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Notícias Sábado, 29.V.2010

5 Junho, 2010
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Agora é o Mundial

A política não é apenas a arte da dissimulação – todavia, o jogo de aparências e o esforço de desviar as atenções dos temas mais inquietantes fazem parte dela. A nova cumplicidade entre Sócrates e Passos Coelho e, sobretudo, as medidas restritivas impostas aos portugueses (para que estes paguem os erros sucessivos da governação consumados pelos dois partidos do presente rotativismo) conheceram uma conjuntura mediática inesperadamente favorável.

Primeiro foi a vitória do Benfica que não deixou espaço para qualquer outro assunto. Depois, alguma polémica a propósito da convocatória de Carlos Queiroz para a África do Sul também preocupou a imensa tribo do futebol (em que me incluo). A seguir, a visita do Papa Bento XVI concentrou todas as atenções de crentes e não crentes. Foi precisamente durante essa visita que Sócrates e Passos Coelho resolveram fazer uma coligação material entre Governo e Oposição – caso o encontro tivesse sido em Fátima poder-se-ia falar num milagre da Virgem!

A vasta mole de pessoas que não se interessa por quase nada para além dos seus interesses imediatos (somos os piores leitores de jornais de toda a Europa) nem deu pelo que estava a acontecer. Quando se aperceberam, também não perderam muito tempo a pensar nos ‘porquês’.

Agora só se fala no Mundial. Se os jogadores comeram bacalhau ou esparguete. Na mobília dos quartos, nas horas dos treinos, nas mazelas dos craques e na táctica do seleccionador.

Depois da África do Sul estaremos em pleno Verão e, dizem os entendidos, não vale a pena pensar em coisas sérias. Quando Agosto findar, a ressaca da realidade atingirá mesmo aqueles que gostam de apregoar que não querem nada com a política – desta vez, a política vai-lhes desferir uma bofetada na cara que não poderão ignorar. Contudo, não vale a pena dar razão aos que sempre avisaram que um País tão mal governado não pode ficar impune – se os deixarem, os políticos que nos arrastaram para a desgraça voltarão a fazer o mesmo. Infelizmente, perante a placidez ignorante de tantos de nós.

Sócrates no fim

O PSD deu um balão de oxigénio a José Sócrates com o acordo do PEC II. Porém, mesmo com o PSD (e Cavaco) a querer retardar a queda deste Governo para depois das Presidenciais, trata-se do adiamento de um desfecho inevitável. Há dias, o ainda presidente do PS – Porto, Renato Sampaio, a propósito de uma questão interna irrelevante, atirou uma frase excessivamente sintomática: «Não podemos enganar muitos durante muito tempo. Nós, para enganar, tem que ser durante pouco tempo.»

Sem consciência da ilicitude política, como de costume, aquela personagem definiu bem o drama do seu Chefe – anda há demasiado tempo a fingir que é primeiro-ministro, a aparentar ter alguma solução para os problemas do País, a fantasiar retomas económicas que ninguém vê, a simular prestígio internacional que só ele enxerga e a imaginar campanhas negras a propósito de reacções normais de susto perante os desconchavos do seu currículo pessoal.

Realmente, é muita coisa e há tempo demais. António José Seguro parece ter percebido que a era pós-socrática já está aí.

4 comentários leave one →
  1. Nuno's avatar
    Nuno permalink
    5 Junho, 2010 18:17

    Você acha que há mesmo complicidade entre PPC e o socretino?
    E que as culpas do desvario orçamental e das dívidas de Portugal não são esclusivamente do técnico canalizador Pinócrates y sus muchachos?
    Você está a ver demais ou de menos?

    Nuno

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  2. Desconhecida's avatar
    Dantas da Silva permalink
    5 Junho, 2010 19:42

    O pior vai ser o «regresso às aulas»….

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  3. Jose Domingos's avatar
    Jose Domingos permalink
    5 Junho, 2010 23:39

    Alguém votou, nestes fulanos, agora vamos todos pagar, a nossa própria inconsciência.
    Não merecemos mais, eu lamento é ter de pagar, por erros, feitos por pseudo politicos, aos quais, não dei o meu voto. Temos o que merecemos.

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  4. Dylan's avatar
    8 Junho, 2010 11:22

    Acho que é bastante redutor considerar o futebol como um meio de desviar as atenções para o que se passa no panorama político e nacional. Numa época em que os meios de comunicação social bombardeiam as pessoas com constantes notícias, numa época em que as notícias e os problemas vêm cair-nos literalmente ao colo.

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