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O glamour do mundo dos famosos*

14 Janeiro, 2011

Volta e meia apetecia-me escrever sobre o assunto, mas invariavelmente ia deixando para depois. O assunto é o dito e redito glamour do mundo da moda, do espectáculo e da fama. O assassínio de Carlos Castro – ao menos a brutalidade deste caso serviu para que se abandonasse a hipocrisia do alegadismo! – trouxe mais uma vez à baila a conversa sobre o glamour do mundo da moda, o interessante mundo do espectáculo e o desejo de ser famoso.
Deixando de lado o crime em si para outras vozes, fico-me pelo glamour e desde já esclareço que a única coisa que vejo de interessante e de glamoroso nesse mundo é o que dele resulta, seja esse resultado uma colecção de roupa, um filme ou um espectáculo. Quanto aos protagonistas e bastidores em que se movem, são em geral tão interessantes ou desinteressantes quanto os doutro qualquer sector onde se concebem, produzem e comercializam outros quaisquer produtos. A substancial diferença é que o mundo da moda e do espectáculo recicla, embrulha em papel cor-de-rosa e comercializa em seguida com elevada rentabilidade aquilo que nos outros sectores se esconde e é condenado. Afinal qual é diferença entre o assédio sexual, o consumo de drogas e a prestação de favores sexuais para obter contrapartidas profissionais numa qualquer fábrica têxtil e no dito mundo da moda e do espectáculo? Nenhuma, porque acontece em ambos, mas claro que numa fábrica tudo isso são problemas que há que combater e chagas sociais que há que denunciar, enquanto no tal mundo do glamour não há problemas propriamente ditos mas apenas zangas, discussões e reconciliações entre os famosos.
Desta glamorização do que não só não tem glamour algum, como em muitos casos se aproxima mais daquilo que noutros contextos e com outros protagonistas designamos como ridículo ou sórdido, resulta uma paradoxal tolerância: as mesmas famílias e jovens sempre muito activos na denúncia do trabalho infantil – mesmo que o dito trabalho seja servir umas bicas no café familiar -, que acham que qualquer exigência horária causa traumas irreparáveis no cérebro dos adolescentes e que qualquer palavra menos festiva de um professor é, pelo menos, caso para apresentar queixa por violência psicológica aceitam tudo e mais alguma coisa em troca de um futuro como “famoso” para os seus filhos e familiares. Já se imaginou um professor a falar com os alunos como fazem os membros dos júris dos concursos de talentos? E os meninos perante aqueles destratos transmitidos em directo e colocados online pelos canais de televisão limitam-se a lacrimejar e a garantir que não vão desistir do seu sonho. Se em vez de estúdio a acção decorresse numa escola e o que estivesse em causa fosse a Matemática e não ser famoso, logo uma multidão de sábios garantiria que daquela apreciação negativa e da sua divulgação na pauta escolar nasceria um horror tão justificado quanto irremediável ao simples acto de somar dois mais dois.
É algo de muito perturbante a ingenuidade e a permissividade das famílias de crianças e jovens perante a sua entrada no mundo da fama onde o olhar erotizado sobre os mais novos é mais do que óbvio e onde frequentemente eles valem pela cara e pelo corpo que têm.
Há algum tempo um conhecido meu dizia-me que o filme Torre Bela devia ser obrigatório nas escolas portuguesas, pois após o seu visionamento acabar-se-ia a romantização das utopias socialistas. Não sei se ele tem razão no que à romantização do socialismo respeita, mas quero acreditar que a glamorização do mundo do espectáculo e da fama seria olhada com outros olhos, caso mais gente tivesse visto aquela cena do filme Belissima, de Visconti, em que uma mãe, protagonizada por Ana Magnani, ouve a conversa dos responsáveis pela escolha da sua filha para o papel principal de um filme. Nesse momento ela não viu a sua filha como a via habitualmente – Belissima -, mas sim pelos olhos dos adultos que iam fazer o filme.

*PÚBLICO

24 comentários leave one →
  1. Lima's avatar
    Lima permalink
    14 Janeiro, 2011 10:15

    Os bois pelos nomes, como habitualmente
    Obrigado.

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  2. Piscoiso's avatar
    Piscoiso permalink
    14 Janeiro, 2011 10:22

    Isso é o tipo de conversa que dá pano para mangas.
    Apenas com esses alinhavos, é conversa de treta.

