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conservadores e liberais: o caso português

13 Outubro, 2010
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Como tenho dito e redito em vários textos, não acredito na existência de “partidos liberais”, nem acho que o liberalismo seja propriamente uma filosofia de governo. O acto de governar é, por definição, uma intromissão na liberdade individual, e a vontade de poder, ainda que possa ser pintada com as cores do arco-íris, tem sempre como fundamento último a pulsão, muito pouco liberal, de resto, do domínio.

Isto não significa que os políticos e os governos sejam todos iguais, e que não os haja mais sensíveis aos valores da liberdade, da propriedade, do respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos e pelos direitos naturais dos indivíduos. Esses governos têm sido protagonizados por políticos conservadores influenciados por ideias liberais, de que os melhores exemplos contemporâneos foram Reagan, Thatcher e Aznar. Eu penso, por isso, que o liberalismo é essencialmente uma filosofia de cidadania que pode (deve) influenciar a política, e creio que é nos partidos conservadores que essa influência tem mais espaço para crescer.

Em Portugal, por razões diversas, isso não tem acontecido e a nossa direita conservadora é tradicionalmente avessa aos valores do liberalismo, concretamente no seu ponto fundamental que é o da reserva da liberdade individual face ao estado e ao poder público. Pelo contrário, desde a implantação da monarquia constitucional aos nossos dias, tendo-se agravado esta propensão a partir da implantação da república, os líderes da direita portuguesa são conservadores na pior acepção da palavra, lendo-a no sentido de que compete ao estado e ao governo promover a máxima ordenação social possível, retirando à sociedade a sua espontaneidade natural, e considerando o mercado (e a liberdade, no fim de contas) um mal tolerável, mas ainda assim um mal, por que ele não depende exclusivamente da vontade de quem governa, logo, poderá pender para a “irresponsabilidade”, para a “ganância”, ou para o “egoísmo”. Por isso, também, a direita conservadora portuguesa encara, com naturalidade, a intromissão do estado nos assuntos domésticos, apenas discutindo a natureza das medidas e não a própria existência dessas mesmas medidas.

O conservadorismo português é, tal como, de resto, o nosso dito “liberalismo”, de inspiração francesa e estatista. Os dois governantes conservadores mais marcantes do século passado – António de Oliveira Salazar e Aníbal Cavaco Silva – equivalem-se na noção que tinham da relação do estado e do poder com os indivíduos: o estado é o dinamizador da sociedade e do progresso individual e colectivo, e não o mercado. Salazar foi um estatista e Cavaco cedo se declarou um keynesiano. E são, hoje ainda, as suas impressões digitais que continuam a marcar a índole da nossa direita conservadora. Hoje, Paulo Portas, que se reclama líder do verdadeiro partido conservador português (e talvez seja mesmo), foi provavelmente mais marcado pela influência política inglesa do que francesa. Mas será no conservadorismo social de Disraeli e não no conservadorismo liberal de Gladstone que ele eventualmente se revê.

Todavia, e em forma de conclusão, há que dizer que o  facto dos nossos conservadores terem alguma alergia ao mercado e ao liberalismo, não exclui que não sejam eles, os conservadores, os melhores protagonistas políticos das ideias liberais, como o confirmam hoje os conservadores ingleses e espanhóis, por exemplo.

16 comentários leave one →
  1. Gabriel Silva's avatar
    Gabriel Silva permalink*
    13 Outubro, 2010 22:46

    muito bom

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  2. Exilado's avatar
  3. Ricciardi's avatar
    Ricciardi permalink
    13 Outubro, 2010 23:18

    Meu caro Rui A.,
    Os politico e consequentemente os partidos são aquilo que sentem que podem ser. Ninguem de bom senso formará um partido liberal em Portugal com pretensões de ganhar o poder.

    Para usar a sua linguagem, o mercado encarregar-se-ia do o eliminar, o partido claro.

    O povo latino (ou católico segundo o Pedro Arroja) não se revê no liberalismo.

