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fora da sua alçada

6 Março, 2011
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Para que serve um Ministério da Educação plenipotenciário, dirigista, centralizado em Lisboa, com tutela sobre uma imensa rede de escolas à escala de todo o país, e projectado pela cabeça de uma senhora ministra e da sua corte de burocratas? E que utilidade tem um curriculum uniforme para o Ensino Básico das escolas públicas, sempre em eterna e constante «reformulação»? Eu respondo: serve para colocar em confronto permanente ministros, ministérios, professores, pais, alunos e sindicatos, e, obviamente, para fazer descer – se é que isso ainda é possível – a qualidade do ensino público português. Não poderiam, porventura, os conhecimentos que esse curriculum supostamente quer assegurar ser estruturados localmente, por cada uma das escolas, desde que se garantissem coisas elementares na educação de um cidadão, como, por exemplo, aprender a ler e a escrever, a somar, multiplicar e dividir, e a responder à pergunta «quem foi o primeiro rei de Portugal», matérias a que os nossos «agentes educativos», todos eles quase sem excepção, respondem cada vez com maior dificuldade, embrenhados que andam em pontapearem-se reciprocamente? E não poderia, por sua vez, cada uma das Universidades portuguesas, no exercício daquilo que deveria ser a sua autonomia, admitir os alunos que se lhes apresentassem com melhor preparação, deixando à porta os menos preparados, até que eles conseguissem, pelo menos, atingir o nível suficiente de conhecimentos para frequentarem os cursos a que se candidatam? É claro que sim. Para tanto, seria necessário que a educação deixasse de ser um assunto da responsabilidade de burocratas, e passasse a ser tratado por professores, pais e de alunos de cada uma das escolas, e, no fim de tudo, certificado pelo mercado. Acabar com o Ministério da Educação, com os curricula uniformes e as suas infindáveis reformas, e com a rede de escolas públicas centralizadas no gabinete dos senhores ministros, são condições sem as quais o ensino público português não abandonará a mediocridade em que há muito se encontra.

20 comentários leave one →
  1. José Pinto Basto's avatar
    José Pinto Basto permalink
    6 Março, 2011 09:28

    No tempo do Salazar, esse pulha, os professores davam na tromba aos meninos difíceis, pegavam com ambas as mãos as orelhas dos meninos e batiam com a cabeça, repetidas vezes, contra a pedra cinzenta que nunca partia, excepto a cabeça.
    Os pais dos meninos eram chamados, durante o decorrer das aulas, para aí os professores apresentarem as suas queixas, os meninos levavam cada trepa dos velhotes à frente de toda a gente que era de fugir. Os meninos bons ficavam melhores, os piores ficavam piores.
    Sabiam os nomes dos rios, das serras e a tabuada.
    No tempo do socialismo não, quem leva na tromba são os professores, dos alunos, dos pais destes e da ministra…deve-se ensinar os valores morais do socialismo…

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  2. ca's avatar
    6 Março, 2011 09:31

    Percebo as críticas ao centralismo? Mas, com as tradições portuguesas, como evitar que em vez de autonomia tivéssemos apenas caciquismo?

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  3. Carlos Pires's avatar
    6 Março, 2011 09:33

    Percebo as críticas ao centralismo? Mas, com as tradições portuguesas, como evitar que em vez de autonomia tivéssemos apenas caciquismo?
    Haveria lugar para exames nacionais exigentes ou isso seria ainda mero centralismo?

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  4. Manuel Menezes de Sequeira's avatar
    Manuel Menezes de Sequeira permalink
    6 Março, 2011 09:42

    Não haveria caciquismo, ou não teria efeito. Haveria escolas com diferentes projectos, diferentes programas, diferentes abordagens ao ensino, diferentes ritmos, etc. Sobretudo, seríamos livres de escolher o ensino dos nossos filhos, livres do poder coercivo dos iluminados do ministério.

