Saltar para o conteúdo

Presidenciais: o BE vai ganhando*

7 Janeiro, 2011

O caso BPN fez do Bloco de Esquerda o partido que até agora marcou mais pontos nestas presidenciais. Coisa tão mais difícil quanto as presidenciais não são eleições de que o BE guarde boas memórias e sobretudo porque dificilmente em 2011 os bloquistas conseguiriam um candidato próprio cujo resultado não fosse uma desilusão ainda mais expressiva do que a protagonizada por Louçã em 2006.
Assim, ao manifestar o seu apoio a Manuel Alegre, o BE resolveu inteligentemente essa sua lacuna e preparou-se para lançar estacas no seu óbvio e único terreno de expansão: o PS. A disputa entre estes PS e BE está para continuar e note-se que não se trata apenas de contar eleitores, mas também de avaliar o seu destino enquanto partido: durante quanto tempo mais o BE vai funcionar como a “jota” alternativa do PS? Afinal quando os universitários nados e ensinados nesses departamentos ditos de “ciências sociais”, que são uma espécie de altares da igreja-altermundialista do professor Boaventura, se tornam assistentes e consultores, trocando o lencinho palestiniano pela camisa de bom corte, mantêm a retórica do BE, mas acham muito pragmaticamente que o PS lhes assenta melhor na cabine de voto.
Há anos que o PS se alimenta das outras esquerdas: primeiro, foram os dissidentes do PCP, como Vital Moreira, Barros Moura, José Magalhães e Pina Moura. Agora vai ser a vez de o BE cumprir esse papel? O BE até agora tem iludido o paradoxo de ser um partido associado ao eleitorado jovem, mas que na verdade está para juventude como os ranchos para vida rural: é tudo uma questão de adereços, pois desde a ideologia à liderança tudo ali é muito antigo. Tão antigo que em matéria de longevidade na liderança política Francisco Louçã só enfrenta a concorrência de Alberto João Jardim. Por enquanto o BE vive desta quadratura do círculo – ou seja, beneficia da longa experiência política duma liderança que face ao seu eleitorado parece uma delegação do politburo caída no meio duma performance evocativa do Maio de 68. Por outras palavras, o BE vai ser o próximo partido a fornecer quadros além de votos ao PS. E o que ganha o PS com isso?
Os dissidentes do PCP trouxeram aos socialistas capacidade de trabalho, neurónios e os maus hábitos do centralismo democrático que de centralismo tem muito e de democrático não tem nada. Dos esquerdistas o PS pode incorporar esse “frenético-causismo” que os faz passar em transe de uma causa para a outra, como se daí dependesse a salvação do mundo e das almas – casamento entre homossexuais, alterações de clima ou a Faixa de Gaza. Este contributo tácito dos esquerdistas é muito importante para criar a ideia de que existe uma mobilização real e sobretudo deixa o núcleo central dos socialistas disponível para exercer estrategicamente o poder e os negócios com mão de ferro e pouca transparência. Veja-se o caso espanhol onde o Governo de Zapatero colocou trabalhadores civis sob lei militar perante o imenso silêncio das ONG, activistas e demais indignados profissionais. A razão de tal “distracção” deve-se a que agora os activistas e activismos andam a reboque dos esquerdistas do governo, a perseguir os fumadores e sobretudo a recriar velhas intolerâncias em torno do nome das ruas, do tirar e do pôr de cruzes em monumentos e do bilinguismo.
Estas presidenciais eram em Portugal o momento em que esse frentismo de esquerda podia ter acontecido com vantagem para ambas as partes da esquerda, mas para isso era necessário que Manuela Ferreira Leite tivesse ganho as eleições em 2009 ou que, continuando Sócrates primeiro-ministro como continuou, Cavaco Silva tivesse dissolvido a Assembleia da República. Por isso só aparentemente Manuel Alegre cai em contradição, quando se insurge pelo facto de o actual Presidente não ter afastado o primeiro-ministro. Se isso tivesse acontecido, seria possível criar uma frente das esquerdas contra Cavaco Silva que passaria ele mesmo a personificar as medidas impopulares do Governo, o fim do sonho de Abril, o neoliberalismo, as grilhetas etc… etc…
Mas como Sócrates e o PS permanecem no Governo, a campanha que resta a Manuel Alegre não é a do PS, mas sim a do BE, que é o mesmo que dizer uma campanha centrada não na mobilização popular, mas sim nos casos. Logo no início foi o caso do modelo 566 da PIDE que Cavaco Silva teve de preencher para ter acesso a documentos NATO. Tentar fazer deste documento um caso da campanha era mais ou menos patético não só porque milhares de portugueses preencheram documentos semelhantes, mas também porque a utilização política do material dos arquivos é sempre uma arma de pelo menos dois gumes. Agora temos o caso BPN. E aí houve um claro reacertar de agulhas na campanha de Alegre: a 29 de Dezembro de 2010, no debate com Cavaco Silva, na RTP, Manuel Alegre considerou que aquilo que lhe interessava discutir era a situação deste banco e não a compra e venda de acções da SLN por Cavaco Silva num tempo em que era professor. Mas a 4 de Janeiro de 2011, no Funchal, Manuel Alegre exigiu que Cavaco Silva mostrasse o contrato de venda dessas acções e dissesse “a verdade toda sobre o BPN”. Ou seja, Alegre apostou em fazer o contrário do que defendera na RTP: estabeleceu a confusão-identificação entre as acções que Cavaco Silva deteve em 2003 na SLN e a nacionalização do BPN em 2008 e rematou com umas alusões meio conspirativas a uma “verdade toda”. Pelo meio esquece que os próprios governos portugueses, nomeadamente o de José Sócrates, escolheram o BPN para aplicar verbas da segurança social precisamente porque naquele banco, tal como acontecia com as acções da SLN, a remuneração era acima da média praticada pelo mercado.
Achar que Cavaco Silva tem alguma responsabilidade no BPN por ter detido acções da SLN é algo de tão desrazoado quanto considerar que Manuel Alegre deve responder pelos desmandos do BPP, banco para o qual fez um texto publicitário que aquele banco publicou em 2005/2006.