    Portanto não são os politicos portugueses que tem ‘alergia’ ao liberalismo… eles apenas interpretam o sentimento do povo, adequando o seu discurso e prática à interpretação que fazem do sentimento do povo.
    RB

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  4. rui a.'s avatar
    14 Outubro, 2010 00:01

    Prezado Ricciardi,

    A questão não é a que colocou, porque ela presume, a contrario sensu, a existência de partidos liberais em países que não sejam de tradição católica, o que você não encontrará em lugar nenhum, em momento algum. O liberalismo não serve para fazer partidos, nem programas de governo.

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  5. PMF's avatar
    14 Outubro, 2010 01:31

    Mto bom e muito certeiro na questão fundamental (filosofia de cidadania vs. filososfia/programa de governo)!

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  6. Lorpa's avatar
    Lorpa permalink
    14 Outubro, 2010 08:48

    Uma boa análise feita por um conservador. Mas creio que a direita portuguesa vive ainda entre o salazarismo e o liberalismo, sem conseguir sair desse espartilho. Tal como a esquerda, que oscila entre os que lutaram na clandestinidade e têm alguma dificuldade em assumir a sua própria identidade, e os que souberam adaptar-se de forma oportunista aos tempos actuais. No fim de contas tanto a esquerda como a direita pecam por falta de definição ideológica e de objectivos bem definidos, o que nos leva a aturar políticos oportunistas e mal preparados como Sócrates, Passos Coelho, Barroso, Portas, e, evidentemente, Cavaco. Há e houve outros, mas estes são de momento os mais relevantes na actualidade caseira.

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  7. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    14 Outubro, 2010 09:25

    “O liberalismo não serve para fazer partidos, nem programas de governo.”

    Serve. Serve especialmente para não fazer programas de Governo. Uma função muito útil. Tirar o “ar” aos estatistas.

    Os Liberais deveriam ser Governo para impedir que haja um Governo daquela gente que gosta de controlar, guiar, dirigir, forçar os outros.
    Qualquer Comuniista, Sociallista, SocialDemocrata, com graus diferentes está no mundo com desejos de controlar todos á sua volta.

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  8. Rita's avatar
    Rita permalink
    14 Outubro, 2010 09:58

    A política não carece de regresso, está aí, aqui e ali, é a política possível para aquilo que é possível fazer por estas possíveis pessoas que politicam o país.
    Não vejo, sequer adivinho, grandeza em ninguém, nem mesmo naquelas barbas recentes de gente antiga envergadas por Ramalho Eanes, mesmo que o general seja dos escassos entre os poucos que permitem consolidar uma ideia de… possibilidade.
    Mas vamos por partes visto que isto já não é uma parte, é um aparte. Esta gente fez de Portugal um à-parte semiótico, onde os sinais abundam para disfarçar a ausência de caminho e não para indicar o caminho. Provavelmente deveriamos usar o código da estrada, ou aqueles manuais das escolas de condução como “Bíblia” para Sócrates encher os seus dias, os dias que lhe faltam e nos faz faltar horas para emagrecer os meses.
    Eu não quero isto, não quero esta merda, não quero esta gente, não quero que me confundam com gentalha enfiada em lugarzinhos para gente pequenina só porque ser pequenino é a chave de entrada para o mundo dos grandes enganados, do corno manso, do corno bravo… mas corno, fazedor de ordens para cumprir uma missão gratificada pela manutenção do que isto é, vai ser e será, senão houver quem diga: Chega!!
    Mas que merda é esta?? Que querem estes gajos, orçamento para cá, orçamento para lá, quando, como se evidencia dia para dia, a resposta esxtá onde sempre esteve: ctrl-alt delete. E prontos, regressar recuar, até à idade média se necessário for, mas refazer esta bandalheira, dizer aos papalvos que já não podem ter um Ford Mondeo novinho mas sim um Fiesta em segunda mão vindo da Holanda, em que de um LCD de 1500 euros, uma coisa de não vá além dos 100 euros, porque os golos do Ronaldo valem o mesmo, independentgemente da dimensão do ecrã, foda-se!
    Quantos mil milhões se espatifam por estas merdas que, na verdade, não fazem falta? Esse o caminho.
    E, como diz o outro, vem aí um grande inverno e ter coberores à mão dá mais uso que um filho da puta de um LCD carote.
    Enfim, cheira-me que já se vai tarde.
    repare-se no pânico desses imbecis que o Sócrates meteu nas empresas públicas ou quase públicas, por todo o lado, que agora apanham por tabela ficando ligados a esta metabulimia lusitana. Que gente, porra, que gente merdosa! E como se agarram a este lusco-fusco para não terem de acender as velas dos seus próprios velórios. Amem!!