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  3. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    14 Janeiro, 2011 10:28

    o glamour do mundo dos famosos é tema,mas já não o é o glamour da casa de férias de luxo do presidente na aldeia/urbanização da coelha, que aliás não é dele é da prima chamada «Off-Shore»
    Faça-se de conta que a Visão é um pasquim e os articulistas do Público não a lêem!

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  4. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    14 Janeiro, 2011 10:30

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  5. Revoltado's avatar
    Revoltado permalink
    14 Janeiro, 2011 10:30

    Clap, clap, clap…
    Gostava de ter escrito este “post”.
    Subscrevo na totalidade. Parabéns ao autor.
    Há muito que me indigna a situação: no mundo da moda e artístico em geral, tudo é “glamour” e chic. No resto, é tudo piroso, de má-fama, drogado, etc., etc..
    Se uma artista, teve relacionamento íntimo com “mil homens”, normalmente quando desaparece, fica para a história como tendo tido uma vida cheia, que foi uma grande mulher, etc., etc.. Mas, quando uma uma outra qualquer senhora teve mais do que um relacionamento, após o seu desaparecimento, normalmente diz-se: teve uma vida muito má, era um desgraçada que andava com qualquer um, etc., etc..
    Enfim!…mais uma vez parabéns.
    P. S.: Como homem, dei como exemplo a mulher, mas o inverso também é semelhante.

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  6. Piscoiso's avatar
    Piscoiso permalink
    14 Janeiro, 2011 11:08

    Começa a autora por falar de Carlos Castro, que era jornalista, deslizando depois para o mundo da moda, do espectáculo e da fama.
    Acaba com a protecção à criança daquilo a que chama o glamour, ou seja, a elegância e a sedução.
    Mas se não me engano o tema é mesmo o sexo.

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  7. Miguel Paiva's avatar
    Miguel Paiva permalink
    14 Janeiro, 2011 11:34

    Excelente! Parabéns pela clarividência.

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  8. jorge silva's avatar
    jorge silva permalink
    14 Janeiro, 2011 11:55

    Até que enfim uma conversa de jeito neste blog.

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  9. Miguel's avatar
    Miguel permalink
    14 Janeiro, 2011 11:55

    “Começa a autora por falar de Carlos Castro, que era jornalista, deslizando depois para o mundo da moda, do espectáculo e da fama.”

    Jornalista?!

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  10. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    14 Janeiro, 2011 11:59

    a sua profissão era apanhar no cú como um homem!

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  11. Piscoiso's avatar
    Piscoiso permalink
    14 Janeiro, 2011 12:29

    Miguel, li em qualquer lado, se não me engano o Público, dia 8 ou 9, onde se referia o número da carteira de jornalista do Carlos Castro, um número até bastante baixo, para a resma de jornalistas que deve haver.
    Se quer dizer que não pode ser jornalista por ter sido homossexual, vai ter de estar mais atento.

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  12. xico's avatar
    xico permalink
    14 Janeiro, 2011 12:38

    Muito bem. Parabéns.

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  13. zazie's avatar
    zazie permalink
    14 Janeiro, 2011 12:44

    É a “síndrome emplastro”. Tudo para aparecer no “plasma”. O verbo plasmar que tanto está na moda é o melhor indicativo desta imbecilidade.

    Mas aqui é proibido falarem “síndrome de emplastro”. Ainda no outro dia o vosso VGM me bloqueou um comentário por ter escrito apenas isto.

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  14. Miguel's avatar
    Miguel permalink
    14 Janeiro, 2011 12:45

    Piscoiso
    Terá razão quanto a carteira profissional. A minha questão coloca-se mais no “ser” jornalista.
    Carteiras, canunos e chapéus…
    Quanto as preferências sexuais, pouco me importa o que cada um faz.

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  15. Fredo's avatar
    Fredo permalink
    14 Janeiro, 2011 13:43

    “Se quer dizer que não pode ser jornalista por ter sido homossexual”
    .
    Não é jornalista quem não escreve artigos jornalísticos, embora tenha carteira profissional. Eu tenho carta de condução de pesados e não sou camionista porque só conduzo um carro ligeiro, e não profissionalmente.
    Ou chama àquelas coisas artigos jornalísticos?

