Os exaltados, os indiferentes e os dependentes*
Em Portugal, os regimes caem sem aviso prévio. Tal como caem sem que ninguém os defenda ou ampare. Foi assim em 1820, em 1910, em 1926, em 1974. Foi sempre assim quando ficaram tão roídos por dentro que a fachada já era só caliça sem miolo.
Nas cerimónias do 5 de Outubro, o Presidente da República lembrou isso mesmo. E fê-lo tendo a ousadia de ignorar a invocação dos vencedores republicanos para citar o desamparo do último primeiro-ministro da monarquia liberal, Teixeira de Sousa.“Vi que a luta era impossível”, disse o governante deposto. “A monarquia estava cercada de republicanos e indiferentes”. Os republicanos nem sequer eram muitos – alguns milhares, como reconheceu o próprio António José de Almeida -, pelo que dominavam os indiferentes.
Cavaco Silva considerou que “é a conjugação perversa dessas duas realidades que tantas vezes abala os alicerces de um regime: de um lado, a indiferença do povo; do outro, a incapacidade dos agentes políticos para encontrar soluções ajustadas às necessidades concretas do país”. Não acrescentou que é precisamente um momento desses que hoje vivemos – mas isso começa a entrar pelos olhos dentro. Após uma década de estagnação económica, e face a um horizonte de mais austeridade, quando fracassou a maior promessa do regime – a de aproximar o nível de vida em Portugal do nível de vida nos países da Europa desenvolvida -, quando até a procura de alternativas políticas está neste momento manietada por normas constitucionais, agrava-se a percepção de que os agentes políticos são incapazes de encontrar as tais “soluções ajustadas às necessidades do país”. A irritação com “os políticos” está por todo o lado e a indiferença que rodeou as comemorações do 5 de Outubro, desertadas pelo povo apesar dos SMS a convocar os militantes do PS, é apenas o sintoma mais recente do divórcio. É uma irritação mansa, bem portuguesa, mas é também uma irritação corrosiva e imprevisível: a qualquer momento, uma faúlha pode acender um buzinão.
A indiferença é também um factor de corrosão. A indiferença não abandona apenas à sua insignificância os políticos de plantão: ignora também as alternativas que o regime vai gerando, mal ou bem. O problema é mais profundo e complexo do que o de um eventual crescimento do voto de protesto: o problema é a desesperança. Quando o nível do debate político desce aos níveis maniqueístas do ou eu ou o “negativismo exacerbado”, o “protesto inconsequente”, a “agitação irresponsável e demagógica, cria-se um clima onde não existem escapatórias razoáveis. Apenas se odeia “o que está” enquanto a pressão sobe ao mesmo tempo que se cortam, com método, todas as pontes que poderiam conduzir a outras saídas políticas.
A estratégia dos donos do regime faz lembrar a dos donos da I República. Na época, construiu-se a “impossibilidade” de nascer, no interior do novo regime, uma alternativa à ala mais jacobina dos republicanos ao proclamar-se como “intangível” a Lei da Separação. Agora o que é ou não “intangível” varia em função das conveniências políticas do momento e da sentença dos intérpretes da correcção política. Já foi a lei do casamento homossexual, um proclamado sinal de modernidade. É sempre a Constituição. É, nos intervalos da austeridade, o “Estado social”. E é, quando chega a inevitável austeridade, o Orçamento.
A proclamação repetida e exaltada do que é aceitável e do que, com retóricas à Afonso Costa, se denuncia como “indiscutíveis recuos civilizacionais” reforça a percepção de bloqueio institucional e engrossa uma indiferença crescentemente hostil “aos que mandam”. É o mesmo tipo de política de terra queimada que marcou a I República e a levou à desgraça.