    Rita

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  9. miguelmadeira's avatar
    14 Outubro, 2010 10:13

    “a existência de partidos liberais em países que não sejam de tradição católica, o que você não encontrará em lugar nenhum, em momento algum”

    O VVD holandês? Os Liberais britãnicos do século XIX (ou mesmo os actuais LibDems, que com o Nick Clegg têm abandonado o social-liberalismo e regressado ao liberalismo clássico)? O FDP alemão (que penso ser desproporcionalmente protestante)? O Partido Liberal dinamarquês (que, ao contrário do que é usual com os partidos liberais, é o principal partido de direita do país)?

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  10. Arnaldo Madureira's avatar
    Arnaldo Madureira permalink
    14 Outubro, 2010 10:15

    “Os Liberais deveriam ser Governo para impedir que haja um Governo daquela gente que gosta de controlar, guiar, dirigir, forçar os outros.”
    Não concordo. A minha ideia é muito diferente. Certos Liberais deveriam ser Governo para impedir que haja gente que controle, guie, dirija, forçe os outros.

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  11. Arnaldo Madureira's avatar
    Arnaldo Madureira permalink
    14 Outubro, 2010 10:26

    Fui ao site dos libdems ver se tinham mudado alguma coisa, desde ontem. Parece que não. O liberalismo clássico é que já não deve ser o que era. Assim, já sou quase, quase, liberal clássico.
    http://www.libdems.org.uk/what_we_stand_for.aspx

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  12. Pedro's avatar
    Pedro permalink
    14 Outubro, 2010 10:29

    Lucklucki e Arnaldo Madureira, não forcem,
    Os liberais não querem ser governo. Não leram o rui a.? E não são vocês, certamente, que os vão forçar a isso. Seria preciso que reconhecessem algum tipo de bem comum. Os liberais querem tratar da sua vidinha e que não os macem.

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  13. miguelmadeira's avatar
  14. Arnaldo Madureira's avatar
    Arnaldo Madureira permalink
    14 Outubro, 2010 12:24

    Por exemplo:
    “Liberal Democrats believe university education should be free and everyone who has the ability should be able to go to university and not be put off by the cost.
    In coalition the Liberal Democrats are looking at proposals to ensure the bottom 30% of graduate earners will pay less for tuition than they do at the moment.”
    Ainda bem que o liberalismo clássico já é compatível com este discuro.

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  15. luiz moncada's avatar
    luiz moncada permalink
    13 Abril, 2015 22:35

    Ex-mo Sr.

    Li o seu texto com muito interesse mas deixe-me chamar-lhe a atenção para vários pontos. O conservadorismo português nunca foi liberal. Pelo contrário foi sempre avesso ao liberalismo político e até económico. A trajectória política de A. Herculano ou melhor, o seu desencanto da ideias nacionais é a prova cabal deste facto.
    O conservadorismo foi, contudo, persistente e assumiu no nosso país formas orgânicas, até arcaicas e baseadas numa visão romantizada imperialista, nacional e escatológica da história portuguesa que se prolongou até ao 25 de Abril, desaparecida depois e renegada mesmo pelos que a defendiam.
    Cavaco Silva não é um conservador. Duvido mesmo que saiba o que isso quer dizer. É um keynesiano de inspiração, portanto, pragmática e não ideológica.
    A preocupação social não é de modo nenhum inimiga do conservadorismo. Pelo contrário. O conservadorismo monárquico e católico viveu sempre dela. Não existe hoje nenhum conservador que a ela possa ser alheio. Faz parte do património do pensamento conservador que se tem alimentado de perspectivas que o não acompanhavam, como é natural, anteriormente ao século XIX.
    O que distingue o conservadorismo de outras atitudes é a recepção crítica da experiência do passado e a desconfiança nos amanhãs que cantam, venham eles do lado da direita ou da esquerda. O conservadorismo encara a história, numa atitude que tem fundamentos antiquíssimos no pensamento europeu, como razão objectivada numa perspectiva oposta à do revolucionarismo jacobino, marxista e fascista. Louva-se, contudo, numa concepção (relativamente) pessimista da natureza humana e dos seus propósitos inovadores. Daí o classicismo das suas análises e do seu entendimento geral das coisas, não porque os clássicos forneçam resposta aos problemas actuais mas exclusivamente porque utilizam uma metodologia de compreensão que vai directa ao cerne dos problemas e que os permite esclarecer sem ilusões.
    Se me quiser responder terei imenso gosto em encetar o diálogo.
    cumprimentos
    do
    LCM

