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Os ciganos, os sapos, a pastoral e os antropólogos*

28 Novembro, 2010

Não sei o que aconteceu aos ciganos nos últimos anos mas francamente parece-me que o seu destino vai de mal a pior. E não propriamente por culpa deles mas sim daqueles que oficialmente os querem ajudar. Como os autarcas que resolveram ordenar e regularizar as feiras, e que na verdade as extinguiram comprometendo o modo de vida de muitos ciganos e não ciganos. Ou a Pastoral dos ciganos que provavelmente inquieta com a proliferação dos cultos evangélicos entre os mesmos ciganos se toma de activismos e promove a vitimização dos ciganos. E muito particularmente os antropólogos que falam da necessidade de mediadores culturais e provedores para os ciganos como se estivessem a tratar dos procedimentos para estabelecer contactos com uma tribo perdida desde o Paleolítico numa qualquer floresta.

Encontrámos mais ou menos todos estes protagonistas no último arrebatamento com mais uma manifestação da exclusão de que os ciganos serão vítimas em Portugal. Exclusão essa que se traduz, segundo essas vozes, através da proliferação dos sapos. Por enquanto em versão louça nas lojas de Beja. Mas por coerência a polémica acabará a ser extensível aos sapos-príncipes das histórias infantis, aos sapos das jarras do Bordalo Pinheiro, sem esquecer o próprio motor de busca português, sapo de seu nome, e os sapos propriamente ditos que se espera não tenham de ser erradicados dos ecossistemas por causa das superstições. Não percebo se estes ditos defensores dos ciganos pretendem passar a ter poder sobre os bonecos que cada um pode ter na sua casa ou nas suas lojas mas essa é uma intromissão que nada legitima. Quanto aos ciganos propriamente ditos, e devidamente desembaraçados destas tutelas, têm um bom meio de acabar com o problema: vencerem as suas superstições.

Há não muitos anos inúmeros portugueses, ciganos e não ciganos, partilhavam várias superstições a propósito de sapos, ferraduras, gatos pretos, encruzilhadas, etc. (O etc. é, no caso, gigantesco porque aquilo que achamos que nos dá sorte ou azar é pelo menos tão vasto quanto o universo). Aos não ciganos disseram que as superstições eram para ser vencidas. Até agora não se deram mal com o conselho.

*PÚBLICO

10 comentários leave one →
  1. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    28 Novembro, 2010 11:07

    Enquanto os ciganos não se converterem ao Islão, a gente ainda aguenta…

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  2. balde-de-cal's avatar
    balde-de-cal permalink
    28 Novembro, 2010 11:19

    o Povo Roma sempre foi politicamente desprezado. olhavam-me de soslaio nas feiras do Alentejo quando há 50 anos convivia com o meu afilhado e pais. o pai era um pacífico troca-burros.
    os politicos de esquerda destruiram muita convivência depois do 25.IV por burrice, inconsciência e por aí fora

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  3. kruzes kanhoto's avatar
    28 Novembro, 2010 12:18

    Lamento contrariar mas continuamos a ser supersticiosos em relação às encruzilhadas. Daí a sua substituição por rotundas.

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  4. Piscoiso's avatar
    28 Novembro, 2010 14:01

    Não creio que os ciganos estejam em vias de extinção, por causa da regulamentação das feiras.
    Eles têm uma capacidade de derenrasque que os sedentários não têm.

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  5. Manuel Silva's avatar
    Manuel Silva permalink
    28 Novembro, 2010 14:28

    Os ciganos são um problema: por um lado não se integram, por outro ninguém os quer. Restam-lhe as actividades na margem, ou até mesmo, na ilegalidade.
    Por outro lado a fuga aos impostos é universal, mata gente, e ninguém se importa.

