“Já gastámos as palavras pela rua”`*
Talvez tenha sido porque estive a arrumar papéis para os impostos, actividade que materializa a sensação de perda, pois, ano a ano, ganha-se menos e paga-se mais. Ou talvez a culpa seja daquela palavra troika repetida à exaustão em todos os noticiários: a troika ia para aqui, a troika ia para acolá, a troika chegava uns minutos antes da hora prevista… Enfim, tem sido um fartar de troika na rua, troika no automóvel, troika a entrar no elevador. E uma pessoa olha e só vê umas criaturas mudas – a troika -, os jornalistas frenéticos tentando obter uma declaração da troika, os carros a partirem levando a troika para longe da nossa vista e deixando-nos na angustiante dúvida se, mal se viu a salvo do nosso olhar, a troika perdeu a compostura calvinista e desatou a rir de nós, da nossa aflição e do ar decadente de tudo isto.
Há uns dias, poucos, verborreia equivalente era gerada pela expressão “dívida soberana“. De cada vez que a televisão e as rádios repetiam a palavra “soberana”, acentuando a sibilante inicial e prolongando a sílaba tónica, era como se tivéssemos ganho de novo o torneio de Arcos de Valdevez, só que agora o troféu era a dívida soberana. (O que, além de ridículo, é patético, pois, na nossa actual situação, “dívida soberana” é uma expressão que contém em si mesma uma contradição insanável entre os termos, pois foi precisamente porque a dívida cresceu tanto que o país perdeu boa parte da sua soberania, a não ser que por nossa soberania se entenda a dívida propriamente dita.)
No 37.º aniversário do 25 de Abril, o verso de Eugénio de Andrade que dá título a esta crónica é o retrato mais rigoroso da nossa presente situação nacional: “Já gastámos as palavras pela rua (…) O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.”
Todas as palavras com que construímos o ideário destes 37 anos – justiça, dignidade, solidariedade, independência – não só nos parecem subitamente gastas como quando as repetimos não acontece absolutamente nada. E, contudo, como escreveu Eugénio de Andrade, “tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam quando as pronunciávamos.” Mas isso foi antes de as palavras estarem gastas.
Esta relação adolescente com as palavras – somos como aqueles gaiatos que, entre acne e balões de pastilha elástica, se deleitam proferindo as palavras giras de cada momento – é um sinal dos patéticos ardis a que recorremos para não nos confrontarmos com a nossa imagem no espelho. Mas não só. Na verdade, na política, a nossa relação com as palavras nem chega à adolescência, pois é pouco mais que infantil: basta que alguém diga três vezes “combater as injustiças”, duas “inclusão” e uma “solidariedade” para que, de imediato, como nos contos populares, aquele que profere estas palavras passe a falar por elas e a ser identificado com elas. Não quer isto dizer que se acredite que é realmente assim mas tem-se a forte convicção de que seria melhor que assim fosse.
Por exemplo, há anos que sabemos que a lei das rendas impede a mobilidade, condena as cidades à degradação e obriga a imensa maioria que não goza do privilégio dessas rendas baixíssimas a comprar casa. E há anos também, e estou a recuar até aos anos 60 do século passado, que qualquer deputado que ousasse dizer que isto tinha de mudar porque seria melhor para o país e para todos nós se arriscava a ser tratado como um ser destituído de sensibilidade social. Por isso agora é quase com alívio que se ouve que a troika vai impor a liberalização do arrendamento. Assim nós podemos continuar com o nosso discurso político cheio de palavras mágicas como “protecção dos mais pobres” e “senhorios parasitas”, enquanto se transfere a responsabilidade da mudança que sabemos indispensável para alguém vindo de fora.
Agora, que as palavras estão gastas, procuramos por todos meios que outras palavras façam de conta que se mantém o que sabemos que acabou – o amor e a política são tão semelhantes, não é? Assim, se recuarmos, não necessariamente dias pois umas horas bastam, constataremos que, antes da troika e da dívida soberana, andámos às voltas com a palavra regime. De repente, descobriu-se que o regime estava bloqueado, que o regime precisava de ser refundado, que o regime era o problema. (E, como sempre que se fala da refundação do regime, surge Otelo Saraiva de Carvalho a contar espingardas e fazendo declarações que nos levam a pensar não que ele tenha feito o 25 de Abril, como diz, mas sim que o 25 de Abril se tenha feito apesar dele.)