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  5. Manuel Silva's avatar
    Manuel Silva permalink
    6 Março, 2011 10:27

    Vivam as madrassas …

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  6. Nina's avatar
    Nina permalink
    6 Março, 2011 10:53

    Carlos Pires,
    Até na vizinha Espanha existe a descentralização da Educação por que razão é que em Portugal é o “deixai vir a nós as criancinhas”? Justificou com as tradições portuguesas e o tal de caciquismo, mas não estará na nossa mão combatermos isso? As regiões seriam sempre responsáveis por atingir metas nacionais, mesmo dentro da sua autonomia e respeitando as idiossincrasias regionais e os seus dirigentes seriam a cara dessa responsabilidade. Para bem e para mal.
    Fim dos Exames Nacionais, sendo as Universidades, enquanto instituições autónomas, a fazer os seus exames tendo em conta o perfil do aluno desejado.
    Por exemplo, as faculdades de Engenharia Civil das várias Universidades Portuguesas teriam de criar um Exame de acesso, obviamente à escala nacional. Isto não beliscaria a autonomia das Universidades porque haveria a seriação dos alunos, pelas classificações obtidas, que seriam livres de escolher a sua instituição preferida.
    Assim, uma Educação Regional estaria muito mais pressionada para a busca dos bons resultados, por pressões exógenas, claro, do que entrar em compadrios, ou seja, em caciquismos.
    Agora o centralismo absurdo do governo raia a loucura!Aliás, neste ministério e em todos os outros.
    O país continua a ser um imenso rebanho em que os pastores, desorganizados, se acomodam todos numa enorme abóbada: a cabeça do polvo, na capital do impérido pindérico, palco ditatorial. Porque supremo. Entenda-se.
    (É tudo tão faz de conta neste país que até a responsável pela pasta da Educação usa um pseudónimo como apelido! E o pessoal, atrás, faz mééééé…Patético!)

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  7. tina's avatar
    tina permalink
    6 Março, 2011 12:42

    “Para tanto, seria necessário que a educação deixasse de ser um assunto da responsabilidade de burocratas, e passasse a ser tratado por professores, pais e de alunos de cada uma das escolas, e, no fim de tudo, certificado pelo mercado”
    .
    Além da burocracia o problema é que não existe a metodologia e tudo é deixado ao Deus dará. Nas reuniões do Conselho Pedagógico a que eu assistia como representante dos pais, gastava-se a maior parte do tempo a discutir coisas que não estavam directamente relacionadas com o ensino. Quando os maus resultados escolares chegavam o Director dizia assim: “Temos de pensar em maneiras de resolver este problema”. Depois seguia-se uma discussão geral, as professoras a queixarem-se disto e daquilo, mas sem propor quaisquer medidas. Passava-se ao seguinte ponto, com o cuidade de ficar registado na acta o que esta e aquela professora tinham dito. Na reunião seguinte, lia-se a acta – gastava-se imenso tempo com isso – sobre o que todos tinham dito na reunião anterior. Era sempre assim, todos os anos.

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  8. ASL's avatar
    ASL permalink
    6 Março, 2011 13:15

    #Tina,
    o problema é que se realmente fossem postas em práticas as soluções propostas iriam ser vetadas pela Direcção Regional. Todas essas actas são para manter a burocracia top-down do ME. É um consumo intermédio de índole administrativa para manter a correia de transmissão.
    A minha esposa que é professora, em conjunto com outros profs, sempre apresentaram soluções para melhorar o ensino na escola dela. Mas esbarra sempre na Direcção na Escola, ou quando é aí aprovada, a DRE limita-se a colocar o papel no “lixo”.

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  9. Essa agora's avatar
    6 Março, 2011 14:09

    Vamos lá ver: o que é que esperavam de alguém que foi alçado(a) a ministro(a) da Educação apenas por ser co-autora de umas coisas copiadas da Enid Blyton e, além disso, “esposa”(sic!) do presidente da Gulbenkian?
    Só neste país da treta! O que é que essa gaja sabe de Educação?

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  10. Manuel Menezes de Sequeira's avatar
    6 Março, 2011 14:26

    Não há qualquer necessidade de exames nacionais ou centralizados. O mercado se encarregará de fixar os seus critérios.

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  11. tina's avatar
    tina permalink
    6 Março, 2011 15:21

    “Mas esbarra sempre na Direcção na Escola, ou quando é aí aprovada, a DRE limita-se a colocar o papel no “lixo”.”
    .
    Foi também essa a minha experiência. Uma das queixas das professoras é que os alunos perturbadores não deixavam os outros a prender. Não era aceitável mandar as crianças para a rua, então o que fazer? Eu sugeri que estes alunos fossem reencaminhados para um gabinete de apoio, onde pudessem falar com uma psicóloga. Eles concordaram com a ideia. Então, contactei a universidade de psicologia e perguntei se não estavam interessados que os alunos fizessem estágios naquela escola problemática. O director do departamento era uma pessoa aberta e disse que sim. Tudo o que seria necessário seria a direcção da escola escrever-lhes um pedido formal. Toda contente com os meus resultados, dei os contactos à direcção da escola. Eles nunca contactaram ninguém e as professoras continuam a queixar-se, como se queixavam há mil anos atrás, que o maior problema são os alunos perturbadores que não deixam os outros aprender.