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  6. regada mertório's avatar
    28 Novembro, 2010 18:22

    A maior superstição dos portugueses,direi melhor,de uma certa intelectualite deles.é o complexo. para estes,tudo é complexo ou superstição,como queiram.Fomos um povo,embora pequeno,que logo a seguir à sua independência começou a contactar outros povos,sendo o que melhor se integrou e respeitou o seu semelhante,muito superior aos outros povos da europa.Não obstante,essa intelectualite considera-nos uns mausões,a mesma que nunca teve uma palavra de repúdio para os que,nesse mesmo mundo,nos infligiram atrocidades muito violentíssimas.Quando fugimos das misérias da ditadura, para países ditos democráticos,instalaram-nos em bidonvilles.A culpa era nossa porque éramos analfabetos!Enfim um rosário de superstições complexos.Os ciganos que não procuram a integração,salvo raras e honrosas excepções,nos trabalhos do quotidiano e nos bairros que lhe são oferecidos,a culpa é nossa porque não sabemos integrá-los!Porque é que têm de ser todos feirantes? Já agora,porque será que os portugueses,logo que chegam ao Brasil,procuram de imediato integrar-se no sotaque deles e os brasileiros em Portugal,muito bem,continuam com o seu?Porque,a sempre muito boa relação com os outros,nos leva a não os estigmatizarmos por isso. Para que conste,não sou racista,bem pelo contrário,o que tenho é uma grande estima por nós.

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  7. Conde Venceslau's avatar
    Conde Venceslau permalink
    29 Novembro, 2010 22:29

    Eu quero é que os ciganos se fodam… Com tanto problema vamos agora perder tempo com essa escumalha… Essa cambada que se civilize e se integre na sociedade, que já passam a viver melhor !!! Até lá não passam de animais parasitas que vivem do roubo, da vigarice e do tráfego de droga…

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  8. Seabra's avatar
    Seabra permalink
    7 Dezembro, 2010 17:08

    Em 1º lugar não somos todos iguais, existem familias ciganas Portuguesas que fazem parte da sociedade Portuguesa 1º que muitos dos que teceram aqui os seus comentários. Para vossa informação o meu pai e o meu tio serviram a nação na guerra colonial e tenho provas verídicas da afirmação que faço pios tenho fotografias tiradas em Teti e em Moeda.( Será que os Sr.s Sabem do que falo!). Em relação aos sapos posso vos dizer que é um mito ifundado. Conheçam-nos 1º e depois julguem. Sendentários? Para vossa informação na cidade onde vivo,( a minha familia já vive nessa cidade à mais de um século), a ultima escritura realizada pelo meu avó data de 1945. Portanto deixo-vos estas informações para que possam refletir um pouco à cerca de nós : Ciganos.

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  9. José Bastos's avatar
    José Bastos permalink
    3 Fevereiro, 2011 02:04

    Depois de Mário Crespo (JN, «Limpeza étnica») e de Miguel Sousa Tavares (Expresso, «Pobres e mal agradecidos»), agora é Helena Neves que, a coberto do estatuto de ‘ensaísta’, vem falar do que não sabe, não tendo sequer o menor cuidado em obter a mínima informação que permita problematizar a questão cigana em Portugal, o caso mais extremo de racismo e xenofobia registado em Portugal e, mais em geral, em toda a Europa.
    Quererá informar-se antes de começar a opinar sobre quem é ‘a culpa’? Vejo que iliba a priori o Parlamento, os partidos, os governos, as vereações com ‘más práticas’ (a grande maioria) e, mais em geral, a população que pensa que ‘a culpa é dos ciganos’ (eles é que ‘não se querem integrar’, etc., etc.), sem se preocupar com as investigações dos últimos quinze anos, em diferentes centros de investigação e com os dados recolhidos pelas ONG.
    Com artigos destes, que reduzem a marginalização intencional de grande parte dos Portugueses ciganos, ao longo de séculos, a uma «vitimização» alimentada pela Pastoral dos Ciagnos e pelos ‘Antropólogos’ (e a sua referência é claramente ao meu trabalho, desde 1997, integrando dados históricos, sociológicos, etnográficos e políticos), Helena Neves propõe-se encabeçar a frente ciganófoba em Portugal ou está apenas a preencher mais uma intervenção ‘ensaística’ na sua coluna no Público?
    Quando Helena Neves resolver informar-se com o mínimo de seriedade intelectual, estarei aqui ou em qualquer media para dialogar abertamente, e então veremos ‘de quem é a culpa…
    Para começar, os dados básicos que permitem ir para além desta retórica popularucha estão acessíveis no meu artigo «O que podem esperar de Portugal os Portugueses Ciganos» (2007) ou em pub licações do SOS Racismo, que só não lê quem não quer abandonar preconceitos muito convenientes.

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