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Um pequeno ponto no nariz

10 Abril, 2011

Aqueles que agora estão no pavilhão de Matosinhos vão um dia fazer de conta que não se deixaram influenciar por aquele ambiente de encontro de venda de detergentes, em pirâmide. Nesse dia vão perceber que aquilo foi patético, que o discurso que em Abril de 2011 lhes pareceu arrebatador não passava duma simplória peça de demagogia. E quando é que isso vai acontecer? Não sei. Mas sei que  se lhe vai aplicar o descrito num livro que todos os políticos deviam ler: Fragmentos de Um Discurso Amoroso de Roland Barthes. Um dia os participantes naquela experiência de arrebatamento colectivo que está a ter lugar em Matosinhos vão olhar para Sócrates e descobrir nele  “Um pequeno ponto no nariz”.  O que é o pequeno ponto no nariz? Em 2005 escrevi sobre isso a propósito da campanha eleitoral de Mário Soares. Se querem perceber o que vai acontecer a Sócrates acho que vale a pena reler esse texto com a ressalva de que com Sócrates vai ser pior pois, ao contrário de Soares, não tem amigos, apenas parceiros de poder e de negócios. 

 Um pequeno ponto no nariz

Não há dia em que Mário Soares ou alguém por ele não acuse o jornalista A ou B de estar a favorecer Cavaco Silva ou Manuel Alegre. E contudo apenas Francisco Louçã concorre em Portugal com Mário Soares naquilo que se chama boa imprensa e sobretudo na capacidade de a suscitar. É uma capacidade invejável. Torna-se quase uma espécie de sortilégio a que os outros dificilmente escapam. Conta-se que, em 1995, em Espanha, o director do El Mundo, Pedro J. Ramirez, evitava que os jornalistas mais inexperientes acompanhassem Felipe González em acções de campanha porque, após breves horas ao lado do então líder socialista espanhol, voltavam mais “felipistas” que os próprios militantes do PSOE. Acusações de corrupção, chantagem e até assassínios perpetrados por uma estrutura secreta que reportava directamente a um núcleo duro governamental… tudo se desvanecia perante o carisma de González. Ou, melhor dizendo, desvaneceu até ao dia em que o encanto se quebrou.
De todos os líderes portugueses, Mário Soares é, sem dúvida, aquele que, após o 25 de Abril, melhor soube usar os meios de comunicação. O livro de Estrela Serrano, sua assessora de imprensa na Presidência da República – As Presidências Abertas de Mário Soares: As Estratégias e o Aparelho de Comunicação do Presidente da República – é um documento imprescindível para se perceber não só a forma como Mário Soares contava com os jornalistas mas também a forma como estes tinham com Mário Soares uma relação mais emocional que profissional. E digamos que de alguma forma os jornalistas limitavam-se a espelhar o país: os portugueses mantinham uma relação passional com Mário Soares.
Não adianta discutir se isto é justo ou injusto. Interessa apenas que é assim. Ou, melhor dizendo, foi assim. Porque uma das características deste tipo de relação privilegiada que alguns, poucos, políticos conseguem estabelecer com os jornalistas e com o próprio povo é que ela é transitória. E quando se desvanece ficamos perante um líder subitamente fragilizado como ficaria inevitavelmente alguém que se tivesse habituado a resolver os seus maiores problemas através da repetição duma qualquer fórmula encantatória. Uma, duas, três vezes vêmo-lo repetir, qual “Abracadabra”, as frases e os gestos que, até há pouco tempo, lhe garantiam as palmas e a vitória. Mas agora fica apenas um homem só, repetindo frases e revivendo circunstâncias que, ao invés de fazerem renascer o antigo sortilégio, antes pelo contrário evidenciam as suas fragilidades e os seus defeitos. Por isso, quando acusou Cavaco Silva de não saber distinguir um quadro de Pomar dum de Menez, ou Manuel Alegre de não ter ética para se candidatar, o que sobressaiu foi a sua imensa arrogância e não os defeitos que pretendia apontar nos outros candidatos. Por isso, aquando da agressão de que foi vítima em Barcelos, se ouviram mais insinuações do que indignação.
Não sei se Mário Soares se pergunta porquê mas os comentários, as dúvidas e as acusações daqueles que por ele falam remetem para um perplexo: “Porquê? Porque é que desta vez não acontece o tal ponto de viragem?” A resposta encontra-se não tanto nos manuais de propaganda política, mas sim num livro sobre o discurso amoroso: “Ao mesmo tempo que se interroga obcecadamente por que motivo não é amado, o sujeito apaixonado vive com a convicção de que, na verdade, o objecto amado o ama mas não diz. (…) A verdade é que – exorbitante paradoxo – não deixo de acreditar que sou amado. Alucino o que desejo. Toda a dor resulta menos de uma dúvida do que de uma traição.” O livro de Roland Barthes Fragmentos de Um Discurso Amoroso torna-se num dos mais fascinantes guias de leitura do que está a acontecer na campanha de Mário Soares. E porque não das outras? Porque nenhum dos outros candidatos manteve, com os portugueses, uma relação apaixonada. Relação essa que Soares claramente procurou reactivar nesta recandidatura quando lançou o slogan “campanha de diálogo e afectos”. E o que falhou foram de facto os afectos. Não creio que por culpa do candidato mas sim por culpa da nossa humaníssima natureza. Nesta campanha presidencial de Mário Soares aconteceu aquilo que Roland Barthes definiu como “um pequeno ponto no nariz”. O que é isso? “Aparecimento breve, no campo do amor, de uma contra-imagem do objecto amado. Devido a ínfimos incidentes ou a leves traços, o sujeito vê a boa imagem subitamente alterar-se e transformar-se.” Substitua-se “amor” por política e ficamos perante o drama da campanha presidencial de Soares. A sua imagem alterou-se perante os portugueses e como escreveu Barthes: “A má imagem não é uma imagem má; é uma imagem mesquinha: mostra-nos o outro preso à vulgaridade do mundo.”
Não encontro melhores palavras do que estas para dar conta do que aconteceu a Mário Soares nesta campanha. E agora? Agora Mário Soares é aquilo que Barthes definiu como alguém “sozinho”: “Como se chama o sujeito que teima num “erro” apesar e perante toda a gente, como se tivesse à sua frente a eternidade para “se enganar”?” – pergunta Barthes na introdução à temática da solidão. Mas o drama de Mário Soares é que já nem tem a “a eternidade para “se enganar””. Aí sim, a idade conta, por isso, nesta campanha presidencial, ele vive aquilo que se pode configurar como uma situação de catástrofe. Não porque simplesmente pode perder as eleições – e não adianta dizer que também no passado as perdeu! – mas sim porque agora a situação é completamente outra: o factor catástrofe surge pela primeira vez na vida de Mário Soares porque, como escreveu Barthes, a catástrofe é “uma crise violenta no decurso da qual o sujeito, que sente a situação de amor [no caso da luta política] como um impasse definitivo, uma armadilha de que nunca poderá sair, se vê condenado a uma destruição total de si próprio.”

