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O futuro da esquerda e as dores siamesas do PS e do Bloco*

2 Julho, 2011
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O PS já perdera muitas eleições antes de sair derrotado do 5 de Junho. O PS também já passou por vários processos de escolha de uma nova liderança. Contudo talvez nunca o PS tenha estada tão mergulhado numa crise de identidade como hoje. Com uma particularidade: a crise do PS tem uma irmã gémea na crise do Bloco de Esquerda, mas esta é ainda mais virulenta.

A crise de identidade dos socialistas tem uma primeira e significativa manifestação na incapacidade dos dois candidatos à liderança de enfrentarem os erros do passado recente. Há uma certa esquizofrenia na forma como Seguro e Assis procuram distinguir-se um do outro sem se quererem distinguir radicalmente da herança de Sócrates. Se já não era fácil o caminho de uma nova liderança obrigada a tentar ser oposição numa altura em que o essencial do programa do Governo também foi assinado pelo PS – o compromisso com a troika –, tudo se torna ainda mais difícil quando não se analisa a experiência socrática e o que ela representou de perversão da tradição socialista. Sem expurgar os fantasmas da “missa negra” do Congresso de Matosinhos (em que Assis participou com aparente entusiasmo e onde Seguro não mostrou coragem suficiente), o PS pode mudar de liderança mas não mudará de alma – e essa alma está hoje vendida a um aparelho de carreiristas habituado às mordomias e prebendas da vida à mesa do orçamento.

Mas deixemos por agora aquilo que deveria ser o trabalho de luto dos que querem dar ao PS outro rumo e centremo-nos no que une esta crise de identidade à balbúrdia que se instalou no Bloco de Esquerda. Em conjunto, entre 2009 e 2011, estes dois partidos que partilham mais os respectivos eleitorados do que gostam de reconhecer, perderam 780 mil votos, quase um terço do total. Tratou-se de um tsunami – para utilizar a expressão do dirigente bloquista Fernando Rosas – que deixou ruínas e escombros por todo o lado.

A candidatura de Manuel Alegre correu tão mal que ninguém quis ver nela senão a despedida do político-poeta quando era muito mais do que isso pois representou uma forte, e talvez derradeira, tentativa de reerguer uma “esquerda grande” (outra expressão de Rosas) comprometida com um projecto de “transformação da sociedade”. Esse projecto de transformação – para alguns, de revolução – tens raízes na tradição de todas as esquerdas que nunca desistiram de “superar o capitalismo” mesmo quando só dizem que aquilo que rejeitam é a “sociedade de mercado”.

Não cabe aqui recapitular a longa história dos diferentes movimentos que foram corporizando o caudal do que se convencionou designar por esquerda, mas convém recordar o essencial: para todas as esquerdas há um antes e um depois das grandes viragens ocorridas na década de 80 do século passado. Habitualmente apenas se recorda o colapso do “socialismo real” associado à queda do Muro de Berlim e ao fim da URSS, mas esse período foi também o da emergência, a Ocidente, de Reagan e de Thatcher, e, a Oriente, de Deng Xiaoping. A retórica dominante – as esquerdas ainda vencem na guerra da linguagem – chama a esse momento de viragem a “emergência do consenso neoliberal”, mas o que ocorreu foi o fim dos “anos de ouro” do capitalismo, esses anos do pós-guerra em que um crescimento económico irrepetível permitiu criar os modernos estados de bem-estar. Foi nessa altura que o dinheiro fácil acabou ou, como notou a sra. Thatcher referindo-se aos políticos socialistas, “they have run out of other people’s money”.

Os sonhos redentores de uma sociedade permanentemente afluente terminaram por essa altura, processo que se encontra bem retratado no clássico “Cem anos de socialismo – A Esquerda Europeia Ocidental no Século XX”, de Donald Sassoon. É aí, por exemplo, que se recorda o desabafo de James Callaghan, o último primeiro-ministro trabalhista antes da era Thatcher, datado ainda de 1976: “o mundo confortável em que nos disseram que viveríamos para sempre, onde o pleno emprego estaria assegurado pelas decisões do ministro das Finanças, esse mundo desapareceu. E porque é que existe desemprego? Muito simplesmente porque pagamos salários mais elevados do que o valor daquilo que produzimos”.