Atacar o regime é a forma mais fácil de não se falar de política e sobretudo de desculpabilizar em geral quem a tem feito, e muito em particular serve para desresponsabilizar o Governo.
Mas nós não só não precisamos como não devemos mudar o regime. Aliás, no meio do enorme falhanço que a nossa situação económica representa e do descrédito da justiça, o que nos sobra e funciona regularmente são precisamente as instituições da democracia. O nosso problema não é, portanto, das instituições, mas sim, em primeiro lugar, de quem escolhemos para as ocupar. E, em segundo, da crescente tolerância e consequente cumplicidade que a sociedade portuguesa foi mostrando perante o que outrora se chamou corrupção e mentira e que, num dia cuja data não recordamos, se passou a designar por tratamento preferencial e inverdade. Desde esse dia que “gastámos as palavras”. Desde esse dia que sabemos que isto nos ia acontecer. Com troika e tudo o mais.
*PÚBLICO

Se já gastaste as palavras pela rua agora podes ficar um bocadinho calada.
GostarGostar
Brilhante, como de costume.
GostarGostar
Palavras, palavras, de quem também já as gastou em demasia…aliás, de quem, ainda para mais, só vive delas…
GostarGostar
http://plocking.wordpress.com/2011/04/25/liberdades/
GostarGostar
No link do comentário da mosca, pode ler-se:
“37 anos depois, creio que a maior conquista foi mesmo o facto de ser possível que qualquer acéfalo ou grupo de acéfalos se possa permitir emitir uma opinião, por espumosa que seja. ”
Deve estar a referir-se, certamente, às opiniões de helenafmatos.
GostarGostar
Em trinta e sete anos (37) gastamos as palavras a contrair dívidas:
30 anos x 3 biliões = 90 biliões de euros (1974-2004)
6 anos x 9 biliões = 54 biliões de euros (2005-2010)
Resumo:
2 Submarinos 2 biliões
BPN …………..5 biliões
Sócrates…….47 biliões
Total, a olho, 54 biliões…
GostarGostar
Finalmente um texto que aborda sem demagogia nem radicalismos tolos, alguns dos graves problemas que enfrentamos enquanto sociedade.
GostarGostar
Há aqui pessoal que está contra a Helena e ela o que diz é verdade; Vão-se tratar rapazes!!!
GostarGostar
Parabéns helena, bom texto e mais interessante reflexão.
GostarGostar
Tu já tinhas um nome,
e eu não sei se era céu ou fonte ou mar ou flor:
nos meus versos chamar-te-ei Amor.
(Madrigal, in “Os Amantes sem Dinheiro”,
de Eugénio de Andrade)
Mas isso era dantes,
quando tinham sentido as palavras
e de soberana a dívida ainda era pouco, tão pouco
que nem sókras abusava delas, das palavras.
GostarGostar
PARABÉNS HELENA (desculpe a familiaridade)
GostarGostar
Aqueles que mais imploraram pela vinda do FMI, já são os primeiros a abominar a troika.
Oxalá que a troika vos tire couro e cabelo.
Para que não sejam tolos e traidores!
GostarGostar
Se a troika exigir na liberalização das rendas já valeu a pena ter vindo. As consequências dessa hipocrisia tem contribuído bastante para o atraso do país.
GostarGostar
«(…) Nós não só não precisamos como não devemos mudar o regime. Aliás, no meio do enorme falhanço que a nossa situação económica representa e do descrédito da justiça, o que nos sobra e funciona regularmente são precisamente as instituições da democracia. O nosso problema não é, portanto, das instituições, mas sim, em primeiro lugar, de quem escolhemos para as ocupar. (…)»
Olhe que não, Helena, olhe que não… O problema está nas pessoas E n(est)as instituições.
GostarGostar