O mundo de Mário Soares acabou, e ele ainda não deu por isso
Ontem de manhã acordei sobressaltado. Na rádio, Mário Soares prometia uma “revolução a sério”. Sim, não foi de ainda estar com sono, e também não era o Otelo que eu estava a ouvir. Mesmo assim fui confirmar. E confirmei: “Se esses mercados continuarem a mandar, nós vamos para o fundo e então tem que haver outra revolução, mas uma revolução a sério…”
Alguns respirarão de alívio: afinal o velho político apenas promete uma revolução contra “os mercados”. E só se os mercados continuarem “a mandar”, como ele diz. O problema é que é isso exactamente que vai suceder, com uma pequena diferença: no nosso caso, “os mercados” são os nossos credores. E nós só temos credores porque pedimos dinheiro emprestado. Ao fazê-lo de forma desregrada perdemos a nossa liberdade – perdeu o Estado, perderam as empresas, perderam os cidadãos. Porque, ao contrário do que Soares disse um dia, em 2005, durante a sua terceira campanha presidencial, não é verdade “o dinheiro apareça sempre”.
Dias antes já tinha tido um sobressalto. Ao ver na televisão o ex-Presidente a falar na Universidade de Verão do PSD, notara que ele fizera questão de terminar a sua intervenção proclamando que “a dívida externa é muito pouca coisa e há muita coisa para além da dívida”. Depois desta tirada pousara as notas e sorrira para os jovens laranjinhas rendidos ao velho slogan “Soares é fixe”. E tudo porque não podíamos perder “todas essas coisas que o 25 de Abril nos deu” só por causa de “termos de resolver a divida externa”.
De certa forma este último raciocínio sintetiza o drama – e o desfasamento com a realidade – de um político a caminho dos 87 anos como é Mário Soares. Primeiro, porque os cortes que se têm de fazer na despesa pública tocarão, inevitavelmente, no seu legado político, um legado que se confunde com o da revolução de 25 de Abril. Depois, porque Soares viveu num mundo onde se sabia que cada nova geração viveria muito melhor do que a anterior. Foi isso que se viu na Europa, no Mundo e também em Portugal nas décadas a seguir ao fim da II Guerra Mundial. Era um mundo de “conquistas irreversíveis” e de bem-estar imparável, um mundo que já desapareceu.
No mundo de Mário Soares as dívidas, sobretudo as dividas dos Estados, nunca foram um problema. Eram mesmo um investimento: aplicava-se hoje o dinheiro para garantir um futuro mais próspero. O mecanismo funcionou enquanto o crescimento económico era robusto e a dinâmica demográfica positiva. Quando o crescimento económico se tornou anémico e as sociedades deixaram de ter filhos e começaram a envelhecer, chegou uma nova e dura realidade: ao mesmo tempo que os encargos (com a velhice, com a saúde) iam crescendo, as receitas estagnavam ou diminuíam e as dívidas, em vez de serem pagas, foram-se acumulando. Não foi, não é, um processo exclusivo de Portugal, mas em Portugal a velocidade com que cresceram os encargos e diminuiu a competitividade da economia tornaram o dilema ainda mais grave e as soluções mais dolorosas.
O antigo inquilino de Belém é político das unhas dos pés à ponta dos cabelos, mas a política não se faz apenas de intuição, é necessário também compreender o que se está a passar à nossa volta. Ora, como o próprio admitiu nessa intervenção que fez no Casino da Figueira da Foz, apesar de “não ser destituído” não percebeu onde queria chegar o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, na sua entrevista ao Público. No entanto a mensagem do governante era clara: a nossa economia “acumulou, desde meados dos anos 90, níveis de endividamento privado e públicos muito elevados”; sem “honrar esses compromissos”, Portugal não terá mais acesso a crédito, e isso “exige sacrifício, perseverança, esforço e unidade de propósito”. Mais: como “a dívida foi incorrida por nós portugueses, a dívida será paga por nós portugueses”. Ninguém o fará por nós.
