“Ronaldo fora da selecção” *
O melhor serviço que Cristiano Ronaldo poderia fazer ao futebol português seria sair da selecção. A sua carreira continuaria reluzente nos clubes, plena de títulos e de distinções personalizadas, permaneceria prenhe de reclames publicitários e de convívio com personagens de animação, Simpsons ou outros. Ronaldo, afinal, não precisa da selecção para nada.
Aliás, em boa verdade, quando veste a camisola das quinas Ronaldo desvaloriza a sua cotação no mercado. Quando está ao serviço de Portugal, Ronaldo é um espectro desconsolado do jogador que se exibe ao serviço dos clubes. Na selecção, o brilho apaga-se, obscurecendo toda a equipa. O jogador decisivo no Manchester e no Real transfigura-se num pirralho birrento, repleto da enorme ideia que faz de si mesmo, sem ímpeto nem empenho colectivo, tresandando a vedetismos deslocados e confundindo a representação nacional com cenas gagas de um anúncio fulanizado a um champô qualquer. Portanto, como se percebe imediatamente quando se passa os olhos pela imprensa internacional, Ronaldo só perde quando joga por Portugal.
Contudo, a inversa ainda é mais verdadeira. Sobretudo, desde que Figo saiu e Ronaldo ficou trajado de estrela única que o mundo do futebol entende a selecção portuguesa como um mero pretexto para Ronaldo surgir nas competições entre países. Isso abafa a equipa, reprime os seus jogadores, afunila o seu jogo fatalmente direccionado para que o craque possa vir a chamejar. Ronaldo, que alguém tragicamente despistado içou a capitão, tornou-se num estorvo para a selecção nacional. O seu ego ilimitado nunca se disporá ao serviço de um colectivo que julga indigno de si e dos seus patrocínios – Ronaldo serve-se desdenhosamente da selecção e nunca permitirá que esta prospere para além de si mesmo.
Se sobrasse alguma réstia de coragem naquela caricatura de Federação, Ronaldo, tal como sucedeu com Schuster ou Cruijff, seria convidado a prosseguir a sua carreira noutros lugares do futebol e da publicidade e libertaria a selecção.
Mas não creio que amanhã seja a véspera de tal dia.

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