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“Ninguém sai bem disto” e “Nunca se viu nada assim” andam por aí*

8 Abril, 2011

Quando alguma coisa corre mal a José Sócrates temos geralmente dois círculos de reacção – o primeiro, de reacção muito dura, conta com nomes como Carlos César, Almeida Santos, Silva Pereira, José Lello e Santos Silva. Este primeiro círculo caracteriza-se por responder de imediato àqueles que põem em causa a versão de José Sócrates de determinado facto, transformando-os de imediato em inimigos. O segundo círculo é composto pelos agrupamentos “Ninguém sai bem disto” e Nunca se viu nada assim”. Ao contrário do primeiro círculo que se caracteriza por responder atacando, “Ninguém sai bem disto” e “Nunca se viu nada assim” não criticam aparentemente ninguém. Mas só aparentemente porque quando “Nunca se viu nada assim” lastima que se tenha chegado a tal estado de crispação e conflitualidade, concluindo em seguida que, no passado, jamais se tinha visto tal coisa, nivela todos por baixo. E quando “Ninguém sai bem disto” torna iguais o primeiro-ministro e aqueles que o acusam de mentir, transforma todos em mentirosos. Ora temos de convir que é tecnicamente impossível conceber uma conspiração que envolva, entre outros, Bagão Félix, Chico Buarque de Holanda, Passos Coelho, doze proprietários de casas na Guarda, Faia e Porto da Carne, Cavaco Silva, o jornalista Henrique Monteiro e o próprio José Sócrates. Todas estas pessoas, a que por cansaço e economia do espaço já nem junto outras, como as envolvidas no caso Freeport, em determinado momento viram-se confrontadas com o facto de só lhes restar a sua palavra contra a de José Sócrates.

As razões que os levaram a isto foram variadas: o que se discutiu no Conselho de Estado (Bagão Félix); quem pediu para ser apresentado a quem (Chico Buarque de Holanda); o combinado acerca das conversas mantidas com Sócrates (Passos Coelho); a autoria de projectos de engenharia (doze proprietários de casas na Guarda, Faia e Porto da Carne); o compromisso de reconduzir o médico João Lobo Antunes no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (Cavaco Silva); o teor de uma conversa telefónica com o primeiro-ministro sobre o diploma deste (Henrique Monteiro); o conhecimento da tentativa de aquisição da TVI (José Sócrates, ao telefone em Março de 2010, desmentido em Junho de 2010 por José Sócrates na AR).

Os casos desta lista nada têm a ver com divergências políticas. São simplesmente factos que segundo os envolvidos correram de um modo e segundo Sócrates doutro: no limite Sócrates acabou a desmentir-se a si mesmo numa espécie de vertigem que o leva a rechear o seu discurso de ‘nãos’ absolutos e de rotundos advérbios de modo. E quando se esperava que esta banalização das acusações de mentira causasse indignação e se procurasse apurar quem mentia eis que “Ninguém sai bem disto” lança sobre todos o diáfano manto da insídia e, pior que tudo, fica sorrindo com o ar de quem fez um bom trabalho enquanto paira acima dessas coisas. “Ninguém sai bem disto” sai sempre bem e sem nunca se comprometer.

Já “Nunca se viu nada assim” expõe-se muito mais. Logo à partida porque como é óbvio já se viu muita coisa assim. Em matéria de discordância sobre o discutido no Conselho de Estado basta recuar a 2000, ano em que, como o PÚBLICO explicava na sua edição da última terça-feira, Álvaro Cunhal acusou Cavaco Silva de ter, no Conselho de Estado, defendido o fim do apoio português à guerrilha timorense. Cavaco Silva reagiu exigindo a divulgação da acta dessa sessão do Conselho de Estado o que gerou um grande debate em torno do sigilo desses documentos: 30 anos foi o prazo fixado para que elas sejam reveladas mas em “casos excepcionais” o Presidente da República pode autorizar a divulgação das actas, sobretudo se estiver em causa a defesa das instituições ou a honra de pessoas.