Noutras épocas, estas multidões de indiferentes acabaram a aplaudir os militares que, com um simples piparote, fizeram tombar os regimes. Hoje, por bons motivos, nenhum militar descerá a avenida à espera de consagração. Para além de que os indiferentes estão divididos: muitos são, ao mesmo tempo, dependentes. E esse é um outro factor que torna ainda mais difícil encontrar uma boa saída: no Portugal contemporâneo, o número dos que, como funcionários públicos, funcionários de empresas públicas, pensionistas ou subsidiados de todos os matizes, temem ter algo a perder com a menor das mudanças forma um verdadeiro partido imobilista. Medina Carreira até já lhe chamou o “partido Estado”.
Chegamos assim a um ponto em que já é óbvio que não podemos continuar a viver como dantes, mas em que não se percebe como será possível mudar em nome de uma nova esperança. Isto consome e desgasta o regime, pois nenhum regime sobrevive a sucessivas curas de austeridade vendidas sempre como “inevitáveis”. Isto e a percepção do beco sem saída em que está a nossa economia criam um ambiente de fim de regime, um ambiente perigoso sobretudo quando, à nossa frente, vemos tanto uma mão-cheia de exaltados (e de instalados) que fazem lembrar os radicais da I República, como um número crescente de desafectos (e um ainda maior de indiferentes), tudo num país de dependentes e aspirantes a dependentes.
Oxalá tudo não passe, um dia destes, de um mero buzinão. Jornalista (www.twitter.com/jmf1957)
*Publico, 8 de Outubro de 2010

Mesmo colocando a hipotética ideia de que o actual regime esteja moribundo e a cair, eu pergunto qual é a alternativa?
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Análise parcial, como habitual nos seus escritos de manipulações mais ou menos paternalistas.
Estamos integrados na Comunidade Europeia, com tudo o que isso implica quanto a regimes viáveis no seu seio, sem origem democrática.
Porque é que não funda o Partido dos Anti-Regime, que até tem uma sigla interessante: PAR.
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Limpando algumas ‘exaltações religiosas’ estes dizem isto:
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On the Edge of Tyranny
http://thetrumpet.com/index.php?q=7523.6090.0.0
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Meras opiniões e previsões como outras quaisquer.
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Um retrato fiel da situação.
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Já está caquéctico faz muito tempo…
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Piscoiso eu ia mais NESTE..ESTÁ mais na moda…
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clap clap clap
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Vale a pena ver esta entrevista a Frei Fernando Ventura:
http://www.youtube.com/watch?v=JP4_74WQiyk
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de opiniões está o inferno cheio.
o que se vê é um parque automóvel repleto de argolas entrelançadas e estrelas enfaixadas num circulo, quase meio milhão de funcionários mangas de alpaca que ganham mais de trezzentos contos por mês(et pour cause…) e as opiniões são unanimes a dizerem que isto está mau…?
recordo que em miúdo, ia fazer recados domésticos à mercearia e, não podia levar mais de um quilograma de açucar para casa.
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este regime já caiu…agora o que se vai ter que olhar é para a politica-economica-social de Salazar em vez de se olhar para modelos economicos dos paises nordicos ou afins…a politica economica de Salazar é o modelo seguir, já foi aplicado e deu resultados económicos admiraveis…por isso é fundamental um Governo de Salvação Nacional Cristão! Portugal é um país cristãos e deve ser governado por cristãos com a benção do Cardial Patriarca de Portugal, o verdadeiro Rei de Portugal !… depois da fuga para o Brasil, os Monarquicos deixaram de ter “direito” à Coroa Portuguesa! ainda para mais quando andam de mãos dadas com a DIREITA ABORTISTA…
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Próximo regime para Portugal: democracia semi directa (de inspiração suiça).
(Quando lá chegaremos não poderemos dizer mais que o regime está exausto porque não poderemos dar mais poder ao povo, nem dar demasiado aos políticos visto que haverá então sempre o peso do referendo).