22 comentários leave one →
  1. balde-de-cal's avatar
    balde-de-cal permalink
    10 Abril, 2011 10:14

    os companheiros de estrada fogem sempre no primeiro desvio.
    este gajo devia ser acusado criminalmente

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  2. AB's avatar
    10 Abril, 2011 10:57

    Este congresso prova como uma minoria de portugueses organizados em bando e com força, dinheiro e influência suficientes para ganhar eleições pode descer ao mais baixo ponto na escala da imbecilidade.
    .
    Prova ainda que, em determinadas circunstâncias, quanto mais inteligentes mais estúpidos (Vitorino, Alegre, Assis, Estrela, Ferro, Gama, Santos …)
    .
    Temo que a coisa ainda não fique por aqui!

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  3. Blog do cinza coelho's avatar
    10 Abril, 2011 11:02

    A ganância pelo poder tira o discernimento aos militantes do PS, só assim se justifica que Sócrates não tenha oposição interna e tenha sido eleito com 93% dos votos.

    http://brigadascinzacoelho.blogspot.com/2011/04/grupo-de-economistas-portugueses.html

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  4. SR's avatar
    10 Abril, 2011 11:18

    A nossa classe política já há muito se imbecilizou.
    Hoje, se sobrevive, também é graças à classe jornalística mais bajuladora do que profissional.
    Os bons políticos, tal como os bons jornalistas, contam-se pelos dedos de uma só mão.
    A mediocridade tomou conta desta gente, o “alpinismo” social e político é o novo objectivo para se subir na vida, já que capacidade e competência são chavões já ultrapassados e caídos em desuso.
    O facilitismo mais exacerbado tomou conta de tudo e de todos, já que fomos governados por gente que para subir mais rapidamente e sem controlo, deitou mão a tudo, inclusive à mais descarada impunidade.
    O país precisa de ser todo limpo e desinfectado rapidamente, sob pena de morrer de inanidade.