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  16. Piscoiso's avatar
    14 Janeiro, 2011 14:37

    Todos os jornais se referem a Carlos Castro como jornalista.
    Se tinha carta de condução, não sei.

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  17. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    14 Janeiro, 2011 17:56

    Eu gostei do texto de helenafmatos. Aborda questões muito pertinentes e diz verdades indiscutíveis. Saliento aquela que se refere à previsível aceitação de um insulto grosseiro por um qualquer alienado júri, contra a recusa de uma ligeira admoestação, mesmo em caso de prevaricação grosseira, de qualquer professor. Ou ainda aquela de um(a) jovem não poder servir uma bica no café dos pais, mas poder andar a mostrar a “carne fresca” nas passerelles.
    Não fosse aquela recaída para o “socialismo” que pouco tem a ver com estes assuntos e estaria, vá lá, muito bom!

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  18. Fernandp G. Pereira's avatar
    Fernandp G. Pereira permalink
    14 Janeiro, 2011 18:39

    O famoso Piscoiso que não é jornalista mas é comentarista de blogs com carteira, ainda vai dizer que o Carlos Castro era camionista.

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  19. Bloody Mary's avatar
    Bloody Mary permalink
    14 Janeiro, 2011 20:05

    Mas que grande artigo! Que nem mercurocromo (agora é “betadine”…) na ferida. Ai aqueles minutinhos de fama com os progenitores a beberem sofregamente cada palavra doce ou amarga sobre os seus rebentos, ansisos por vê-los “desfilar e arrasar”, “singrar no mundo da moda”, etc. Pois é, mas o fio condutor disto tudo, vai-se a ver, é um rastilho, no fim do qual , neste caso, estava um rapaz que chegou a ganhar um concurso que lhe deu alguma notoriedade e até a entrada para uma agência do ramo. Mas, em 2 anos de “agenciamento”, nem um trabalho teve e acabou nos braços do CC. Só que o Mr. Hyde já estava aos comandos e o CC pressentia-o, estava com medo, queria fugir sem perder a face, até tinha antecipado em uma semana o regresso de NY. O Mr. Hyde antecipou-se e fez uma carnificina – a grande maçã, tão podre! Pela triste sorte destes infelizes se adivinha a de tantos outros “pares” que nem conhecidos chegam a ser . Percebe-se também o gigantesco embuste destes concursos que mais não são do que operações de prospecção de carne nova. No fundo, o celofane cor-de-rosa dos amanhãs que cantam, vividos pelo homem novo.

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  20. Piscoiso's avatar
    14 Janeiro, 2011 20:50

    Ó Fernandp, (Posted 14 Janeiro, 2011 at 18:39), isso de comentarista com carteira não sei que seja.
    Bloguista sou, com quatro blogs, sendo o PISCOISO um dos mais antigos da lusa blogosfera, nascido a 20/07/2002.
    A vida de Carlos Castro não me interessa.
    Nem a sua.

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  21. JCA's avatar
    JCA permalink
    15 Janeiro, 2011 00:04

    .
    O ‘Glamour Tuga’ rebaixa-se ao nivel cultural de,
    .
    -Paedophilia ‘culturally accepted in south Afghanistan’
    British forces were advised by a military study that paedophilia is widespread and culturally accepted in southern Afghanistan.
    http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/asia/afghanistan/8257943/Paedophilia-culturally-accepted-in-south-Afghanistan.html
    .
    -Grandmother murdered by Tunisian boyfriend on holiday
    A British grandmother was murdered by her Tunisian boyfriend on the last night of her North African holiday, an inquest heard.
    http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/crime/8004329/Grandmother-murdered-by-Tunisian-boyfriend-on-holiday.html
    .
    -Third of young Japanese men not interested in sex
    More than a third of Japanese males aged between 16 and 19 have no interest in or are actively averse to sex, according to a government survey.
    http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/asia/japan/8257400/Third-of-young-Japanese-men-not-interested-in-sex.html
    .

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  22. TaCerto's avatar
    TaCerto permalink
    15 Janeiro, 2011 21:03

    Raramente concordo com a Helena mas não há regra sem excepção.

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  1. Daqui de onde estou apenas ouço o esvoaçar dos abutres @ semiose.net
  2. Daqui de onde estou apenas ouço o esvoaçar dos abutres @ semiose.net

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