 

De Estocolmo a Roma, de Paris a Washington, de Londres a Pequim, vários factores contribuíram para o fim da ilusão keynesiana que parecia poder alimentar um Estado “ama-seca” cada vez mais universal e omnipresente. A globalização redistribuiu a riqueza a favor dos países emergentes. A demografia colocou uma pressão insuportável sobre os sistemas de protecção social. As vagas migratórias abalaram os consensos em que se alicerçavam os mecanismos de transferências de rendimentos. A realidade impôs-se assim com tal força que, para governar, a esquerda foi tendo de abandonar a sua retórica e o seu ideário tradicional. Em 2004, durante a sua candidatura falhada à liderança do PS, Alegre lamentou “a incapacidade revelada pelas recentes experiências de governos socialistas na Europa para inverterem a lógica neoliberal dominante e criarem soluções políticas alternativas”. Nada de substancial mudou desde então e uma obra recém-editada – “O que Resta da Esquerda, Mitos e Realidades das Esquerdas no Governo”, escrita pelo politólogo Franco Cazzola – reconhece-se mesmo que nos últimos anos “a esquerda renunciou a decidir como esquerda”. E cita-se o historiador Giuseppe Berta: “Existe uma identidade social-democrata, um perfil político especificamente inscrito na social-democracia europeia? No passado, certamente que sim; hoje não”.

O debate em curso no PS não dá respostas novas a estes dilemas, muito menos propõe, por exemplo, substituir a retórica socialista por uma retórica inovadora, progressista e liberal, uma das possíveis saídas para as esquerdas que querem ser Governo. No Bloco fica-se muito mais atrás e repete-se (leia-se Rosas) o discurso eterno contra a rendição “à terceira via, ao blairismo e ao neoliberalismo”, recusando qualquer evolução para as áreas dos novos movimentos aparecidos nas últimas décadas, como os corporizados pelos Verdes alemães, também eles filhos da década de 80 do século passado.

Não deixa por isso de ser curioso que, invertendo uma antiga hierarquia, se sinta dificuldades à esquerda em lidar com as ideias e as ideologias ao mesmo tempo que se vê ser reabilitado, à direita, o papel das ideias. Outras ideias, naturalmente. É por isso que até se cita (leia-se o bloguer Rui Albuquerque) Ludwig von Mises, expoente da escola austríaca e do pensamento económico liberal: “as ideias têm existência real e são factores genuínos na determinação do curso dos acontecimentos” pois “o que o homem escolhe é determinado pelas ideias que adopta”.

Talvez seja pois altura de reconhecer que a crise de identidade das esquerdas é, antes do mais, uma crise de ideias.

Público, 1 de Julho de 2011

20 comentários leave one →
  1. PMP's avatar
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    2 Julho, 2011 19:29

    O começo deste governo, com aumento de impostos, denota que vai ter um futuro pouco radioso.
    .
    O problema dos neoliberais, onde se deve incluir Sócrates, é que não têm respostas para o desemprego elevado e para o aumento da pobreza.
    .
    O senhor JMF deveria criar empresas para perceber o problema da procura e da oferta.

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  2. A. C. da Silveira's avatar
    A. C. da Silveira permalink
    2 Julho, 2011 19:51

    A seguir ao 25 de Abril de 1974, Mario Soares que tinha estado em França nos ultimos anos, vinha imbuido do espirito na moda por lá na época, onde existia uma coligação PSF/PCF. E ainda em Paris em finais de 73, ou principios de 74, propos isso a Cunhal que lhe torceu o nariz porque pensava (mas não dizia) que o PCP é que deveria tomar conta do poder em Portugal. Sozinho.
    Por isso na redacção da nova Constituição o PS alinhou com muitas das propostas(exigencias) do PC , na altura amancebado com a facção mais radical do MFA que as apoiou. Só quando foi aos EUA na primavera de 1975 e trouxe de lá, segundo quem tem obrigação de saber, 10 milhões de dolares Soares tirou o PS do 4º governo provisorio, mas os do MES que apoiaram as nacionalizações do 11 de Março com entusiasmo ficaram lá, Cravinho incluido. Apesar de desavindo com o PC o PS manteve a sua matriz marxista, até Soares perceber anos mais tarde que tinha de meter o socialismo na gaveta.
    Depois a historia é conhecida: os 1ºs governos constitucionais liderados por Soares falharam, vieram os governos do Eanes, a AD de Sá Carneiro, o bloco central, Cavaco que foi um actor não previsto, e eis que Soares chega aonde sempre quiz: ao Palacio de Belem, deixando o PS a apanhar bonés durante 10 anos, exceptuando os socialistas que tiveram a sorte de ter passado por Macau.
    Depois vieram as TVs privadas, e sob o alto patrocinio de Belem começou a demolição do cavaquismo, que culminou com a meia vitoria de Guterres em 95, e a vitoria de Sampaio sobre Cavaco em 96. Sendo Guterres catolico, enterrou de vez os resquicios de marxismo que ainda sobreviviam no PS, e abraçou a causa da 3ª via Blairista, então muito em voga. Dizia Guterres, e cito de memoria: ” o nosso programa politico é basicamente o do PSD, só que nós vamos executá-lo bem”, com os resultados que se conhecem.
    Depois veio o pantano, a 2ª AD que morreu às mão de Sampaio, e Socrates que nos conduziu aonde estamos neste momento.
    O drama do PS é que tem o espaço à esquerda ocupado pelo BE (chapeau ao Socrates que quando aprovou as leis fracturantes reduziu o bloco a metade), e não se pode chegar à direita de onde saiu com 20 e tal % dos votos. Acresce a isto que o PS só consegue governar com o apoio/controle maciço dos media, como se viu com o Guterres e principalmente com o Socrates.
    Os sinais não são encorajadores para os socialistas: tanto Assis como Seguro continuam a adoptar aquele tom rufia de fazer politica usado pelo PS nos ultimos anos. E estão-se a preparar para roer a corda em relação aos compromissos com a troika. E isso é muito mau para eles!