Logo se os fiéis do “Nunca se viu nada assim” fossem um pouco mais estudiosos perceberiam que Cavaco Silva, o homem que por experiência própria sabe que se podem divulgar actas do Conselho de Estado, não ficou propriamente tranquilo quando viu Sócrates a negar – seis vezes repetiu não – que o Conselho de Estado tivesse abordado a temática do pedido de ajuda externa. As declarações de Bagão Félix desmentindo Sócrates, a que se seguiram as declarações de Carlos César, Almeida Santos e António Capucho, criaram, propositadamente por parte de Bagão e inadvertidamente por parte de César e Almeida Santos, as condições de “caso excepcional” para que Belém divulgue em nome da defesa das instituições e da honra das pessoas as actas do último Conselho de Estado. “Nunca se viu nada assim” devia estudar mais e subestimar menos mas está-lhe na massa do sangue acreditar que a História começa consigo.

E agora que chego ao fim desta crónica e se sabe que Governo vai oficialmente pedir ajuda externa qual vai ser a versão do que se discutiu no Conselho de Estado?

*PÚBLICO

7 comentários leave one →
  1. Kafka's avatar
    Kafka permalink
    8 Abril, 2011 16:00

    Afinal o 1º a pronunciar-se sobre o que foi dito ou não no CE foi o próprio sócrates. Tinha uma boa alternativa, bastando para tal dizer que sobre o Conselho não falaria, mas o linguarejo da cassete não lhe permitiu discernir a tempo e vai daí a meteu a pata na merda.

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  2. da-se's avatar
    8 Abril, 2011 17:34

    O pequeno césar açoriano nem sequer tem bestunto que lhe permita reparar que o primeiro a referir-se ao que se falou ou deixou de falar no Conselho de Estado foi o mentiroso-mór do reino. Sim, esse mesmo, o gajo que é tanto engenheiro como o próprio césar é doutor… Da-se, que matilha!

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  3. Salvador's avatar
    Salvador permalink
    8 Abril, 2011 17:48

    excelente artigo, muito bem escrito.

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  4. JP's avatar
    8 Abril, 2011 17:48

    Sobre o sentido de estado e o estado a que chegou o PS: «O ministro das Finanças defendeu hoje que cabe às instituições internacionais a responsabilidade de negociar com a oposição o pacote de assistência a Portugal, apesar de Bruxelas considerar que essa é a tarefa do Governo. »

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  5. Gonçalo's avatar
    8 Abril, 2011 18:14

    A pescadinha de rabo na boca
    1)Constâncio, para dar tempo a Sócrates, conseguiu que o BCE emprestasse aos bancos portugueses quando mais ninguém o fazia.
    2)Com a condição destes, comprarem dívida portuguesa.
    3)Parecia que a estratégia iria dar certo, com Sócrates a relegar a ajuda do FEEF para o período pós-eleitoral.
    4)Mas, vieram – também para a banca – as novas notações (lixo ou perto disso).
    5)E os testes de stress versão 2, que se aproximam.
    6)Com as notações naqueles níveis, o BCE já não podia continuar a “abrir as pernas”, como antes, aos Bancos portugueses. Foram quarenta mil milhões. Com a economia a ver passar o dinheiro, do BCE para a banca portuguesa e desta, para a dívida pública.
    7)Os novos testes de “stress” iriam colocar no vermelho bem tinto as classificações dos bancos portugueses, por via da sua exposição à dívida nacional.
    8)Os bancos portugueses, que se estavam a encher à grande (pediam a 1% e emprestavam a 6%) viram o beco sem saída.
    E é aí que tudo muda.
    9)Vai daí tiraram o tapete a Sócrates. Que, sem solução, capitula.
    10)Agora, vem o dinheiro do FEEF. Vem?
    11)Não. Primeiro, os bancos vendem os títulos para evitarem a nota (muito) negativa nos testes de stress.
    12)Quem os compra? O Estado Português com o dinheiro do FEEF.
    13)Os Bancos, por sua vez, libertos dos títulos de dívida e com esse dinheiro, pagam ao BCE o que lá pediram emprestado para comprar os referidos.
    14)Como fica a Economia? Nas mesma… nem cheiram esse dinheiro.
    15)E o País? Assume mais apertos, com Sócrates ainda a mandar.
    16)Lá se vai metade da estratégia de Sócrates … o que pode ser positivo.

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