No tempo em que Mário Soares cresceu como político o dinheiro “aparecia sempre” porque as economias geravam muita riqueza, havia mais jovens do que velhos e a ordem natural das coisas permitia que se pagassem as dívidas de hoje com os lucros de amanhã. Agora somos como os fidalgos arruinados, pelo que só resta, aos mais nostálgicos, ler o livro-testamento de Tony Judt Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos para recordar como foi mas não voltará a ser.
Em contrapartida, o que o nosso ministro das Finanças disse nessa entrevista não é muito diferente daquilo que o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, escreveu esta semana no Financial Times: “é um facto indiscutível que um excesso de gastos públicos levou a níveis incomportáveis de dívida” que põem em causa os sistemas de protecção social; “contrair mais dívida não estimulará o crescimento futuro, antes o prejudicará”; e “a receita é simples, mesmo que difícil de implementar” – as democracias ocidentais que lidam com altos níveis de dívida e de défice “têm de cortar nas despesas, aumentar as receitas e realizar reformas estruturais”. Tudo o resto, nomeadamente a fúria contra “os mercados”, é tão irracional como atribuir culpa aos mensageiros das más notícias. O título desse texto de Schäuble resumia tudo: “A austeridade é o único remédio possível para a eurozona”.
Esta é a linguagem realista dos dias que correm – a única coerente com a noção de que o dinheiro é um bem escasso que não cresce nas árvores. Traduz a visão sensata dos que se opõem, por exemplo, à imediata transformação da União Europeia numa união de transferências onde os ricos (por via das eurobonds ou de outros mecanismos) poupem aos menos ricos as dores do seu necessário ajustamento. Até porque esse mundo idílico das eurobonds não existe. Ontem, também no Financial Times, o primeiro-ministro e o ministro das Finanças holandeses disseram alto aquilo que os seus colegas alemães só podem sussurrar: a introdução de tais mecanismos só será aceitável se países como Portugal ou a Grécia aceitarem penalidades que podem ir até à expulsão da União Europeia. Mais: teria de ser criado uma espécie de czar das finanças a nível europeu que teria direito de veto sobre os orçamentos de cada país, subtraindo-os à autoridade máxima dos respectivos parlamentos.
Não há duas formas de olhar para uma evolução das instituições nesse sentido. Primeiro, Portugal correria o risco de, em vez de ser um protectorado da Troika durante dois ou três anos, se tornar num protectorado permanente de Bruxelas. Depois, os eleitores portugueses deixariam de ser soberanos nas suas escolhas, o que significaria o fim da nossa democracia tal como a conhecemos.
Não vale a pena gritar contra o suposto egoísmo de quem passa o cheque. Ou contra a “falta de visão” dos líderes europeus. Ou esperar que, não tendo nós paciência para os excessos de João Jardim, tenha a senhora Merkel paciência para os excessos das nossas “conquistas de Abril”. De facto, que podemos esperar se, ao mesmo tempo que pedimos dinheiro emprestado para as coisas mais elementares do dia-a-dia, dizemos, como Mário Soares disse, que “a dívida externa é muito pouca coisa”? Ninguém nos daria troco, e duvido que uma qualquer “revolução a sério” contra “os mercados” fosse um caminho alternativo.
Público, 9 Setembro 2011

Cá estão, de novo, as cigarras.
Cantando na ilusão.
http://notaslivres.blogspot.com/2011/09/o-congresso-das-cigarras.html
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Nada se perde,
tudo se transforma.
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JMF, Soares é o avôs do país escangalhado que temos. O pai é Cavaco. Mas Soares, sabendo ou não do que está a aflar, aborda um assunto que os blasfemos fingem ignorar. Os mercados, dito o capitalismo financeiro, atingiram dimensões inimagiáveis que o tornam num agente com vida própria, desligado da economia real. Talvez 90% dos triliões de euros que circulam diáriamente pelo mundo não têm nada a ver com a produção e comércio de nada. O capital financeiro/especulativo substituiu o capital produtivo e fez cair os rendimentos do trabalho. Este é o verdeiro problema politico-económico-social mundial, que se agrava com o facto da progressiva liberalização financeira, a partir da década de 1970, criar essse monstro com vida própria de um imenso capital financeiro/especulativo que à medida que cresce e se torna mais independente mais as crises se tornaram menos espaçadas no tempo e vamos ver se não origina uma sucessão de crises pegadas, uma longa e interminável crise. É o que Roubini avisa, se se continuar pelo actaul caminho de políticas recessivas e especulação continuda, Marx terá razão e o capitalismo cairá de maduro.