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  12. Trinta e três's avatar
    6 Março, 2011 15:48

    Falando a sério: já por diversas vezes foi escrito que não há reforma possível na Educação portuguesa, sem primeiro se acabar com o ministério da Educação (o aparelho). As direcções regionais devem ser os “serviços” mais absurdos do Estado português, mas um dos maiores ninhos para as clientelas a que é necessário contentar. No entanto, sabendo-se disto desde há muito, quer PS, quer PSD só mostram alguma sensibilidade para o assunto… quando não estão no governo. Percebe-se porquê.

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  13. BST's avatar
    BST permalink
    6 Março, 2011 16:21

    Serve, também, para melhor impor ordens de organizações discretas. A promoção do «acordo» ortográfico é uma delas.

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  14. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    6 Março, 2011 16:50

    “Percebo as críticas ao centralismo? Mas, com as tradições portuguesas, como evitar que em vez de autonomia tivéssemos apenas caciquismo?”
    .
    Sempre à procura do Sebastianismo – o líder salvador-. Ou seja do caciquismo em ponto grande que assim já parece respeitável.
    .
    Milhares de caciquistas todos em concorrência é melhor- ou menos mau- do que um cacique único.
    Para começar se o cacique único erra – todos os Portugueses levam por tabela- como está a acontecer.

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  15. balde-de-cal's avatar
    balde-de-cal permalink
    6 Março, 2011 18:10

    só interessam comentário dentro da ditadura do politicamente correcto.
    a luta cão-tinua

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  16. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    6 Março, 2011 20:02

    Com o professorado que temos, como é que podemos chegar a algum lado?

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  17. Francisco Colaço's avatar
    Francisco Colaço permalink
    6 Março, 2011 21:39

    Caros,
    .
    O mercado não é grande coisa em termos de educação. Nem o centralismo. As experiências educativas são divisadas por brilhantes supernovas intelectuais (que se gastam num brilho fulgurante). Estas estrelas anãs (após o brilho) têm tido uma coisa em comum: não têm filhos.
    .
    O Mercado fez os São Teutónios e os colégios de Nossa Senhora dos Remédios das Entradas para a Universidade e os Colégios do Passa Fácil. Este é o mercado que, numa lógica imediatista, comum a quem tem de pagar contas, lixa o futuro.
    .
    O centralismo é tão bom ou pior.
    .
    Para mim, haver exames nacionais, por universidade ou por curso é indiferente, provisto que as notas inflaccionadas do secundários dos colégios remediais e das escolas das novas tortuosidades (não resisti!) não sejam pesadas.
    .
    O ME deve apenas decidir qual o programa mínimo que as escolas devem ensinar. Quem desejar ensinar acima do mínimo tem de ter a liberdade de o fazer. As escolas que desejarem colocar em acção planos de apredizagem da dança de salão, do golfe ou da equitação devem ter a liberdade de o fazer, conquanto seja pago pelos que o desejarem. Quem desejar ensinar biologia criacionista, por muito que me custe, deve ter consagrada essa liberdade. Contudo, os testes de acesso à universidade devem incidir sobre as correntes aceites da biologia, ou seja, evolucionista, e os alunos deverão ter de morder a língua e engolir o sapo (criacionista), coisa que aliás os treina para a vida no mundo real, como bem sabemos.
    .
    Quanto à nossa ministra (de letra pequena vai, e já é uma concessão) há que ser claro: deve reduzir-se ao seu papel essencial: definir um programa mínimo para cada grau de ensino e cada qualificação.

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  18. A. R's avatar
    A. R permalink
    6 Março, 2011 22:51

    Esta mulher está cada vez mais um clone da Maria de Lurdes Rodrigues: um desastre para não destoar do elenco deste circo de aldeia parola. Todos são contagiados pelo mestre do engano e da propaganda Goebels.

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  19. Eduardo F.'s avatar
    6 Março, 2011 23:39

    Chapelada! Há muito que também defendo o desmantelamento do ME.

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