quando o ponto de partida ou de chegada é Portugal, país que é suposto sustentá-los mas com o qual eles convivem o menos possível. Podem não ver problema algum no facto de um deputado ter assinado projectos enquanto engenheiro, ao mesmo tempo que recebia subsídio de exclusividade. Sendo que para cúmulo os donos das obras licenciadas através desses projectos não reconhecem ter recorrido aos serviços do deputado que era engenheiro. E daí? – perguntarão. Mas acham imperdoável que se desconheça uma marca de roupa ou que não se usem os últimos gadgets. Aliás a ala mais visível dos estético-daí cultiva o gosto pelas marcas e declama nomes de etiquetas com o fervor que outrora se dedicava às canções de intervenção. Enfim os “E daí” sonham-se “um público exigente e cosmopolita” como aquele a que se dizia destinada a revista Relance, nascida com o apoio de Rui Pedro Soares, esse estético-daí agora caído em desgraça e que viu os até há bem pouco colegas de corporação virarem-se contra si: Rui Pedro Soares administrador executivo da PT e do Taguspark combinou com Luís Figo que este desse uma entrevista ao Diário Económico e tomasse um pequeno-almoço com o líder do PS. E daí? Sim, e daí? A PT foi usada para entrar no capital da TVI de modo a alterar-se a linha editorial daquela estação e torná-la mais amigável para o Governo. E daí? A única coisa que não pode acontecer a um estético-daí é colocar em causa alguém que esteja acima de si na pirâmide dos estético-daí e, nesse campo, quer os silêncios quer as palavras de Rui Pedro Soares não são nada tranquilizadores. Donde o seu nome ter-se tornado tabu para os estético-daí.
Sócrates não tem atrás de si apenas um rasto de papéis constrangedoramente anedóticos como as suas duas fichas biográficas na AR ou aquele diploma de curso escrito num papel timbrado onde constam indicativos telefónicos que não existiam na data do mesmo diploma. Tem esta gente que é assim uma espécie de endemismo da política portuguesa. A sua característica é todos os dias dizer “E daí?”
Que me recorde, nas últimas 24 horas não têm parado: os impostos que não iam aumentar afinal agora terão de se sujeitar a esse “mecanismo”. E daí? As grandes obras das quais dependia o nosso futuro e a nossa modernidade e que só por falta de visão de futuro se contestavam passaram de anunciadas a adiadas e, depois, entraram no pousio do repensamento. E daí?
Daí espero que um dia o país possa recuperar a sanidade, indignar-se, contestar, criticar sem que se tenha de ouvir esta expressão que tudo tem legitimado nos últimos anos e que, para nossa vergonha, ficará como ex-líbris de Sócrates e da sua gente.
*PÚBLICO

movimento uniformemente acelerado para a bancarrota.
quando zero tende para infinito.
GostarGostar
Muito bem
Muito bem
Méééé
GostarGostar
Criou o “movimento” de que Barcelona é a capital da Polónia com a ligação do TBV e ninguém contestou.
Criou o “movimento” de que metade é a totalidade quando diz que todos os países da UE tem TGV.
Aprofundou o “movimento” de que poderemos ser caloteiros toda vida e que a culpa é dos outros (especuladores).
É este o movimento do “e daí?”.
GostarGostar
Mais uma vez a remar contra a corrente, excelente.
Há que falar nas medidas sociais, nas reformas de alguns sectores públicos (educação, justiça, forças armadas, saúde, etc…)- como é possível estar a pagar reformas com valores exorbitantes a pessoas de 55-60 anos – quais os cortes a que esses senhores estão sujeitos?
GostarGostar
.
.
Começa a ficar muito claro que só há uma saída para resolver Portugal:
.
um rápidamente um novo GOVERNO DE COLIGAÇÃO ENTRE O PC e EMPRESÁRIOS DA ECONOMIA que afaste defintivamente dos corredores os ditadores das Finanças Publicas e Privadas. O resto é mais crise e miséria.
.
.
GostarGostar
Pois é, antes duas palavras chegavam para os descrever, parolos corruptos.
GostarGostar
O timoneiro é uma espécie de aberração em cima de duas pernas. Como se não chegasse, ainda por cima fala e faz coisas.
GostarGostar
Correndo o risco de ser mal interpretado…
Para que isto realmente mude, é necessário – “agudizar as contradições do seio do povo”.
Afinal de contas, esta corja que nos diz governar, é a expressão máxima do povo que somos (enquanto colectivo). Somos um povo de trafulhas, governado por uns pulhas.
Esperavam ter um primeiro-ministro sombra e saiu-nos umá sombra de líder da oposição.