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Há pelo menos um caso que contraria o aforisno : tudo se transforma . . .
O Piscoiso permanece (e continuará) a ser imbecil.
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Eu devo estar calado, porque esse gajúh é volta não volta meu vizinho, e não é «cortêz» insultar os vizinhos… 🙂
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Essa de que “o dinheiro aparece sempre”, ouvi-a da boca do próprio Soares, em Belém.
Recusei.
Aliás, recusámos, já que de uma comissão se tratava.
O gajo não tem uma nesguinha de vergonha na cara.
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É pouco, ou mesmo nada, higiénico continuar a trazer este dejecto aqui ao “blog”…
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Acho que Cuba já tentou remar contra os mercados e o dinheiro nao apareceu…
Parece que a Albânia tentou mais ou menos a mesma receita.
O mal destes políticos que nadam em dinheiro ganho à custa da demagogia que apregoaram e apregoam, é que continuam a dizer às pessoas que o Estado deve gastar porque sim, porque as pessoas precisam e é assim que deve ser. Ainda nao repararam que foi o gastar porque sim que nos trouxe à bancarrota. Andamos a viver como ricos sem o sermos. Nós nao somos a China. Nao produzimos agora nem nunca o suficiente para nós próprios com evidente vantagem de nao comprar ao exterior, excepto num tempo em que o mercado era protegido. Mas nessa altura todos achavam incrível nao haver coca-cola em Portugal.
Se o Mario Soares fosse trabalhar, já que nunca fez nada de jeito na vida…
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Que bom ler isto! Julgava que era só eu que andava incomodada com tanto Mário Soares! O homem perdeu a compostura toda e a lucidez está a caminho. A bajulação em sua volta também não deixa de ser estranha! FOGO! Este artigo é o meu desabafo!
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O velho ainda serve para alguma coisa: vira do avesso este casinhoto atafulhado de liberalóides! Ficam todos frenéticos (e frenéticas) com duas bujardas do velhote! Afinfa-lhes, velhote, nestes lambecús do cardeal mercado!
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Quando ele morrer fisicamente (porque será sempre eterno) a Clara Ferreira Alves ainda o vai entrevistar com o patrocínio da Maya.
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“O homem perdeu a compostura toda e a lucidez está a caminho. ”
.
O que frusta mais Mário Soares é que Cavaco Silva e MFL, os seus ódios de estimação, são políticos respeitados pelo povo enquanto ele próprio já levou tareia em público. E estes incidentes, à medida que a cova se aproxima, começam a pesar muito nas memórias de um homem.
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Mário Soares tem razão em ser contra os mercados.
Eu também sou.
O mundo não seria bem melhor sem essa tirania da oferta e da procura? O que deveria ser era assim: a gente compra, se tiver dinheiro. Se não tiver dinheiro, o Estado dá.
O mesmo se passa quanto à morte.
Quando me perguntam o que penso da morte eu respondo: sou contra.
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Já outro dia aqui disse que há um tempo para tudo mas Mário Soares não o aceita!O homem está velho mas a juventude está jarreta,senão veja-se aqueles miúdos de Castelo de Vide.
jmf diz que só há um caminho a seguir,a austeridade.Eu digo que não só.Há que trabalhar,que é o que não se vê hoje.E esta asserção sai logo reforçada com o que jmf afirma a seguir:”pedimos dinheiro emprestado para as coisas mais elementares do dia-a-dia”.
Resumindo:não é fácil sair da cepa torta e para o fazer não precisamos de” matar”” os muitos velhos” -outra asserção de jmf -.Temos,o que não será fácil,alterar a nossa mentalidade.Veja-se,num país com défice demográfico,o grunhido que se faz pelo não pagamento da pílula aos que querem (…) à nossa conta,quando há medicamentos que entram no tratamento de doenças cancerosas que não têm comparticipação!
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O melhor nome que já li para o ladrão Mário Soares – ou o cara de cu com bochechas -, foi hoje e aqui no Blasfémias: o DEJECTO.
