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Presidenciais: Francisco Lopes, ser sacrificado pela táctica para vencer na estratégia*

10 Dezembro, 2010

O que sentem os dirigentes do PCP no dia em que se lhes torna inexorável que vão ser candidatos presidenciais? Não sei, mas gostava de saber. Afinal ser candidato presidencial pelo PCP é como correr em duas pistas: a das presidenciais propriamente ditas, onde o PCP não tem qualquer hipótese de ganhar, e a desenhada pela estratégia do partido, onde os comunistas conseguem lugar na mesa dos vencedores. Neste enquadramento, os candidatos do PCP são apenas peões da táctica, a sacrificar no momento certo: em 1980, Carlos Brito desistiu a favor de um dos homens que derrotara o PCP no 25 de Novembro, Ramalho Eanes. Em 1986, Ângelo Veloso desistiu a favor de Salgado Zenha, que, anos antes, personificara o combate ao projecto comunista da unicidade sindical. Na segunda volta, os votos dos comunistas transferiram-se para Mário Soares, que personificara um projecto que o PCP definia, nos dias tolerantes, pelo menos como burguês e reaccionário. Note-se que os votos dos comunistas contribuíram fortemente para a vitória de Soares sobre Freitas do Amaral, pois no fim apenas 140 mil votos separavam os dois candidatos. Em 1996 Jerónimo de Sousa desistiu a favor de Jorge Sampaio, que se batia contra Cavaco Silva, na que terá sido a mais facilmente justificável destas desistências, pois Sampaio e o PCP tinham mantido uma coligação muito vantajosa para os comunistas na autarquia de Lisboa. Mas umas coisa são as explicações públicas, outra a realidade. Nas presidenciais o PCP não vota em quem gosta. Vota sim em quem deve. Destas três vezes, o PCP retirou os seus peões para ficar do lado dos vencedores, garantir influência em Belém e fazer o discurso da derrota da direita.

Quando os votos dos comunistas não podem ter um papel decisivo no escrutínio, como aconteceu nas recandidaturas de Soares e de Sampaio, o PCP leva as suas candidaturas até ao fim. Fê-lo em 1991 com Carlos Carvalhas e repetiu-o dez anos depois com António Abreu. A candidatura de Carvalhas foi um dos raros momentos em que nas presidenciais o PCP pôde celebrar um bom resultado oficial e não apenas, que já é muito, comprazer-se com a vitória de quem lhe dava jeito. Note-se que, quando Carlos Carvalhas entrou na corrida presidencial em 1991, tomou uma opção arriscada para si mesmo enquanto líder. Era o primeiro secretário-geral do PCP a fazê-lo, pois Álvaro Cunhal nunca aceitara submeter-se ao escrutínio e à exposição pressupostos numas eleições presidenciais. E sobretudo os comunistas tinham uma muito má experiência no que respeitava a levarem os seus candidatos até ao fim. Até então tinham-no feito apenas uma vez, em 1976, com a candidatura de Octávio Pato, e o resultado fora no mínimo doloroso: Octávio Pato teve uns escassos 365.586 votos, praticamente metade dos votos conseguidos pelo PCP nas eleições para a Constituinte em 1975 e nas legislativas de 1976. Em 1980 e 1986 o PCP fizera o jogo da desistência e transferência de votos. Mas em 1991, quando os votos do PCP não faziam falta alguma para a reeleição de Soares, Carlos Carvalhas apresenta-se ele mesmo como candidato e ganha, se por ganhar neste caso se entender conseguir uma votação que lhe permitisse reforçar-se no partido: Carvalhas consegue 635.373 votos, que representavam 12,92% dos votos. O resultado de Carvalhas é tão mais importante quanto se constata que ele teve mais votos do que aqueles que o PCP conseguirá nas legislativas que têm lugar nesse mesmo ano de 1991 e em que o PCP se fica por uns modestos 504.583 votos. E sobretudo o resultado de Carvalhas mantém-se como o recorde conseguido pelos comunistas, quando vão a votos nas presidenciais: em 2001, quando Jorge Sampaio disputava a reeleição, o PCP levou até ao fim a candidatura de António Abreu, cujos 223.196 votos foram um desastre para o próprio e fizeram falta a Sampaio, a quem esses votos teriam ajudado a não ser, até agora, o único candidato à reeleição presidencial que perdeu votos do primeiro para o segundo mandato. E mesmo Jerónimo de Sousa em 2006 não foi além dos 474.083 votos, resultado modesto, quando comparado ao conseguido por Carvalhas, mas positivo, se se tiver em conta que mesmo assim é superior aos 433.369 votos conseguidos pelo PCP nas legislativas de 2005.

Francisco Lopes irá obter muito provavelmente um resultado muito abaixo do conseguido por Jerónimo de Sousa e Carlos Carvalhas mas que pode ser suficiente para aquilo que o PCP espera dele: que este vença a esquerda. É que, ao contrário do que afirma, o PCP sempre viveu muito bem com a direita em Belém. Aliás, não só as fronteiras para aquilo que o PCP define como sendo de direita são muito elásticas, como o PCP ajudou a colocar em Belém homens que, até ao momento em que declarou esse apoio, dizia publicamente defenderem a direita (caso de Mário Soares) ou representarem a sua ala mais ultra (Eanes).