Mas uma coisa são os factos e outra a campanha e esta estratégia de arrastar Cavaco Silva e as suas poucas acções da SLN de 2003 para o buraco do BPN em 2011 pode funcionar muito bem numa campanha, sobretudo se essa campanha for ideológica e politicamente da responsabilidade do BE, como está a ser, e visar obter mais notícias do que apoio popular.
Com as suas declarações na Madeira, Alegre abriu noticiários em Lisboa, mas não teve povo na rua. A sua primeira acção de campanha foi cancelada e a arruada no Funchal correu mal. E não adianta culpar o caciquismo de João Jardim, nem o clima e muito menos os horários por este falhanço, pois o caciquismo de João Jardim tal como o clima e os horários eram os mesmos em 2006, quando Alegre na mesma Madeira foi confrontado com um acolhimento popular que a todos e sobretudo ao candidato surpreendeu pela positiva. Para ter povo, para ter votos e para ter uma campanha que não faça dele um clone envergonhado do maniqueísta Louçã, Alegre precisa de mais do que do BE.
*PÚBLICO

10 comentários leave one →
  1. Miguel Paiva's avatar
    Miguel Paiva permalink
    7 Janeiro, 2011 09:40

    Excelente análise. Parabéns!

    Gostar

  2. SM's avatar
    7 Janeiro, 2011 09:54

    O problema é outro. Cavaco foi mais um dos que receberam uma luva da SLN através dos supostos lucros dessas acções. Essas acções eram mais um dos meios da SLN/BPN para fazer desaparecer dinheiro para os bolsos dos amigos. No outro lado temos milhares de cidadãos comuns a quem foram impigidas essas acções e não receberam juros e o capital investido esfumou-se.

    Gostar

  3. helenafmatos's avatar
    helenafmatos permalink
    7 Janeiro, 2011 10:02

    Entre 2001 e 2003 existiram na SLN «milhares de cidadãos comuns a quem foram impigidas essas acções e não receberam juros e o capital investido esfumou-se»?

    Gostar

  4. Eleutério Viegas's avatar
    Eleutério Viegas permalink
    7 Janeiro, 2011 10:05

    O Louçã com 50 e tal (já são bastantes…) anos da “jota”?… Give me a break!… Forever young? LOL!

    Gostar

  5. Eleutério Viegas's avatar
    Eleutério Viegas permalink
    7 Janeiro, 2011 10:08

    SM:

    Tem toda a razão, SM. Eu sou um dos milhares de cidadãos comuns, muito comum, aliás, eu sou, e ainda ontem as tentei vender e ninguem as quis… E esta, ahn?

    Gostar

  6. helenafmatos's avatar
    helenafmatos permalink
    7 Janeiro, 2011 10:16

    Entre 2011 e 2003 vão 8 anos de diferença.

    Gostar

  7. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    7 Janeiro, 2011 11:13

    o seu post só confirma que louçã é um magnífico profissional político.
    onteu deu gozo o modo como descompôs o inenarrável macedo!

    Gostar

  8. A C da Silveira's avatar
    A C da Silveira permalink
    7 Janeiro, 2011 12:27

    Grande post. Apesar de tudo é triste ver Alegre assumir a agenda do Bloco de Esquerda. Afinal quem não tem ideias, tem que assumir as dos outros. Mesmo que sejam politica baixa e reles.
    A figura que Louçã fez ontem no Parlamento é apenas uma imagem do que nos esperaria se Alegre fosse eleito.

    Gostar

  9. Fredo's avatar
    Fredo permalink
    7 Janeiro, 2011 14:35

    Depreendo portanto do post que, sendo Louçã o mensageiro, não há tramóia.
    E se o mensageiro foi Defensor Moura já será tramoia?
    E se, antes de tudo isso, o mensageiro foi um jornalista, será ou não tramóia?

    Gostar

  10. J. Madeira's avatar
    J. Madeira permalink
    7 Janeiro, 2011 23:19

    Pode dar-se o caso de interessar a José Sócrates a reeleição de Cavaco Silva, por ser mais previsível
    e fiável. Entretanto, terá um ano para mobilizar o PS, procedendo a ajustes internos com vista a,
    eventuais, eleições legislativas em 2012, após inadiáveis TPCs feitos!
    Quanto ao BE voltará a ser um pequeno partido de agitadores, sem os votos dos profes e outros
    descontentes obterá 6 ou 8 deputados na A. da República! Talvez nem tantos, se for reduzido, como deve ser, o número de deputados no Parlamento!

    Gostar

Indigne-se aqui.