Citando a maior verdade de Guterres: É a vida!…
Carlos Silva
GostarGostar
As eleições são uma chatice.
Não sabem escolher.
GostarGostar
Brilhante! Bravo!
GostarGostar
Impressionante esta mania de pensar que isto são questões internas, da politiqueirice rasca partidocrática e das usuais capelinhas.
Seria bom que os portugueses ACORDASSEM DE VEZ!
O que se passa ultrapassa-nos (e em muito). Somos uma mera peça na engrenagem. Sócratas ou Peter Steps Rabbit não contam para nada.
http://www.marketwatch.com/story/the-second-debt-storm-hits-nations-2010-05-14
http://www.marketwatch.com/story/frances-sarkozy-threatened-to-exit-euro-el-pais-2010-05-14
Gostei especialmente deste comentário (cuja ideia é recorrente fora da “zona Euro”):
“The Euro has become a dreaded comedy of errors in a circus that’s run by clowns.”
Amén.
GostarGostar
Será que se está a concretizar a teoria da conspiração que o mundo é controlado por uma nova ordem económica e politica nascida no grupo BILDERBERG?
Actualmente já acrdito e desconfio de tudo
GostarGostar
Hum,
Lamentamos que dona Helena nao apoiara e argumentasse com alguma pequena nota autobiográfica para melhor orientar onde fica consolidada na sua base e de onde é que parte a estructura deste post sem dar opçao a qualquer tipo de réplica complementar…
GostarGostar
Acredite mesmo.
Se acredita que o que esse palhaço diz em relação à Europa e ao Euro, em relação às eólicas, ao TGV,ao deficit, bem pode acreditar em tudo.
Desde maquinas de terramotos passando por vulcões (só podem ser os américas a provocar isso à Europa) e no final ao grupo de Bilderberg.
GostarGostar
Li ontem no Público até ao fim. Achei delicioso, o artigo. Mas há uma nome mais apropriado para categorizar esta espécimen que nem é rara nem recente, na política portuguesa: desavergonhados. Nem é desenvergonhados nem sem-vergonha, mas desavergonhados. Provavelmente nunca tiveram vergonha na vida adulta ( e basta ver o percurso pessoal do Mentiroso que manda no governo) e se a tiveram foi por empréstimo social porque na altura em que deveriam ter sido educados, deram-lhe com certeza a beber alguns desses princípios que esqueceram ou nunca praticaram.
GostarGostar
Anónimo disse
14 Maio, 2010 às 11:54 am
Hum,
Lamentamos que dona Helena nao apoiara e argumentasse com alguma pequena nota autobiográfica para melhor orientar onde fica consolidada na sua base e de onde é que parte a estructura deste post sem dar opçao a qualquer tipo de réplica complementar…
…….
Não seja parvo.
GostarGostar
eheheh
Não seja parvo.
Mééééé
GostarGostar
ehehe
Este foi certeiro e está muito pittiano.
GostarGostar
#14,´
desde que paguem aos 99,9% da população subsidio de desemprego a 100% vitaliciamente a globalização, nova ordem, ai funcionaria de certeza absoluta…..
.
GostarGostar
Brilhante, Helena Matos! Parabéns.
GostarGostar
Muito bom texto. Exprime, de facto, o relativismo absoluto dos últimos seis anos. Lê-se como um bom texto humorístico simplesmente porque já não há nada a fazer.
GostarGostar
Pois é, pois é.
O nosso problema é sermos roubados e gozados por esses tipos. Que imagem terá o País lá fora com eles por aí? Imagem igual a: forma de tratamento, confiança em nós, poder ser ajudado sem que se pense que queremos ser caloteiros, parceiros de processos políticos, defesa do nosso património, muito dele no Brasil, nos Palop, em Timor, na Índia, na China, Etiópia, Sri Lanka, eu sei lá… Mesmo o Brasil diz que o Aleijadinho era Brasileiro, como se o conceito actual se aplicasse ao século XVIII e fosse o mesmo que hoje… Todos nos roubam porque os nossos “líderes” – até tenho nojo de dizer quando penso em quem são – nos roubam também, mas quando o País é roubado pelos estrangeiros, ainda inventam desculpas para sermos ainda mais roubados. Porquê? Porque são cobardolas. Todos sabemos que o Júlio César era fdp. Mas para se ser César é preciso ter nível. Nós não temos nem um dedo mindinho disso nos nossos… iac, “líderes”.
GostarGostar
Comentadores tão eruditos e nenhum referiu que o “daí” tem pai que é gay. Ora da-se!
GostarGostar