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Eles assim o quiseram, ou nem sequer disso tiveram a mínima consciência. Creio ser este o verdadeiro drama, pois leva-nos a ter diante dos olhos, o valor da gente do regime, desde a “esquerda”, à “direita”. Aliás e bem ao contrário daquilo que os comemoracionistas oficiais querem fazer crer, essa dicotomia existia no regime derrubado em 1910 e talvez, de forma mais explícita – nominalmente – se compararmos com o outro que se lhe seguiu.
De facto e após o fim do Império, Portugal teve uma oportunidade única. Não soubemos aproveitá-la e quanto a isso, é escusado atirar as culpas para a “esquerda” ou para a “direita”. Todos colaborámos, desde aqueles que assinaram os “constat d’accord” com a CEE, até aos seus sucessores que não tomaram as opções certas, no preciso momento em que a China e a Índia começavam a beneficiar das deslocalizações, tal e qual como estas haviam beneficiado Portugal. Os eleitores acreditaram num El Dorado sem fim. As culpas são de todos. Os partidos quiseram a obra para eleitor ver, preferiram a liquidação do aparelho produtivo tradicional – agricultura, pescas, têxteis, vidros, por exemplo -, deixaram os distribuidores nas mãos de empresas estrangeiras, permitiram a especulação imobiliária e a liquidação do património urbano e pior ainda, trouxeram a mania yuppie de difusos contornos, certamente pouco sérios. O resultado está à vista e já era era perfeitamente identificável no início da década de 90. Cavaco colaborou nisto e de que maneira! Não duvido da sua honestidade pessoal, assim como não duvido das boas intenções do actual líder do PSD. O problema é, como JMF diz, o citado partido-Estado que todos sabem ser coisa perfeitamente disparatada, impossível e de previsível desaparecimento à míngua de recursos. Contudo, ainda há quem continue a agarrar-se à última tábua de salvação, uma UE que já fez saber – só não ouve quem não quer – a sua oposição ao consecutivo pagar de facturas absurdas.
Uma única e simples questão a colocar aos geniais chefes que temos tido e estão no activo em Belém e S. Bento, é a razão pela qual países como a Suécia, Finlândia e a Irlanda, por exemplo, possuem empresas modernas e viáveis, abriram a economia e não estão interessadas em qualquer política de betão/asfalto, TGV, etc.?
O dinheiro que vem de fora será cada vez mais escasso. Ainda hoje Barroso diz isso mesmo nos órgãos de comunicação social. A situação é tão anómala que dir-se-ia intencional, levando os portugueses a crer no fatal desaparecimento do Estado como entidade independente. Será? Talvez se confirmem as suspeitas dos entusiastas das teorias da conspiração.
No fundo, cumprir-se-ia mais uma meta dos republicanos históricos – este termo “histórico”, para tudo serve – que eram “federalistas”, ou por outras palavras, previam e queriam a integração de Portugal em Espanha. Os seus sucessores, aqueles que hoje mandam,parece não se importarem com um regresso da Monarquia, mas desde que essa seja estrangeira, “ilibando-os” de qualquer responsabilidade. Irónico, em ano de centenário do Nada.
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Mais um excelente artigo. Evidencia a necessidade imperiosa que surjam líderes com fibra e com ideias e um projecto para libertar o potencial criativo dos portugueses. Olhando à volta, o sentimento não pode deixar de roçar o desespero.
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De “líderes com fibra”, está o inferno cheio. Também tivemos os nossos ou, pelo menos, aquilo que alguns consideram como tal. Nunca libertaram o “potencial criativo dos portugueses”, até porque a “fibra” descai-lhes sempre para o mesmo lado… Em vez de andarem a apregoar as virtudes do Pai Natal, talvez fosse preferível pensarmos como mobilizar a sociedade civil, porque ninguém tem mais fibra do que nós, quando se trata de defender os nossos próprios interesses.
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…
Nuno Castelo-Branco,
Deu-se o 25 de Abril de 1974 e houve uma enorme euforia por parte de muita gente – sen que muitos ercebessem por quê. Dias depois, no 1º de Maio, foi ver a maioria a reconhecer o dispate e, sabe-se lá porquê, a constituir a “maioria silenciosa”. De facto , muitos tinham medo do cenário de comunismo que aqueles quadrúpedes queriam implantar e fugiram ou meteram-se em copas, sans faire de bruit.