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  5. D's avatar
    10 Abril, 2011 11:21

    Apesar dos esforços da Helena porque não pega o PSD?
    Não pode pegar.
    O PSD, ontem não aceitava o aumento de impostos, depois pediu desculpa por aceitar o aumento, para depois admitir aumentá-los novemente.
    Um partido que verga, devido à caça ao voto, perante a corporação dos professores jamais pode pegar.
    Um partido que chumba o PEC IV e lança o país numa crise política exactamente no momento em que tal não podia acontecer e, agora, vai aceitar medidas de austeridade muito mais gravosas dos que as previstas no PEC IV, não pode pegar.
    Um partido que lança umas ideias vagas para a revisão constitucional e que devido à critica que, por isso, recebeu pôs essas propostas no fundo da gaveta com receio de perder votos, não pode pegar.
    Etc..etc.
    Neste momento as sondagens deviam dar uma grande vantagem ao PSD, talvez mais de 20%.
    Mas o PSD não pega porque não inspira confiança.
    Vai ser um grande barrete…que o Cavaco e amis alguns vão enfiar.

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  6. Isabel's avatar
    Isabel permalink
    10 Abril, 2011 11:53

    Por isso a única alternativa credível é o CDS.

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  7. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    10 Abril, 2011 11:54

    “Um partido que chumba o PEC IV e lança o país numa crise política exactamente no momento em que tal não podia acontecer e, agora, vai aceitar medidas de austeridade muito mais gravosas dos que as previstas no PEC IV, não pode pegar.”
    -Obrigado por mais uma demonstração completa da ignorância tuga.
    Só um ignorante que não sabe fazer contas ou em alternativa um imbecil soci@lista espera que um PEC qualquer resolvesse alguma coisa.
    Caso não saiba um País não pode pedir emprestado com juros acima do crescimento económico. Como o nosso crescimento económico é 1% não podemos pedir emprestado. É simples.
    Défice Zero.

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  8. Isabel's avatar
    Isabel permalink
    10 Abril, 2011 11:58

    Muitos eleitores do PS criticavam Sócrates tentando a ilusão de que ele seria um desvio do PS, uma degenerescência do seu ideário. Esse argumento também já não pega; a partir do momento em que todo o PS reconduziu Sócrates e o endeusou, como se pôde ver neste congresso, está a assumir claramente que:

    O PS é um partido Neo-Liberal que defende os banqueiros à custa das pensões de miséria e dos abonos de família.

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  9. tina's avatar
    tina permalink
    10 Abril, 2011 11:59

    “A ganância pelo poder tira o discernimento aos militantes do PS”
    .
    Mas alguém com capacidade de discernimento aderiria ao PS em primeiro lugar? A falta de discernimento está lá desde sempre, a não ser que seja em relação aos seus interesses próprios. É por isso que faz sentido que continuem a apoiar o político mais aldrabão de sempre, que levou o país à bancarrota. Essas coisas não são e nunca foram importantes para eles.

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  10. Isabel's avatar
    Isabel permalink
    10 Abril, 2011 12:06

    O sucesso deste Verão…

    http://www.youtube.com/watch?v=3588JH9C-wM&feature=player_embedded#at=142

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  11. tina's avatar
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    10 Abril, 2011 12:28

    Magnífico o “sucesso deste verão”!

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  12. Ana C's avatar
    Ana C permalink
    10 Abril, 2011 12:55

    “Sócrates vai ser pior pois, ao contrário de Soares, não tem amigos, apenas parceiros de poder e de negócios. ”
    Absolutamente do acordo

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  13. ping pong's avatar
    ping pong permalink
    10 Abril, 2011 13:14

    Este congresso foi uma verdadeira antologia da propaganda
    todas as técnicas ali foram ensaiadas:
    ad hominem, ad nauseam, apelo ao autoritarismo, apelo ao medo, apelo ao prejuízo, inevitabilidade da vitória, juntem-se à multidão, pessoas maravilhosas, grande mentira, falácia do preto ou branco, condicionamento clássico, dissonância cognitiva, gente comum, culto de personalidade (PS meu, PS meu, há alguém melhor do que eu?), demonização do adversário, dictat, desinformação, euforia, medo incerteza e dúvida, acenar de bandeiras, generalidades apelativas, meias verdades, etiquetas, latitudes de aceitação, mentira e decepção, manipulação das notícias, controlo mediático, Reductio Hitlerum, sobre-simplificação, pensamento único, citações fora de contexto, fabricação de desculpas, insinuação, slogans, estereotipagem, falácia do ponto de vista dos oponentes, testemunhos, técnica de terceiros, transferência-associação, verdades selectivas, palavras virtuosas (politicamente correcto).
    ..
    E apesar/por causa desta maravilha toda, só uma pergunta se impõe: como foi possível em 6 anos conduzir o País à bancarrota?