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  3. Eleutério Viegas's avatar
    Eleutério Viegas permalink
    2 Julho, 2011 20:15

    Como diz o AC Silveira, o peiésse tem tido, com o palhaço filósofo, um tom rufia, que se está a prolongar com os potenciais sucessores do animal “afrancesado”. Rufia sempre foi o peiésse, desde o coelhone ao próprio bochechudo completamente já fora de prazo. Rufia porque arrogante e incompetente. Cá por mim, que nunca votei nos gajos em quase 30 anos de votos, bem pode acabar como o peiésse italiano, ou quase, como o francês.

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  4. Piscoiso's avatar
    2 Julho, 2011 20:30

    Manobra desviacionista.
    O cerne da política portuguesa actual é o PSD+CDS que estão no poder.
    Quero lá saber do PS.

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  5. da-se's avatar
    2 Julho, 2011 20:51

    Excelente artigo!
    Entretanto, por aqui as múmias socialistas continuam, impávidas, a dominar a comunicação social. Ainda há momentos o Telejornal da RTP deu vários minutos de propaganda a um livro de Mário Soares, a sair dentro de dias, em que o geronte ataca Cavaco Silva e Passos Coelho, do mesmo passo que elogia Sócrates.
    A escumalha não aprende nada com as lições da História.

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  6. esmeralda's avatar
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    2 Julho, 2011 20:59

    Na verdade, pasmo cada vez mais com o PS, com a esquerda (se é que isso existe!) e com o socialismo que se fartam de clamar. Hoje percebi que Mário Soares nunca acreditou na vitória de Passos Coelho. Mudou de discurso. Resolveu agora, esquecer os problemas que Sócrates nos legou e que tão graves são, para deixar sair o veneno contra Presidente da República e Passos Coelho. É o que o país mais precisa, sem dúvida. E a sua Fundação não devia precisar de dinheiros do Estado. Que raio de maneira de fazer publicidade a um livro. E António Barreto a confirmar na TV que Sócrates “obedeceu” a Merkl e só por isso a ajuda externa foi tão tardia. Só mais uma coisinha: os privados não querem a privatização da RTP para mandarem 4 pessoas fazer a reportagem do casamento do Mónaco?

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  7. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    2 Julho, 2011 21:22

    Eu não quero saber nada do «bloco de esterco» e muito menos do PS.
    O que eu quero saber é se o «Pravda da Madeira» vai continuar a mamar o dinheiro dos contribuintes e se os reformados politicos (por favor , esquemas e trafulhices) se vão continuar a auferir milhares de euros por dia sem prestarem qualquer TRABALHO COMUNITÁRIO?
    Isto é que interessa!

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  8. zeca's avatar
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    2 Julho, 2011 21:26

    Oh jmf, bufo… vai para o caralho e deixa o PS em paz, borrego.
    És das coisas mais nojentas e rastejantes que existem em Portugal…
    Para porco só te falta o rabo de saca-rolhas.

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  9. tina's avatar
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    2 Julho, 2011 21:56

    Bom artigo, jmf. A história tem mostrado aos poucos como a filosofia de esquerda é um grande fracasso, uma grande alienação de pensamento que não produz resultados na prática. Depois da queda da URSS, estamos agora a passar pelo desmantelamento do socialismo europeu. Este resultado não deveria surpreender porque a filosofia de esquerda baseia-se em castigar aqueles que querem produzir.

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  10. Jose Domingos's avatar
    Jose Domingos permalink
    2 Julho, 2011 22:19

    A corja socialista, que se tem alimentado do dinheiro dos contribuintes, tem de ser expurgada, do aparelho de estado. Essa gentalha, deve ser tratada, como criminosos que são.