O problema do PCP não é portanto a direita estar em Belém. Quem o PCP teme em Belém é aquela esquerda que deu quase 800 mil votos a Otelo Saraiva de Carvalho em 1976 e 400 mil a Maria de Lurdes Pintasilgo em 1980. Quem de modo algum o PCP quer ver triunfantemente sentada em Belém, mesmo que agora sem G3 à bandoleira e oficialmente coligada com o PS, é aquela gente que tanto trabalho lhe deu a neutralizar em Novembro de 1975. Ao contrário do PS, o PCP tem memória. Aliás, vive dela. E sabe muito bem que das tropelias dessa esquerda o PCP paga os danos e não tira proveitos. Logo, o papel do candidato Francisco Lopes é marcar o terreno para evitar que algum camarada tenha a veleidade de tentar derrotar Cavaco votando em Alegre. O PCP precisa de ter em Belém a direita, sobretudo se por direita se entender o muito social-democrata Cavaco Silva, que para os comunistas tem a vantagem acrescida de os tratar com muito respeito institucional, coisa que o PCP aprecia acima de tudo e que sabe que terminaria no dia em que a gente de Alegre lá se instalasse. Vencer a esquerda ou esta esquerda é a missão do candidato Francisco Lopes. Não é tarefa agradável, mas, se Cavaco Silva vencer, ninguém poderá dizer no fim que o camarada Chico Lopes não prestou um bom serviço ao partido.

*PÚBLICO

12 comentários leave one →
  1. D's avatar
    10 Dezembro, 2010 10:34

    Está tudo maluco!…
    Então não é que depois de acordar ouvi uma notícia a informar que a última sondagem deu uma subida ao PS e descida ao PSD. Segundo parece o PS obteve 30% e o PSD 36.
    Não acredito!… depois do horrível orçamento e da participada greve geral, o PS sobe nas intenções? Tudo apontava para a queda abismal do PS.

    Como se sentirá a rapaziada da “laranjada”, que espera um tacho?

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  2. LA-C's avatar
    LA-C permalink
    10 Dezembro, 2010 10:43

    “Note-se que, quando Carlos Carvalhas entrou na corrida presidencial em 1991, tomou uma opção arriscada para si mesmo enquanto líder. Era o primeiro secretário-geral do PCP a fazê-lo, pois Álvaro Cunhal nunca aceitara submeter-se ao escrutínio e à exposição pressupostos numas eleições presidenciais. ”

    Não fui confirmar, mas tenho quase a certeza de que quando Carvalhas se candidatou ele não era Secretário Geral do PCP. O secretário geral continuava a ser Cunhal. Carvalhas era “apenas” o secretário geral-adjunto do PCP.

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  3. LA-C's avatar
    LA-C permalink
    10 Dezembro, 2010 10:44

    Naturalmente, o prestígio que Carvalhas ganhou com a “vitória” nas presidenciais facilitou grandemente a sua promoção de adjunto para principal.

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  4. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    10 Dezembro, 2010 10:55

    na assembleia da república a chegar o momento habitual de o louçã descompôr o PM….

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  5. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    10 Dezembro, 2010 11:50

    infelizmente , mais boas notícias apud ine:
    No mês de Outubro de 2010, a hotelaria em Portugal registou 3,4 milhões de dormidas, valor que representa um acréscimo homólogo de 8,5%. Para este resultado contribuíram maioritariamente os não residentes (+10,8%), uma vez que o crescimento dos residentes, que em Setembro tinha sido igual ao dos não residentes, foi agora de menor expressão (+3,4%).

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  6. Tonibler's avatar
    10 Dezembro, 2010 12:00

    Quem o PCP quer ver são os euros da subvenção… Aldrabam as contas da campanha e abicham uns trocos camaradas. Porque carga de água iriam deixar escapar uma maneira de sugarem dinheiro ao contribuinte? Não é assim que viveram a vida inteira?

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  7. helenafmatos's avatar
    helenafmatos permalink
    10 Dezembro, 2010 12:01

    Pois é D ou melhor dizendo Abrantes a rapaziada laranja não deve ter tacho pq rapidamente PPC vai perceber que deve recorrer aos serviços da rapaziada do Câmara Corporativa. Uma rapaziada assim disposta a tudo dá muito jeito. Vai ver que nem tem de mudar de sítio.

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  8. A C da Silveira's avatar
    A C da Silveira permalink
    10 Dezembro, 2010 12:56

    Eu sei que devemos ser tolerantes, mas porque é que a escumalha abrantina censura os comentarios que os contradizem no C Corporativa, e aqui no Blasfemias lhes aturam a diarreia mental? Há limites para tudo e este D só escreve asneiras.

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  9. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    10 Dezembro, 2010 13:59

    Da forma desastrada como está a decorrer a «campanha» do Cavaco – que não aquece nem arrefece ninguém! – ainda vamos assistir à candidatura do PCP desistir a favor do Cavaco, para estar ao lado do vencedor…

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  10. Pi-Erre's avatar
    Pi-Erre permalink
    10 Dezembro, 2010 19:45

    ” Há limites para tudo e este D só escreve asneiras.”
    .
    Escreve o que lhe mandam, ora essa…

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  11. Pi-Erre's avatar
    Pi-Erre permalink
    10 Dezembro, 2010 21:31

    O comentador LA-C tem razão. Em 13 de janeiro de 1991, data das eleições presidenciais, Carlos Carvalhas ainda não era secretário geral do PCP.

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  12. Nuno's avatar
    Nuno permalink
    11 Dezembro, 2010 00:01

    Pois é, as continhas são muito giras e o xadrez a armar em muito importante, mas o que é giro é ver os comunistas – todos – a atirarem~se aos primos socialistas agora no poder e de chicote na mão.
    É um gozo!…

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