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  14. A C da Silveira's avatar
    A C da Silveira permalink
    10 Abril, 2011 13:21

    Depois da demonstração de bovinidade e carneirice, assim à moda do estado novo, que tem sido o congresso do PS, se os portugueses nas eleições de 5 de junho proximo não infligirem a Socrates uma derrota expressiva, então é porque merecemos mesmo os que não votarem nele, tudo o que aí vem e que é muito mau. Para nos emprestarem os 85000 milhões, vão-nos exigir uma correcção nas contas publicas 25-30% . Lembram-se o que dizia Ernani Lopes poucos meses antes de morrer?

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  15. pedro's avatar
    pedro permalink
    10 Abril, 2011 13:44

    Que as pessoas não se esqueçam: estes fulanos governaram o país durante os últimos 6 anos, 4 dos quais em maioria absoluta. Se caímos em bancarrota só pode haver 1 responsável: este governo. Tudo o resto é banha da cobra para enganar otários. Quem ainda não vê isto (ou não quer ver, ou faz de conta que não vê), ou é otário, ou é imbecil, ou é ordinário (no sentido mais pejorativo do termo).

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  16. pedro's avatar
    pedro permalink
    10 Abril, 2011 13:47

    Tentar fazer crer que o chumbo daquele PEC IV miserável, apresentado à sucapa de forma miserável, foi a causa da crise actual e da bancarrota, é de uma desonestidade intelectual indescritível. Só mesmo para enganar tansos.

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  17. hajapachorra's avatar
    hajapachorra permalink
    10 Abril, 2011 14:29

    Não tem amigos, mas tem renatos. Vai acabar mal, muito mal. E merece, tratos de polé.

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  18. licas's avatar
    licas permalink
    10 Abril, 2011 17:14

    A História registará uma dívida da Democracia ao PS : a luta contra o
    Gonçalvismo/Stalinismo em 1975.
    Depois . . .
    O partido tem vindo a degradar-se . . . ao ponto de, para ganhar eleições,
    cooptar um indivíduo sem carácter nem vergonha, fiado em que o bovinismo
    nacional não daria pelo inflectir dos propósitos , e que, até, viciado pelo sofisma
    de que é necessário um homem forte presidindo aos destinos da Nação a que
    o Estado Novo nos impingiu, aplaudiria a personagem. Ele até é tão inconsciente
    que acredita (Hitler, Stalin) no que afirma – mesmo que ande a contradizer-se
    a cada passo. Note-se que preferi inconsciência a DÔLO (é preferível termos um
    imbecil a um escroque).

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  19. Gonçalo's avatar
    10 Abril, 2011 18:04

    A resposta do PSD tem que começar a ser à altura…
    Vê-se que os socialistas estão em pulgas, agrupando-se numa trincheira que sabem ser “curta” e estar isolada. E vão dizendo “que venham eles…”.
    Ora o PSD deve ir na altura certa, não cedendo ao desafio nas condições que eles querem impor. Mas tem de ser decidido e ser estratégico.
    http://notaslivres.blogspot.com/2011/04/congresso-socrates.html

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  20. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    10 Abril, 2011 19:07

    Sócrates foi um senhor.
    Um discurso de Estadista.
    Não há dúvidas que sucederá a si próprio.
    Para satisfação dos blasfemos que não terão mãos a medir a publicar posts a partir de 5 de Junho.
    Não vai faltar matéria-prima.
    Força Sócrates, os portugueses confiam em ti!

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  21. licas's avatar
    licas permalink
    10 Abril, 2011 22:58

    Arlindo da Costa
    Posted 10 Abril, 2011 at 19:07 | Permalink
    Sócrates foi um senhor.
    Um discurso de Estadista.
    Não há dúvidas que sucederá a si próprio.
    Para satisfação dos blasfemos que não terão mãos a medir a publicar posts a partir de 5 de Junho.
    Não vai faltar matéria-prima.
    Força Sócrates, os portugueses confiam em ti!

    ___________________
    FORÇA que distibuit tachos e tachinhos dá sempre resultado.

    Para parasitas tipo Arlindo basta uma GAMELA. (fica ainda com fome, mas subsiste . . .)

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  22. pedro's avatar
    pedro permalink
    10 Abril, 2011 23:40

    Caro comentador Licas:
    O gajo fujão é imbecil E escroque, para nossa desgraça…

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