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  11. joão's avatar
    joão permalink
    2 Julho, 2011 22:34

    (…) se sinta dificuldades à esquerda em lidar com as ideias e as ideologias ao mesmo tempo que se vê ser reabilitado, à direita, o papel das ideias. Outras ideias, naturalmente (…)
    .
    realmente a velha Europa só nos surpreende com as novas ideias e, sinceramente jmf, o senhor inclui neste lote de gente que cria ideias Pedro Passos Coelho, que nem uma palavra sobre a Europa incluiu no programa do governo, para além do grande timoneiro Durão Barroso?

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  12. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    2 Julho, 2011 23:33

    Oh, José Domingos, quando falas de corja«socialista», estás a referir-te aos barões, boys e corruptos do PSD que tomaram as empresas públicas e nacionalizadas desde 1975, desde o tempo do gonçalvismo?
    Há casos de barões e dignitários do PSD, que vieram para a politica, com remendos nas calças, e agora até moram em resorts e condomínios de luxo fechados.
    Vês algum gajo do PSD a criar empresas e a criar empregos?
    O quie eu vejo, é todos a correr para os ministérios, ora como governantes, assessores, secretários, directores, deputados, etc, etc.
    Vai trabalhar vagabundo!

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  13. Castanheira's avatar
    Castanheira permalink
    2 Julho, 2011 23:59

    Sempre fomos campeões, uns verdadeiros metralhas a produzir ministros ( ou o seu equivalente) mesmo antes, muito antes desta proletarização democrática que pouco mais tem que 3 décadas em quase 9 séculos de história
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_primeiros-ministros_de_Portugal

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  14. correiowebwp's avatar
    [WP Digital] permalink
    3 Julho, 2011 01:18

    Os moços deixaram prestadores de serviços com seis meses por pagar, algures na cultura… Ninguém fala disso. Como alguém conseguisse sobreviver dignamente sem receber há seis ou sete meses…

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  15. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    3 Julho, 2011 04:12

    Hoje em dia vai para ministro qualquer Zé-Ninguém.

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  16. Tiradentes's avatar
    Tiradentes permalink
    3 Julho, 2011 12:57

    O PSD na oposição era motivo de diárias interjeições piscoisais/arlindosas.O PS na oposição quero lá saber.
    O antigo problema da velha que não chamei velha mas velhinha muito carinhosamente.
    Ora quero lá saber do governo.
    Mas querendo sabe, começa-se pela belíssima execução orçamental que já vai em dois pontos percentuais acima do que o pinóquio dizia, ou seja, 3.000 milhões de euros fora os buracos buraquinhos e buracões apagados e que tem de ser reuperados, como aquele das oficiosas que estratégicamente se sabe só depois do Marinhito ter notado que o poder mudou (+85 milhões)e que trata com o “estado” não com o pinóquio anteriormente à eleições.
    A procissão vai no adro e quando descobrirem, os que repetem que nós não somos a Grécia, muito se vão arrepender. A ver vamos se não somos duas grécias. E se formos só duas já não será tão mau.
    Também quero ir estudar filosofia para Paris.(de França…convenhamos).

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  17. Zappa's avatar
    Zappa permalink
    3 Julho, 2011 17:12

    Os socialistas são a pior canalha q este País criou: Pedófilos….paneleiros…. ladrões de gravadores….vigaristas….burlões de licenciaturas….traidores da pátria…..

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  18. miguelvcarvalho's avatar
    3 Julho, 2011 22:13

    sim, novas ideias à esquerda são muitíssimo necessárias quer para o país quer a um nível a europeu, para o bem da própria democracia, incluindo da direita. já chega de se achar que o estado é um poço sem fundo, principio basilar do PCP/Bloco embora cada vez menos prevalente dentro do PS, que tal como JMF diz fugiu aos princípios para poder governar.

    excelente artigo, muito obrigado
    cumprimentos de um socialista profundamente desapontado com o que a esquerda produz (ou não deixa produzir) hoje

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  19. josegcmonteiro's avatar
    4 Julho, 2011 10:02

    Quem vomita tanta sacanice, sobre os socialistas ou outros, devia ser cuspido na cara.
    J. Gil

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  20. edgarinventor's avatar
    edgarinventor permalink
    27 Dezembro, 2011 18:48

    Gostei de ler. Grande artigo,
    Da parte dos Socialeiros, os escarros verbais que usam quando fora do poleiro.
    Atenção, quando no poleiro, os mesmos Socialeiros parecem umas Professoras de Escola de Meninas Finas, cheios de arrepios e desmaios, se alguém diz “chiça”…

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