Nuno
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Excelente artigo. Mas para mim, o principal problema com que nós portugueses estamos confrontados são os anos de cinto apertado que nos esperam.
Há na economia e nas finanças publicas dos paises como o nosso, que não podem ser ultrapassados que não podem ser ultrapassados, sob pena de as respectivas populações empobrecerem drastica e inexoravelmente. Em Portugal foram-no largamente, o endividamento publico e privado, e o fraco, quase nulo crescimento economico durante mais de dez anos.
Já todos percebemos que quem manda no governo, o 1º ministro e o ministro das finanças, não teem a coragem, a visão estrategica e a competencia para tomerem as medidas que atenuassem o que nos está a acontecer. Desde 2005 que aldrabam as contas com cosmeticas contabilisticas ou desorçamentações que mais cedo ou mais tarde nos vão cair em cima.
Para quem ainda pudesse ter duvidas do que nos espera, aconselho a ler com atenção a entrevista que Teixeira dos Santos deu ao Expresso de hoje. Para alem da propaganda barata, é a confissão da sua falta de estatura politica e tecnica para travar uma batalha destas. TS não está à altura das circunstancias.
Só um exemplo: sendo ministro das finanças há 5 anos, não sabia que em 2010 ou 2011 tinha que pagar os submarinos? Vem agora justificar a integração no estado do fundo de pensões da PT (mais um pessimo negocio) para os pagar? e quer que confiem nele e o respeitem? Agora são os submarinos, lá para Abril ou Maio do proximo ano há-de ser outra coisa qualquer. A incompetencia dele é que não.
Quanto ao fim do regime: neste momento ninguem pode garantir que após 2013 ainda estaremos no euro. E se sairmos do euro, dificilmente ficaremos na UE. E se sairmos da UE seremos obrigados a devolver o dinheiro que veio de lá. Alguem consegue imaginar o que isto significa?
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Teixeira dos Santos é o pior ou um dos piores ministros das finanças de portugal em democracia.
Falhou já 5 vezes consecutivas nos numeros dos déficits, confessou que sabia (ou não queria) onde cortar na despesa, até nos Ministério das Finanças existe um regabofe de despesismo como nunca visto, não tem qualquer credibilidade nos mercados financeiros.
Manter T.S. é um erro crasso para o país, deve sair do governo o mais rápido possivel.
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Tric:
Essa “fuga” bem planeada, organizada e executada, apenas salvou a independência nacional, deixou o Brasil incólume para a lusofonia e transtornou os planos de Bonaparte. Aliás, no memorial de Sta. Helena, é foi bem explícito.
Nuno:
Concordo com tudo o que disse e de facto, aquela célebre frase do Melo Antunes no 25 de Novembro à noite, impediu um rumo mais coerente. Ainda estamos a pagar a demagogia e de forma bem cara.
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> Mesmo colocando a hipotética ideia de que o actual regime esteja moribundo e a cair, eu pergunto qual é a alternativa?
Francamente, não me parece que hoje em dia este país precise, ou mereça, governo próprio.
Bastam uns tradutores da legislação europeia (90% do que fazem actualmente, o resto é inventar patacoadas para desperdiçar ainda mais dinheiro), complementado com uma espécie de administração de condomínio com rédea curta, e talvez um ‘gauleiter’ residente para tirar dúvidas (correntemente têm de telefonar para Berlim).
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Só quando o Ocidente perceber que tem de travar a Lógica dos Políticos que tiram a A para dar a B sem limite.
Limites baixos aos Impostos e à Dívida na Constituição é só o que pode salvar a Civilização Ocidental.
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Se isto não for feito nos próximos 10 anos teremos muita gente a começar a elogiar o sistema Chinês.
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