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    • rui a.'s avatar
      rui a. permalink
      15 Abril, 2015 19:05

      Meu Caro Luís,

      Muito agradável esse teu tratamento formal, mas acho que podemos bem prescindir dele. A net tem destas coisas com piada, e desde que um amigo meu «paulistano», com um nome, por sinal, bem significativo, o «Sírio», me confidenciou ser um leitor devoto do «Blasfémias», que já nada me espanta.

      Posto isto, tenho naturalmente o maior prazer em responder-te e em «encetar diálogo» contigo em torno deste assunto e dos que quiseres. Mas deixa-me, em primeiro lugar, dizer-te que este texto que comentaste é um dos muitos que tenho escrito, ao longo dos anos, em várias paragens, sobre um assunto que me interessa, que é o da convergência entre algum pensamento conservador e o liberalismo clássico, que muitos entendem irremediavelmente condenados à separação. As origens históricas do nosso «liberalismo» português, desde 1820 e apenas mitigado por algum abrandamento que a Carta lhe acrescentou, inspiradas, de facto, pelo pior jacobinismo da RF (nem sequer o da Constituição de 91, mas claramente da de 93), e um artigo do Hayek («Why i am not a conservative»), levam a maioria dos indígenas que se pronunciam sobre este tema a opinar que conservadorismo e liberalismo clássico estão condenados ao divórcio.

      Eu não penso assim e, pelo contrário, entendo que o conservadorismo de raiz iluminista escocesa – Burke, Ferguson, Hume, pelo menos -, que é o que me interessa, se suporta sobre a mesma visão ordinalista da sociedade que os economistas de livre-mercado e outros pensadores liberais, entre eles o Hayek e mesmo o Mises, apesar deste último ser um racionalista muito mais próximo da tradição francesa do que da inglesa, o que, de algum modo, resultou do positivismo do fim do século XIX onde, apesar de tudo, ele foi educado.

      O essencial, para mim, no pensamento conservador é exactamente o mesmo que fundamenta a crença no livre-mercado, ou na «mão invisível»: ambos são formas sinónimas de acreditar que a ordem social se baseia no evolucionismo e na tradição, e não propriamente em formas voluntaristas de a organizar, por via, revolucionária e estatista, de que os vários jacobinismos serão porventura a sua expressão mais violenta.

      Posto isto, a incursão no caso português a que se refere o meu texto foi manifestamente desajustada. Não tanto pelo texto em si, mas porque nós nunca tivemos uma tradição verdadeiramente liberal em Portugal, que não fosse a francesa, e, curiosamente, também o nosso conservadorismo acabou por ser muito mais influenciado pelo que vinha desse país do que doutras paragens, exceptuando-se talvez o Alexandre Herculano, que em vários momentos se confessou um admirador do constitucionalismo inglês. Mas, por exemplo, toda a nossa direita do século XX é tributária do Maurras, desde o Integralismo Lusitano ao próprio Salazar (um «revisionista» pragmático, é bem verdade…), o que eu considero uma verdadeira infelicidade nacional. Na verdade, a «Monarquia orgânica» não me entusiasma…

      Por outro lado, também não vejo como absolutamente necessário que o conservadorismo se inspire no catolicismo ou em qualquer outra religião revelada, por mais coincidentes que sejam as raízes históricas de um país e a sua comunidade e uma Igreja, no nosso caso, a Romana. Na verdade, o sentido último da «ordem espontânea» tanto pode ser encontrado em Deus, como num princípio geral laico de cooperação entre os homens. E o respeito pela tradição é, pelo menos, uma questão de bom senso. Não tem de ser por aí que se devem cavar distinções nestes domínios.

      Abraço,

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