É um tema que os socialistas gostam de trazer sempre à baila: fallar em MERDA, no que são.
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Não deve haver mais pernicioso personagem pelo mal que fez a Portugal. Não por que seja especialmente mau, um Comunista faria muitas vezes pior, mas pelo poder que teve e tem.
O seu diletantismo copiado pela classe política e por jornalistas levou o país a este estado de infantilismo e adolescência permanente que é caraterístico do Soarismo.
O problema é que o adolescente perdeu os pais (os Mercados já não lhe dão mesada sem pedir contas) e agora tem de se deitar na cama que não fez.
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Vive em frustração, esses mercados ainda vão fechar a Fundação do maior demagogo português. Essa palhaçada, essa encenação é para fugir à responsabilidade que lhe cabe.
Gente sem vergonha contraiu dívida sobre dívida, faliu o País, agora sem condição de saldar os compromissos assumidos culpam os mercados.
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Mário Soares, mesmo com aquela provecta idade, vê muito mais e muito longe do que vocês todos.
O «mundo» dele não acabou, pois a filha-da-putice e a exploração nunca acabam.
O que acabou foi o vosso mundo de desenhos animados e figuras aos quadradinhos!…
Vocês, ao pé de Mário Soares, sois uns pigmeus. Uns servos de Deus!
Nem sequer têm noção da vossa «dimensão»…
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O mais viajado, dos presidentes, mais parecendo um soba, acompanhado, dos lambe botas, gastou rios de dinheiro dos contribuintes.
O que é que Portugal lucrou.
Viagens para consumo interno, quando, lá fora, ninguém lhe passa cartão nenhum. Outro coveiro, mais o imbecil do sampaio, e também cavaco.
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Posso não entender de política, mas não sou um reprogramado puxa saco, que pode não ser pigmeu, mas aparenta ser um pouco limitado nas idéias.
Na falta de argumentação o melhor é calar. Respeito é bom.
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Cala-te ó pulha parasita
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é preciso tratar destes monhés e destes liberais de treta como se trata a merda: com um saneamento adequado…
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Não sabia que o Arlindo da Costa era monhé…
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José Seguro, até pode ter razão, mas a máfia socialista continua no partido e este problema estraga o partido Socialista, basta ver por exemplo o despedimento colectivo de 112 pessoas do C. Estoril com trafico de influências dos socialistas, na altura o governo como tambem todas as instituições que regulam o direito ao trabalho. Por este motivo não acredito na conversa dos Partidos, todos querem emprego à nossa custa.
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alguém se deu trabalho de averiguar quantos anos e qual o montante de descontos feitos pelo Marocas para qualquer sistema de segurança social , CNP ou CGA. Se a sua reforma fosse , tão-só ,calculada com base no total de descontos apurados, corrigidos por qualquer factor de correcção monetaria,há muito que lhe faltaria o dinheiro para regar as sardimheiras de Nanfarros. Claro que a sua reforma é fruto do SISTEMA e é por isso e por milhares de sitauções semelhantes ,que isto está como está
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Mas uma coisa que me lembra e que ainda não li em comentario algum: qual tera sido a origem do estado actual do país? Eu posso dizer com seriedade, que após o 25 de Abril e me roubaram tudo o que tinha ganho em Angola e ainda pelo que vi acontecer neste meu querido Portugal, previ que a curto ou a medio prazo isto ia acontecer. Chamam a isto democracia? Onde esta a justiça? A segurança etc? E ja viram que depois do 25 de Abril só quem se manifesta é que é aumentado? Comparem as varias classes da socieddade portuguesa o que ganhavam antes e agora e é facil de ver que uns foram aumentados enquanto outros praticamente estagnaram. É isto democracia? Eu por ex em 1973 atravessava Luanda a pe,vindo de S.Paulo para a Vila Alice, por volta da meia noite ou mais tarde e nada me acontecia, nem ninguem se metia comigo. E agora o que é que pode acontecer até em pleno dia em alguns lugares do centro de Lisboa? Para não falar noutros lugares.
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parvos estúpidos e invejosos. Só isso faz falar os analfabrutos.
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